“É a nova Laranja Mecânica.” “Se a Holanda enfrentar a Seleção Brasileira, vai destruir.” “Já é favorita ao título mundial.” Desde a goleada sobre a Espanha, já entronizada na história das Copas (quem duvida?), a Holanda passou a ser alvo de todos esses elogios, tanto dos torcedores quanto da imprensa. É óbvia a quantidade de exageros e generalizações que está nessas frases, mas isso é outra história.

Mais importante, agora, é saber que a difícil vitória por 3 a 2 sobre a Austrália mostrou vários fatores, positivos e negativos, para a equipe holandesa. E deles poderá depender o destino da Holanda nesta Copa do Mundo. Felizmente, as dificuldades aconteceram num momento em que ainda podem ser corrigidas. Mas as decisões de Louis van Gaal também não podem demorar muito.

A primeira delas deu errado, por sinal. Apostar no 5-3-2 que deu certo contra a Espanha provou-se errado contra a Austrália. Ao invés de se impor contra um time de nível técnico mais fraco, a Oranje permitiu que os Socceroos se empolgassem com o jogo. E nem mesmo o gol de Robben – que começou bem, mas caiu de produção – escondeu o começo melhor dos australianos.

A prova disso veio tão logo o jogo foi recomeçado, com o belo gol de Tim Cahill – por sinal, exercendo perfeitamente o papel que tem na equipe de Ange Postecoglou, correndo por todo o ataque e sendo o principal homem para finalizações. Por sinal, o empate também mostrou como a defesa holandesa ainda causa calafrios. Nem tanto com Blind (pior do que contra a Espanha, mas ainda num bom nível), Vlaar e De Vrij (discretos e corretos).

Mas principalmente com Janmaat: se foi discreto contra a Espanha, o lateral direito foi temerário contra os australianos, tendo sido bastante atormentado por Bresciano e Jedinak. E Martins Indi também amedrontava a torcida holandesa, até levar um tremendo azar após a jogada com Cahill, desmaiando e causando até medo do que pudesse ter acontecido – felizmente, o zagueiro está bem, e o susto não passou de uma concussão cerebral, embora ela vá tirá-lo do jogo contra o Chile.

O pênalti de Janmaat que possibilitou a virada merecida da Austrália trouxe um grande desafio para a Oranje. Seria necessário apresentar, mais do que a habilidade vista contra a Espanha, um espírito de luta como a Holanda não costuma apresentar muito. Pois bem, ele apareceu. E justifica, em parte, a virada que trouxe a segunda vitória holandesa na Copa.

A outra parte que ajuda a explicar a virada holandesa está, óbvio, na habilidade. Como já dito, Robben começou muito bem o jogo, mas caiu de produção. A sorte é que Van Persie continua esplendoroso, sendo um dos melhores jogadores da Copa até o momento. E teve mais gente a auxiliá-lo. Como Sneijder, que apareceu menos do que poderia, mas já fez lances importantes na partida, como o do gol de empate.

Outra boa surpresa a ter ajudado na virada holandesa foi, claro, Memphis Depay. Sua entrada em campo foi duplamente surpreendente. Primeiro, pelo inesperado problema com Martins Indi. Depois, porque se havia um jogador esperado para trazer rapidez pela esquerda, ele era Jeremain Lens – até cogitado para começar como titular contra a Austrália, caso Van Gaal houvesse apostado num 4-3-3.

Pois bem: Depay ajeitou o ataque, ajudando Sneijder e Van Persie, e foi premiado com o gol da vitória, por mais que a falha do goleiro Mathew “Mat” Ryan seja inegável. Depois do triunfo, já se pode dizer que o atacante do PSV passou Lens e tornou-se a primeira grande opção de Van Gaal, caso sejam necessárias alterações no ataque durante o jogo.

E é preciso valorizar também a atuação dos outros meio-campistas. Se Sneijder já apareceu mais na armação das jogadas, De Jong e De Guzman foram mais voluntariosos na marcação. Não foram necessariamente bons, cometeram falhas, mas não deixaram os australianos respirar, como os espanhóis respiraram no primeiro tempo em Salvador. Claro, o pior nível técnico dos Socceroos também ajuda…

Enfim, depois da nova virada no jogo, a torcida holandesa tinha mais um motivo para ficar otimista. Expressado numa frase cantada nas arquibancadas do Beira-Rio: “Deze keer aan het overkant”, falada quatro vezes, com a melodia do refrão de “Go West”, sucesso dos Pet Shop Boys. Em holandês, “desta vez foi de virada”. De fato, o espírito de luta deste time holandês deixa a esperança de que nem mesmo sair atrás no placar, ou ficar em situação de desvantagem em algum momento da partida, possa abater definitivamente a Oranje.

Mas também há os fatores da ala do “copo meio vazio”. Não importa quantos cuidados defensivos sejam tomados, a defesa holandesa segue temerária. Algo que certamente trará problemas na próxima segunda, contra um Chile cuja marcação por pressão está bem treinada e cujo ataque traz razões para preocupação. Ao contrário do ataque holandês, inclusive, que não terá Van Persie, suspenso.

A vitória contra a Austrália colocou fatores positivos e negativos para a Oranje. Por enquanto, ela consegue contrabalançar os contras. Ficam os desafios: encarar cada jogo de uma vez e não se deixar levar pelas aparências. A Louis van Gaal, cabe acertar mais decisões, numa Copa que se tornará cada vez mais dramática. E ao time, cabe conseguir suplantar o Chile, também, para não precisar enfrentar, provavelmente, o anfitrião Brasil nas oitavas de final. Será difícil. Mas, por enquanto, o time prova que pode fazer isso. Há razões para esperança.