Uma equipe do porte do Vitória de Guimarães inicia o Campeonato Português, de modo geral, com o objetivo principal de não ser rebaixado para a segunda divisão. Claro que há sempre o sonho de beliscar uma vaga nas competições europeias (como fez na temporada passada), mas permanecer na elite já é algo a se festejar.

Mas, será que para o apaixonado torcedor isso basta? Uma campanha burocrática, que deixe a equipe no meio da tabela de classificação, sem passar por grandes sustos, é suficiente para contentar as arquibancadas? Nem sempre. E a torcida do Vitória de Guimarães vem demonstrando isso nos últimos dias.

O time corre pouquíssimo risco de rebaixamento. Mas não vence há nove jogos seguidos, pior série nos últimos 12 anos. A última vez que os vimaranenses puderam comemorar um resultado positivo foi quando de um magro 1 a 0 sobre o Rio Ave. Disputado em 16 de fevereiro, o jogo ocorreu antes do Carnaval. Passada toda a Quaresma e chegando à Páscoa, a equipe seguiu em jejum.

A má fase está mexendo com o orgulho dos torcedores. Eles sabem que o pesadelo de disputar a segunda divisão da próxima temporada é algo quase impossível de acontecer, dada a distância que separa o Vitória de Guimarães da zona de rebaixamento. Mas não aguentam mais a rotina de reveses.

Do triunfo derradeiro para cá, foram dois empates e sete derrotas. Quatro dos resultados negativos ocorreram de maneira seguida, sendo o último deles na abertura da rodada que está em andamento, a antepenúltima da competição: 3 a 2 para o Arouca, em casa, com direito a gol da vitória do adversário no último minuto.

Foi o estopim da crise, o necessário para a Quinta-Feira Santa transformar-se numa noite de protestos, violência e preocupação, abrindo um feriadão de Páscoa nada feliz. A confusão começou no próprio estádio D. Afonso Henriques, onde, apesar do forte esquema de segurança, dois foguetes foram atirados contra o ônibus que levava a delegação de volta para o hotel. O veículo fez o percurso escoltado pela polícia e, ao chegar à concentração, o time novamente foi alvo de insultos. Na Sexta-Feira Santa, a sede do clube amanheceu com os portões cercados por seguranças e o tradicional treino regenerativo foi cancelado.

Na rápida entrevista concedida após a derrota para o Arouca (que comemorou bastante o resultado, pois ficou muito perto de escapar da degola), o técnico Rui Vitória resumiu tudo de forma simples e quase inocente. “É quase inacreditável o que está acontecendo. Estamos todos muito tristes. Não merecemos isso. Estamos passando por uma fase negra”, disse.

Ele tem razão. A nuvem negra que paira sobre Guimarães – principalmente no segundo turno do campeonato – parece fazer com que qualquer esforço seja em vão. Para o jogo diante dos arouquenses, por exemplo, Rui Vitória tinha nada menos que nove desfalques, entre jogadores contundidos e suspensos. Para completar a lista dos convocados, ele precisou lançar mão de quatro atletas da equipe B.

Nem mesmo quando foi rebaixado para a Segunda Liga, o Vitória de Guimarães teve uma sequência tão negativa de resultados. Na temporada 2005/06, ficou sete jogos sem ganhar, dois a menos do que já soma agora. Situação semelhante à atual, o clube vivenciou somente em 2001/02, quando atingiu a marca de nove partidas sem vencer – embora, naquela oportunidade, tenha empatado quatro vezes (agora, foram apenas dois empates).

Os minhotos parecem não ter condições técnicas para reverter a situação em curto prazo. Por isso, faltando apenas dois jogos para o final da temporada (contra Acadêmica, fora, e Braga, em casa), Rui Vitória apela para o lado psicológico na tentativa de convencer jogadores – e torcida – de que nem tudo está perdido. Numa de suas últimas entrevistas, evocou até os antepassados. “Os portugueses, quando foram para os descobrimentos, ficaram conhecidos não só pelas conquistas, mas pelas tormentas que ultrapassaram. Esta equipe tem de ser reconhecida pelo que passou”, disse.

O reconhecimento pedido dificilmente virá se o time não sair vencedor de pelo menos um dos próximos dois compromissos. Por mais que a posição na tabela de classificação não seja assustadora (muito por conta da campanha feita no primeiro turno), o orgulho do torcedor está ferido. E essa enfermidade só se cura com vitórias, do Vitória.