Quem chega à Freguesia do Ó pela Ponte do Piqueri nota, à sua direita, que há alguma coisa além da igreja e dos prédios no Largo da Matriz: uma bandeira azul gigante está estendida entre as torres do Residencial Parque dos Pássaros. E gigante, aqui, no caso, não é um exagero: com 60 metros de altura por 17,5 de largura, esta é a maior bandeira da capital paulista.

O bandeirão é tradição: feito pela primeira vez para a Copa de 1998, um novo é feito em cada mundial. A organização começa um ano antes –isso mesmo, desde junho de 2013 eles estão trabalhando nisso!–, com a arrecadação de dinheiro entre os moradores. “Tem quem contribui com cinco, tem quem contribui com 100. Tem quem reclamada da bagunça também, claro, mas é pouco, uns 2%”, diz Juninho, um dos diretores da Loucos do Parque.

LEIA MAIS: No Castelão, Brasil teve a torcida que precisa para vencer a Copa do Mundo

Sim, a organização em torno do bandeirão é tanta que os moradores do Pássaros até criaram esse nome e fazem camisetas amarelas a cada Copa do Mundo. E eles se reúnem para ver os jogos do Brasil, claro. Em 2014, o lugar escolhido foi o Bar do Max, na mesma Rua da Bica onde fica o condomínio. Mas antes do bar, aberto há um ano, os Loucos do Parque se juntavam no salão de festas e até no parquinho. “Em 2002, os jogos eram de madrugada, aí colocaram telão no parquinho. Foi a mais top que teve. Agora, com jogo de dia, não tem como colocar telão.”

Se não dá para ter telão, vai telinha mesmo: o Bar do Max colocou duas TVs, uma delas com o reforço de uma caixa de som — caixa esta que também fica ligada a uma mesa de som, responsável pela programação eclética do pré-jogo e do intervalo, passeando entre música eletrônica, reggae e até Hotel California.

Torcedores acompanham jogo em bares na Freguesia do Ó, São Paulo (Giovanni Santa Rosa/Trivela)

Torcedores acompanham jogo em bares na Freguesia do Ó, São Paulo (Giovanni Santa Rosa/Trivela)

O bar é de esquina, e cada TV fica voltada para uma rua. O mais curioso é que, enquanto a TV do lado da Rua da Bica é em SD, a outra, da íngreme Rua Anastácio de Souza Pinto, tem resolução HD. Como você deve saber, há um atraso entre as duas, então quem assiste em uma consegue ouvir os gritos de gol antes de ver a jogada. Porém, as pessoas não parecem se importar: nenhuma reação é antecipada e a comemoração –mais contida no gol de Thiago Silva, mais empolgada no chutaço de David Luiz– é a mesma, espontânea e sincera, assim como os xingamentos ao juiz e os gritos de “O campeão voltou!” e “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”.

Mas mais do que um bar qualquer, o que se vê é que tudo mundo conhece (quase) todo mundo ali. Mais do que futebol, reencontro. Mais do que Copa, reunião. O bandeirão, a alguns metros dali, pendurado e bem visível para quem chega ao bairro, é o que junta os Loucos do Parque a cada quatro anos.