O aperto no estômago estava presente nos torcedores dos dois times do dérbi paulistano, mas o do corintiano era um pouco maior. Era mais receio que ansiedade e expectativa. Medo, talvez, embora qualquer análise apontasse o time invicto desde a retomada do Campeonato Brasileiro como favorito contra aquele que perdeu a terceira seguida no torneio. A explicação é muito simples: o Corinthians não podia perder o primeiro clássico contra o maior rival no Itaquerão.

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A relação entre os apaixonados torcedores alvinegros e o seu estádio novinho em folha ainda dá os primeiros passos. Um começo de namoro turbulento, com a derrota para o Figueirense na estreia e um empate contra o Botafogo, que vai entrando na lua de mel com os resultados pós-Mundial. E muito mais do que ganhar do Internacional, na briga pela parte de cima da tabela, a vitória contra o Palmeiras foi o recado mais claro de que o Corinthians está aprendendo a jogar em casa.

Debaixo de uma chuva fraca, porém resistente, constante e sem nenhum sinal de desistir, muitos dos 31 mil torcedores que pagaram ingresso para ver o clássico devem ter pensado se não haviam feito um investimento ruim durante um primeiro tempo sem ocorrências. O editor de melhores momentos da televisão quebrou a cabeça para montar o seu vídeo. O coração palpitou mais rapidamente apenas em bolas levantadas na área, geralmente cortadas sem nenhum problema pelos zagueiros. O Palmeiras, embora teoricamente mais ofensivo, foi empurrado pelo Corinthians e mal tocou na bola. “O Corinthians fez o Palmeiras se defender mais tempo. Esse foi o nosso mérito”, afirmou o técnico Mano Menezes. Restou aos visitantes o contra-ataque, geralmente pela direita, setor de Wesley, melhor meia do Palmeiras, e de Wendel, a prova viva dos méritos da perseverança. Com idas e vindas, o lateral direito joga há dez anos no clube e nunca conseguiu ganhar uma descrição melhor que esforçado. Sempre aparece como opção na linha de fundo e nunca acerta o cruzamento.

Apenas aos 41 minutos ocorreu ao time que deteve a posse de bola que ela deveria ser chutada para os gols acontecerem. Ralf pegou de fora da área e acertou os braços de Fábio, um dos responsáveis pelo placar não ter sido mais elástico. Logo em seguida, fez outra boa defesa em arremate de Guerrero. Arriscando, mesmo que seja de longe, o Corinthians terminou o primeiro tempo acuando o adversário. Como um bom mandante deve fazer.

O intervalo não esfriou os anfitriões, e o placar foi aberto com cinco minutos de segundo tempo, no momento em que o Palmeiras sentiu a ausência de volantes e de atenção. Elias tem como principal característica a infiltração. Logo, embora seja um jargão, não pode ser exatamente classificado como arma surpresa. Mas ninguém vestido de verde marcou o melhor jogador do time adversário, que recebeu a bola na intermediária, driblou um perdido Tobio apenas com o remelexo do corpo e achou Guerrero, no lugar onde o zagueiro argentino estava antes de dar combate na entrada da área, pois foi o único que percebeu que Elias deveria ser parado.

E então a torcida corintiana inflamou-se. Como nunca, começou a cantar que enfrentava “um time de segunda” e que o resultado inevitável seria uma goleada do Timão. Apesar da alegria que irradiava das arquibancadas, o Palmeiras passou a jogar um pouco mais. Reteve a bola, buscou os lados do campo, mas no fim esbarrou na própria limitação. Enfrenta a matemática, pois tem muitos jogadores que acertam apenas uma em cada cinco jogadas e, para vazar uma defesa bem organizada como a do Corinthians, todos eles têm que acertar ao mesmo tempo. Faça a conta.

O Palmeiras atua no limite da sua qualidade técnica. Corre, é aguerrido e bem disposto em campo por Ricardo Gareca, mas precisa imediatamente de reforços. A criação de jogadas, sob a responsabilidade de oscilantes Mendieta e Felipe Menezes, é pavorosa. Não à toa, o torcedor argentino pareceu um pouco deprimido após a partida, embora o discurso fosse de continuar o trabalho, com os bons jogadores que considera ter e sem explicitar quais os principais problemas da equipe. “Tentamos jogar, mas o Corinthians não deixou. Foi muito melhor”, afirmou. O seu clube deu um pouco de azar com a tabela porque enfrentou o líder e atual campeão Cruzeiro entre dois clássicos, contra Santos e Corinthians. O que só aumenta a pressão para ganhar do Bahia, no próximo final de semana, no Pacaembu. “É difícil perder três jogos seguidos, aqui, na Argentina, em qualquer lugar”, completou.

Nos acréscimos do segundo tempo, o golpe final saiu novamente dos pés de um Elias constrangedoramente livre. Achou Petros, à direita, e o chute da ótima revelação corintiana acertou a trave, que poderia ter rebatido a bola para vários ângulos, mas escolheu aquele que a fizesse bater nas costas de Fábio e entrar. A trave, como o Palmeiras aprendeu na tarde deste domingo, também já sabe quem manda em Itaquera.

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