A onze rodadas do fim da Ligue 1, o Paris Saint-Germain já colocou as mãos na taça. A rodada dos sonhos para o clube da capital teve a vitória incontestável por 2 a 0 no clássico contra o Olympique de Marselha, mas também reservou a derrota do vice-líder Monaco para o Saint-Étienne pelo mesmo placar. Com isso, o PSG abre oito pontos de vantagem sobre os monegascos e apenas espera a contagem regressiva para comemorar mais um título. Era a gordura necessária para a equipe se concentrar no que realmente importa neste fim de temporada: a Liga dos Campeões.

O Olympique de Marselha foi ao Parc des Princes com o pódio em sua mira e com a intenção de quebrar a série de quatro derrotas no clássico. Para tentar frear o ímpeto dos donos da casa, José Anigo repetiu a formação ofensiva e mandou a campo o quinteto formado por Ayew, Thauvin, Valbuena, Gignac e Payet. A estratégia do treinador teve bom efeito durante o primeiro tempo, com o OM eficiente na contenção de Thiago Motta e Verratti.

Isso não quis dizer, porém, que o PSG ficou acuado em seu campo e com o adversário em sua jugular. Lavezzi, Lucas e Ibrahimovic (discreto nos 45 minutos iniciais) tiveram suas chances, mas o domínio parisiense só seria confirmado na etapa final. Em um raro momento de desatenção da defesa marselhesa, Ibra achou Maxwell completamente livre para abrir o marcador. Aliás, o brasileiro fez uma bela partida: além do gol, ele anulou as investidas de Thauvin e foi fundamental para a construção da vitória do PSG.

Quem merece muitos louros pela vitória, porém se chama Edinson Cavani. O atacante voltou ao time após se recuperar de uma lesão e provou ser mesmo um jogador indispensável. O uruguaio se tornou a grande diferença entre o PSG de Carlo Ancelotti da temporada passada e este de Laurent Blanc. Foram necessários apenas dez minutos para provar o que o separa de bons jogadores como Lucas e Lavezzi.

Estes dois tiveram um bom desempenho no clássico – o brasileiro esteve a ponto de marcar um golaço. Tanto Lucas como Lavezzi cumpriram com eficiência a tarefa de abrir a defesa marselhesa com seus avanços pelos lados do campo. Como sempre, porém, faltou aquele poder de decisão no lance derradeiro, naquela hora de manter a calma para definir os rumos da partida. Cavani tem esse sangue frio, mais do que comprovado nos quase 20 minutos nos quais ficou em campo.

O uruguaio não desiste nunca e se mostra incansável mesmo quando suas condições físicas estão abaixo do ideal. Sem ele, o PSG perde aquele jogador que sempre brilha nos momentos decisivos. Muito embora Ibrahimovic viva uma temporada dos sonhos, o sueco tem seu potencial multiplicado quando tem Cavani como seu parceiro lá na frente. Lucas e Lavezzi são bons coadjuvantes para Ibra; já Cavani ousa dividir os holofotes com a grande estrela da companhia, o que pode ser fundamental para a sobrevida do PSG na Champions.

Um jogo comum

De volta ao clássico, o Olympique de Marselha chamou a atenção por uma coisa: o time entrou em campo como se estivesse enfrentando um Sochaux, Nantes ou Valenciennes. Era de se esperar uma postura mais defensiva dos marselheses no Parc des Princes, mas a opção por manter o esquema ofensivo mostrou que o OM já estava preparado para a derrota – uma constatação irritantemente verdadeira para seus torcedores.

Todo clássico desperta a máquina de chavões da imprensa, e um deles é o de que jogos assim não têm favorito. Por este ponto de vista, PSG x OM deixou de ser um clássico. Afinal, ninguém duvida da superioridade parisiense diante da realidade paralela vivida pelos marselheses. Há um abismo abissal entre o mundo marcado pelo dinheiro em abundância, astros internacionais e toda a atenção da mídia para os parisienses e o dia a dia do OM marcado pelos recursos a conta-gotas, contas pagas no laço e um punhado de boas intenções com um elenco limitado.

Se nem seu rival histórico faz cócegas em suas ambições, o PSG vislumbra um horizonte digno dos mais doces sonhos. O Monaco, seu adversário mais incômodo, insiste em tropeçar mais do que deveria e deixa o caminho livre para os parisienses. Com oscilações típicas de quem ainda tenta se adaptar à nova realidade endinheirada, o ASM talvez ofereça um perigo maior na próxima temporada. Mesmo assim, precisará de novo torrar muitos euros se quiser competir de igual para igual com um concorrente maduro.

Dentro da Ligue 1, o PSG busca agora bater recordes. Não que esta seja sua maior motivação daqui até o fim da temporada, mas seria a única graça para o time se manter motivado em uma competição da qual todo mundo já sabe quem será o campeão. Os parisienses têm a chance de entrar para a história como os donos da campanha mais marcante de todas as edições do campeonato.

Se considerarmos três pontos por vitória em campeonatos mais antigos, os recordistas na história do Francês são o Stade Reims (1959/60) e Nantes (1965/66), com 86. O PSG tem 64 em 27 partidas (aproveitamento de 79%), com mais onze jogos a disputar. Se mantiver este desempenho, o time da capital alcançará esta marca com facilidade, já que faria mais 26 pontos e chegaria a 90.

Os parisienses também podem bater a marca de maior número de vitórias conquistadas na temporada. Além dos já citados Stade Reims e Nantes, o Monaco (1960/61) e mais uma vez o Nantes (1979/80) detêm o recorde de maior número de vitórias em uma edição do campeonato: 26. O PSG está com 19 no momento; não seria impossível imaginar o time ganhando oito de seus onze duelos restantes.

Por fim, o PSG pode se tornar o campeão com maior saldo de gols da história. A marca atual (levando-se em consideração torneios disputados por 20 clubes) pertence ao Stade Reims (1959/60), com saldo de 63 (109 gols pró/46 contra). Com a dupla Ibrahimovic e Cavani em estado de graça, o PSG já tem um saldo de 46 (64 gols pró/18 contra), o mesmo alcançado na temporada passada.

Os números apenas comprovam que o PSG já transformou a Ligue 1 em seu feudo, separado dos demais concorrentes por um belo fosso repleto de jacarés, muros de altura estratosférica e um campo minado dos mais perigosos. Com o domínio caseiro estabelecido, está mais do que na hora de o time marcar terreno em áreas continentais. De nada adianta ser um latifundiário no meio de um imenso deserto e posar de dono do mundo sem sair de suas terras improdutivas.