Paulo André

Você pode discordar de Paulo André, mas como foi bom ter um jogador que fala o que pensa

Paulo André começou a sua última entrevista como jogador do Corinthians com um agradecimento e a terminou pedindo desculpas “por qualquer coisa”. Gesto nobre, educado, do zagueiro que conquistou os títulos mais importantes que poderia. A passagem de cinco anos do Zica das Artes pelo Parque São Jorge, que se encerrou nesta semana, com o acerto dele com o Shanghai Shenhua, da China, contribuiu de várias formas para que a bola role melhor por aqui.

Paulo André não é cientista social, e pouco importa se escreve bem ou não, lê Nietzsche ou gibi da Mônica. Entre muitos jogadores que medem as palavras nos milímetros, não teve medo de falar o que pensa. Apoiou as manifestações de junho do ano passado contra o aumento da tarifa dos transportes em São Paulo e tirou delas a coragem para liderar o Bom Senso FC, união praticamente inédita de jogadores para incomodar o comando do futebol brasileiro e mudar algumas coisas.

E por isso, ele foi criticado. Torcedores irritados com a má fase do Corinthians colocaram a culpa das atuações ruins do zagueiro dentro de campo no que ele estava fazendo fora dele. Estava distraído, desconcentrado, despreocupado. Virou sindicalista. O rendimento dele, porém, caiu junto com o do time, e não foi a primeira vez que ele vestiu a camisa preta e branca de manhã e foi fazer outras coisas à noite.

“Fomos campeões brasileiros em 2011 e eu ganhei um prêmio individual. Naquele ano, eu pintava quadro. No ano seguinte, fomos campeões e eu fiz um leilão beneficente. Em outro, escrevi um livro. Fazer coisas fora de campo, desde que você tenha discernimento e não prejudiquem seu trabalho no dia a dia, é até benéfico, porque o futebol tem o poder de conversar com a juventude do nosso país. Se conseguirmos passar bons exemplos e quebrar o paradigma do atleta que é analfabeto, que não sabe dar entrevista, que gosta de balada e gasta dinheiro a torto e a direito, por que não fazer?”, perguntou.

Ele fez. Era a voz mais lúcida do Bom Senso FC e, não à toa, o porta-voz do movimento. Batia em quem estava em cima. As críticas ao presidente da CBF, José Maria Marin, eram frequentes. Em um evento da Federação Nacional dos Atletas Profissionais do Futebol, bateu boca com Eurico Miranda. Expressou a sua opinião, apesar do risco de elas prejudicarem a sua carreira de alguma forma, e justamente por isso o anúncio da sua saída causou espanto. Ele abandonou a chance de deixar um legado no futebol brasileiro para buscar a independência financeira e porque gostou do projeto da equipe, que acabou de ser adquirida por um patrocinador.

Tem todo direito, claro. O governo ditatorial é o chinês, não o brasileiro, mas é uma pena. A sua função de escudo será agora responsabilidade de outra pessoa, provavelmente Fernando Prass, do Palmeiras. Paulo André pode continuar participando, discutindo e sugerindo ideias, mas obviamente não terá mais a mesma influência. Em um tom que varia da brincadeira à seriedade, disse que a sua saída pode até fortalecer o Bom Senso.

“Talvez não tendo minha figura, todo mundo enxergue que o movimento é da Série A e B do futebol brasileiro. São mais de mil atletas. Nesse sentido, sem dúvida, o Bom Senso ganha muito com a minha partida”, brincou. “Vocês vão ouvir falar de mim, vou participar. Tem gente trabalhando no movimento, mais de 20 atletas ativos cuidando de tudo. Apesar de eu ser o cara mais maluco, que dava a cara e dava entrevista, tem gente fazendo tudo isso. Não é porque um vai se aposentar ou outro vai embora do país que o movimento vai parar. Há uma urgente necessidade de mudança”.

Na China, vai precisar se adaptar à dinâmica de um governo que não gosta muito que os outros expressem suas ideias. Tudo que ele conhece do país tirou da Olimpíada de 2008 e do filme O Último Dançarino de Mao, a história de um garoto de 11 anos que foi levado de uma pequena vila para Pequim para aprender balé. “Eu preciso aprender mandarim para tentar me comunicar com os caras”, disse.

Paulo André vai levar suas convicções para o outro lado do mundo e esperamos que elas não se enfraqueçam com a distância. Talvez em dois anos, ele volte e continue a sua luta, com a qual é possível até discordar, mas é sempre um sopro de esperança encontrar um jogador que fala o que pensa. Pouco afeito a clichês, ele disse um verdadeiro. Os jogadores passam, o Corinthians fica. Com o futebol brasileiro é a mesma coisa, mas, nesse caso, ficou menos inteligente.