Grêmio e Independiente possuem um histórico recheado de grandes jogos em competições internacionais. Os adversários da Recopa Sul-Americana de 2018 farão nesta quarta a sua terceira final continental, depois de já terem se encontrado na decisão da Libertadores de 1984 e também na Recopa de 1996. Além disso, se pegaram em outras duas ocasiões sob a chancela da Conmebol: na Supercopa de 1994 e na Copa Mercosul de 1999. E o passado entre Rojo e Tricolor, ainda assim, é mais extenso. Antes das partidas oficiais, argentinos e brasileiros se encararam cinco vezes em amistosos, entre 1940 e 1981. O primeiro embate, há quase oito décadas, merece ser relembrado por sua representatividade.

O Independiente, em excursão pelo Brasil naquela virada de ano, não era qualquer time. O esquadrão de Avellaneda desembarcou no Rio de Janeiro em dezembro de 1939 como atual bicampeão argentino. O Rojo contava com um dos melhores elencos de sua história, protagonizado por lendas do quilate de Arsenio Erico, Antonio Sastre, Vicente de la Mata, Fernando Bello e Juan José Zorrilla. E apesar da falta de consistência nos resultados, com algumas derrotas no caminho, não era de se negar a força dos alvirrubros. Os visitantes chegaram a bater o Flamengo de Leônidas e Domingos da Guia por 4 a 3. Já o resultado mais acachapante aconteceu nos impiedosos 8 a 1 sobre o Botafogo de Zezé Moreira, Carvalho Leite e Perácio.

Saindo do Rio, o Independiente passou por Belo Horizonte em janeiro de 1940, perdendo para o Atlético Mineiro e vencendo o América. Por fim, a excursão terminou com uma parada em Porto Alegre, para duelar com Internacional e Grêmio. Os colorados tinham ficado satisfeitos com o empate por 3 a 3, revertendo a desvantagem de dois gols na reta final do segundo tempo. Pois os tricolores conseguiriam ainda mais. A equipe gremista também inspirava respeito, bicampeã citadina – em um momento no qual a dupla Gre-Nal se ausentou do Gauchão. Aquele amistoso no antigo Estádio da Baixada seria o primeiro da história do clube contra um adversário argentino. E o placar serviu para marcar a data inesquecível.

Entre os destaques do Grêmio, jogadores que seguem lembrados no panteão tricolor. A defesa contava com Luiz Luz, presente na Copa do Mundo de 1934. No meio-campo, despontava Noronha, que depois partiria ao São Paulo e disputaria a Copa de 1950. E no ataque, o idolatrado Foguinho, que também faria história como treinador – reconhecido como um dos principais responsáveis por incutir o “estilo aguerrido” entre os gremistas a partir da década de 1950. O protagonista na Baixada, de qualquer forma, sairia do banco. O atacante Luiz Carvalho, aos 33 anos, estava ali para a sua despedida. Aclamado artilheiro, anotou 17 gols em Gre-Nais, marca ainda hoje superior a qualquer outro jogador tricolor. Além disso, naquele momento, também era o maior goleador do clube desde sua fundação – atualmente, ocupa o quinto lugar na lista histórica. Faria contra o Independiente o último de seus 160 tentos com a camisa gremista.

Mesmo sem Erico e Bello, o Rojo contava com um time de bastante respeito. E justamente o substituto do paraguaio daria a vantagem aos visitantes na Baixada. Andrés Coll abriu a contagem no primeiro tempo. A reação do Grêmio, todavia, tomou forma na etapa complementar. Aos 20 minutos, Luiz Carvalho empatou, emendando com violência um cruzamento de Malaquias. Já a virada se consumou aos 43 do segundo tempo. Luiz Carvalho iniciou a jogada, Foguinho ajeitou e Malaquias, depois de driblar Sanguinetti, acertou uma bomba na meta do goleiro Carlet. Pintura que decretou a vitória por 2 a 1 e levou à loucura a multidão presente nas arquibancadas.

“A massa em delírio invadiu como uma torrente a cancha do fortim, saltando o aramado e as cadeiras numeradas. Em triunfo, a multidão carregou os gloriosos tricolores”, descrevem os jornais da época. “O Grêmio igualou-se na técnica e superou no ardor os famosos ‘craques perfeitos'”. Além disso, o jornal também trouxe análises assinadas por outras personalidades, inclusive por Sastre. Entre estas, está a de Cícero Soares, dirigente da época, intitulada ‘O sentido patriótico de um grande feito’: “O valoroso quadro do Grêmio escreveu em letras de ouro um dos feitos mais brilhantes do futebol gaúcho. Tenho mesmo a impressão de que o memorável triunfo do quadro tricolor assinalará o início de uma nova era de progresso para o futebol metropolitano”.

Por fim, as palavras de Foguinho, em uma coluna especial, traduzem muito bem o sentimento: “O Grêmio confirmou sua tradição dentro da Baixada. Jogamos com alma e coração, conscientes da nossa responsabilidade de bicampeões. Estou empolgado pelo feito extraordinário de meus companheiros. A crença geral de que seríamos levados de roldão ruiu como um castelo de areia. Superamos todas as previsões e eu sofri uma das emoções mais violentas de minha carreira. Exulto e, francamente, nem sei o que posso fixar neste palmo de coluna. O delírio que se apossou do público traduz a alegria enorme da torcida. Honramos o pavilhão tricolor e o futebol nacional ao abater os valorosos argentinos com uma equipe de verdadeiros craques”.

“O triunfo do Grêmio é do ‘soccer’ gaúcho. Nossos esforços foram compensados. Se mais eu não produzi, foi porque as forças me traíram. Gastei todas as minhas energias, mas estou satisfeito, mais que satisfeito, radiante pela inestimável vitória. A técnica encontrou outra técnica, aliada à vontade férrea de vencer. Jogamos com alma e coração, colhendo o maior êxito de minha carreira”, finaliza o atacante, em uma descrição que seguiu resumindo o Grêmio em outros tantos momentos gloriosos. Uma inspiração para se repetir também no encontro desta quarta.