Uma vez que Tevez rescindisse seu contrato milionário com Shanghai Shenhua, não haveria outro destino para o atacante argentino de 33 anos que não fosse a Bombonera. Na noite da última sexta-feira, o Boca Juniors anunciou a sua contratação pelo Twitter: “Tevez voltou para casa”. E o jogador arrematou dizendo que nunca havia ido embora, o que, pelas suas atuações na China, não é uma afirmação descabida. Mas a realidade é que ele foi embora, depois de algumas turbulências, o Boca Juniors seguiu em frente e agora terá que se adaptar. O sucesso do craque passa longe de ser uma certeza nesta terceira passagem pelo clube do seu coração.

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Em 2015, Tevez deixou a Juventus, depois de ter arrebentado na Champions League, e foi recebido por 50 mil pessoas na Bombonera. Mas a tentativa de reviver as boas memórias do passado poucas vezes dão certo. Pouco menos de um ano depois, Tevez dizia que às vezes não entendia por que havia decidido retornar. Teve problemas com a imprensa e estava insatisfeito com o seu desempenho. Chegou a falar em aposentadoria. Quando Arruabarrena deixou o Boca, fez lobby para a contratação de Jorge Sampaoli. Não foi bem sucedido e teve que engolir Guillermo Barros Schelotto, com quem não tem uma boa relação e que, agora, é seu novo chefe.

Segundo o La Nación, além de Sampaoli, Tevez tentou emplacar o amigo Gabriel Heinze como treinador do Boca Juniors, o que não deixou Schelotto particularmente feliz. Há arestas para serem aparadas também com o elenco, que se ressentiu de ele ter ido embora sem se despedir. “Entendo que Tevez sabe que nós estamos muito bem. Ele sabe que virá à equipe para somar, não para subtrair”, disse Schelotto, ao jornal argentino.

Porque, sem Tevez, o Boca melhorou coletivamente e conseguiu ser campeão argentino. Entra em 2018 com altas expectativas para repetir o título (lidera a Superliga com 30 pontos em 12 rodadas) e para fazer um bom papel na Libertadores. Tem novos rostos: Buffarini e Emmanuel Más para as laterais, e Ábila para o comando de ataque. O ex-jogador do Cruzeiro é inclusive amigo de Tevez e sua ida para a Toca da Raposa foi uma das frustrações de Carlitos durante sua última passagem.

Ábila é o substituto perfeito para Benedetto, que sofreu uma séria lesão e passará vários meses afastado. O ataque ainda tem Edwin Cardona, outro recém-chegado, e Cristian Pavón, especulado no Arsenal. É uma bela linha de frente, e Tevez terá que atuar bem com regularidade para se manter entre os titulares com méritos. E, se não conseguir, tem tamanho demais para sentar tranquilamente no banco de reservas.

Quando um jogador volta bem da China, podemos suspeitar se ele precisará de tempo para se adaptar a um futebol mais competitivo. E quando volta mal? Tevez nunca entregou o que os chineses esperavam quando o tornaram o detentor do maior salário do mundo. Fez apenas quatro gols em 16 partidas. Seu último jogo foi em novembro e certamente precisará de tempo para pegar no tranco novamente.

O contexto, porém, é totalmente diferente. Ao contrário de 2015, Tevez não retorna como o salvador da pátria. Foi reapresentado discretamente, com uma foto no Twitter, correndo na esteira. Sem festa, sem 50 mil pessoas. Nem fez questão de assumir a camisa 10 que agora é de Cardona – dois anos atrás, recebeu-a de Nicolás Lodeiro – e aceitou usar a 32. A pressão é menor. Obviamente, Tevez tem uma capacidade acima da média para o mundo inteiro e um poder de decisão sem igual para o futebol sul-americano. Resta saber se outros fatores permitirão que o Boca Juniors utilize esta arma da melhor maneira.