Coutinho ao lado do amigo Pepe (Foto: Cauê Diniz)

Você pode discordar de Coutinho, mas ele tem o mérito de falar o que pensa

Naquela história de que tudo é relativo, às vezes fica difícil ter a medida exata do tamanho de alguns jogadores daquele Santos dos anos 1960. A comparação com Pelé pode sempre diminuí-los, e o fato de estarem em um time praticamente perfeito, aumentá-los. Mas é um desafio ainda maior contestar que Coutinho foi um dos gigantes da sua época e um espetacular camisa 9. Com 368 gols e 457 jogos pelo clube da baixada, além de 70 anos nas costas, fala o que vem à cabeça sem se preocupar muito com qualquer coisa.

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Às vezes, Coutinho diz algumas besteiras, mas pelo menos é autêntico e tenta não medir muito as palavras. Recentemente, chamou Robinho de “ídolo de ninguém” e garantiu que jogaria no futebol atual de “olhos vendados”. Paradoxalmente, ou até por isso mesmo, não é tão afeito a entrevistas e se recusou até a fazer parte do livro dos dez melhores jogadores da história do Santos.

Na manhã desta terça-feira, na região central de São Paulo, estava de barriga cheia, animado e quase disposto a bater papo. Não fugiu de nenhum assunto, mas também não falou muito sobre nada. As frases são curtas, carregadas de críticas e um humor um pouco irônico, sem muito conteúdo. Não quis se alongar no assunto racismo, dois dias depois de Daniel Alves sofrer ofensas preconceituosas da torcida do Villarreal. “Nunca presenciei, mas faria a mesma coisa que o Daniel Alves fez”, afirma. “Isso tem que ser combatido, mas tem que partir dos diretores. Jogador não vai sair de campo para brigar na arquibancada. Alguém tem que brigar por ele.”

A campanha publicitária que foi ativada com essa atitude do lateral direito do Barcelona não entra no escopo de interesses de Coutinho. Ele fala sobre futebol. E comentou também o momento de Neymar, cujas costas carregam a responsabilidade de liderar o Brasil na Copa do Mundo de 2014 e cujas orelhas continuam quentes pelas críticas da imprensa espanhola às simulações de falta que ainda fazem parte do seu repertório. “Parece que joga de patinete. Deveria se esforçar mais para ficar de pé. Não é malandragem, é cai-cai”, comenta. “Acho que a responsabilidade tem atrapalhado ele. Só se fala dele, é tudo sobre ele. Sinceramente, eu acho uma idiotice. Os outros caras que jogam ao lado dele devem se sentir uns merdas.”

Coutinho participou do lançamento de uma série de documentários da National Geographic com cinco episódios, cada um focado em uma conquista mundial do Brasil, em homenagem ao centenário da Seleção. Portanto, não havia como não falar sobre o time de Luiz Felipe Scolari. O time, por favor, não a família. “No Brasil, temos a mania de dar apelido para tudo”, diz. “Tem é que pegar o pessoal e dar moral, extrair o melhor deles.”

Felipão adoraria poder extrair o melhor de Coutinho. Ele seria titular da camisa 9 sem grandes contestações, como era para a Copa do Mundo de 1962 antes de se machucar. Do alto dessa autoridade, contesta as opções de centroavante que o gaúcho de bigode tem para escolher, até Fred – “Não tem outro, né?” -, antes de emendar críticas às alternativas, como Leandro Damião e Alan Kardec. “É Copa do Mundo, não é um amistoso no Paraguai”, lembra.

Coutinho nem tentou esconder a risada (Foto: Cauê Diniz)

Coutinho nem tentou esconder a risada (Foto: Cauê Diniz)

O entrosamento com Zito e Pepe continua afiado. Sentados lado a lado na entrevista coletiva de divulgação do documentário, dirigido pelo jornalista Mauro Beting, José Macia faz dois elogios tão grandes a Coutinho que deixariam qualquer um com as bochechas vermelhas. Simplesmente o comparou a Romário e Pelé. “Romário tinha muito do Coutinho. Aquela frieza na hora de fazer o gol. E ele era muito confundido com o Pelé. Chegou a jogar de meia arriada porque toda besteira que o Pelé fazia era creditada a ele. Então ele quis ganhar um pouco dos méritos também”, brincou. “Era confundido por causa da cor”, interrompeu Coutinho.

No mesmo papo, Beting, uma espécie de mestre de cerimônias, brincou bastante com Zito. Provocou, chamou o volante de botineiro e mencionou a troca dele por Clodoaldo no time titular do Santos, no final dos anos 1960, sempre com bom humor, enquanto Coutinho ficava ao lado, gargalhando sem parar. Parecia um adolescente no fundo da classe rindo das palhaçadas do colega que faz o papel de piadista. Como se ainda tivesse os mesmos 16 anos com os quais estreou na seleção brasileira, e ainda bem que ele ainda consegue manter esse espírito vivo, apesar de muito tempo já ter passado.

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