Não há mais ausência nos jogos, anúncio da Nike ou especulação na imprensa europeia que gere mais dúvidas. A oficialização do negócio, enfim, aconteceu neste sábado: Philippe Coutinho é o novo reforço do Barcelona. Depois das investidas insistentes no início da temporada, o Liverpool conseguiu segurar o seu camisa 10 e desfrutou de algumas boas atuações na primeira metade da temporada. No entanto, meses após renovar seu contrato com os Reds sem estipular uma cláusula de rescisão, já estava clara a vontade do brasileiro. E depois de mais alguns dias intensos, ela se consumou. O meio-campista já posou sorridente a caminho da Catalunha, enquanto o Barcelona divulgou a imagem da camisa de Coutinho nos vestiários do Camp Nou.

Em suas notas oficiais, Barcelona e Liverpool não divulgaram o valor do negócio. Apenas confirmaram que Coutinho assina por cinco temporadas e meia, com uma cláusula de rescisão estipulada em €400 milhões. Segundo a BBC, no entanto, o Liverpool finalmente cedeu ao interesse dos blaugranas diante de uma oferta de €160 milhões, valor recorde para um jogador no futebol inglês – e segundo menor da história, abaixo apenas da saída de Neymar para o Paris Saint-Germain. Ainda conforme o veículo, os Reds receberão de imediato €120 milhões, com os outros €40 milhões divididos entre bônus “realísticos”. Vale lembrar que o brasileiro chegou a Anfield por €8,5 milhões, trazido da Internazionale em 2013. Seu salário anual girará em torno de €13,75 milhões, conforme o Guardian.

Apesar de seu status de estrela no Liverpool, protagonista do time ao longo das últimas temporadas, Coutinho certamente sobe de patamar por sua transferência ao Barcelona. Vai para um clube mais midiático e provavelmente para conquistar o seu primeiro título, considerando a tranquilidade dos blaugranas na liderança do Campeonato Espanhol. Não poderá, contudo, disputar a reta final da Liga dos Campeões. Por ter figurado na fase de grupos por outro clube, o regulamento não permite a sua participação. Ainda assim, deve dar novo fôlego à rotação, considerando o elenco um tanto quanto raso à disposição de Ernesto Valverde – e que pode sofrer perdas, considerando os rumores envolvendo Gerard Deulofeu, Rafinha e Arda Turan.

Coutinho, além do mais, chega para manter a escrita de jogadores talentosos do Brasil com a camisa do Barcelona – neste quesito, uma espécie de herdeiro de Neymar. Sua versatilidade ainda permite que desempenhe diferentes funções dentro de campo, podendo oferecer até mesmo variações táticas a Valverde. Há tanto um ponta que gera perigo nas jogadas em diagonal quanto um meia criativo e ameaçador nos chutes de longe. De ambas as maneiras, o camisa 10 pode se encaixar no Camp Nou.

O Liverpool, por sua vez, lamenta pela perda de um talento. A diretoria do clube tentou fazer de tudo para segurar o seu destaque, até para se reafirmar como um clube de ponta – ao contrário do que havia acontecido com Luis Suárez, por exemplo. Mas ao final, a decisão de Coutinho em escolher seu rumo deixou os Reds de mãos atadas. Perdem um jogador importante na briga pelo Top Four da Premier League e pelas fases mais agudas da Champions. Contudo, ao longo desta temporada, a equipe de Jürgen Klopp já tinha se mostrado menos dependente das capacidades do camisa 10, especialmente pela ascensão de outros jogadores. E há um bom dinheiro em caixa para buscar a reposição. A princípio, Thomas Lemar pinta como o principal alvo, enquanto é possível ainda pensar em alternativas para outras posições da equipe.

“Com grande relutância que nós, como time e como clube, nos preparamos para dizer adeus a um bom amigo, a uma pessoa maravilhosa e a um fantástico jogador, que é Philippe Coutinho. Não é segredo que ele queria essa transferência desde julho. Philippe insistiu comigo, com os donos do Liverpool e até com seus companheiros que ele desejava que o negócio acontecesse. Apesar disso, nós conseguimos manter o jogador na janela de verão, na esperança de persuadi-lo a ficar e ser parte daquilo que almejamos. Posso dizer aos torcedores que fizemos tudo a nosso alcance para convencer Philippe que seguir no Liverpool era tão atrativo quanto ir à Espanha, mas ele está 100% certo que seu futuro e de sua família estão em Barcelona. É seu sonho e agora sei que não há nada a nosso alcance para mudar sua mente”, declarou o técnico Jürgen Klopp, ao site do clube.

O treinador também exaltou o brasileiro por seu profissionalismo, apesar do imbróglio exposto na imprensa: “Philippe ofereceu uma contribuição fantástica ao clube durante seus cinco anos de serviço e estou tão desapontado quanto o resto que ele não queira estender isso, mas a relação que criamos deixa o desejo que ele tenha sucesso em seu caminho. Ele seguiu se dedicando e comprometido em nos ajudar a vencer jogos, produzindo boas atuações e treinando duro a cada dia, mesmo depois de não nos convencer sobre sua saída no verão. Esse nível de profissionalismo se reflete positivamente sobre ele. Eu entendo que os torcedores não gostem, é sempre o caso quando se diz adeus a alguém especial. Mas, embora seja duro de aceitar, isso faz parte do futebol: as pessoas têm seus próprios sonhos e objetivos na vida. Jogadores vêm e vão, mas como clube continuamos grandes o suficiente e fortes para seguir nossa progressão”

Obviamente, há várias questões que fogem da frieza dos números ou das pranchetas, como Klopp ressalta em seu discurso. A torcida do Liverpool confiou que Coutinho poderia ser aquele que reconduziria o clube às glórias, especialmente pela maneira como aconteceu sua renovação. Um elo quebrado a partir da janela de transferências anterior. Os últimos quatro meses, ao menos, serviram para abrandar a cisão. Não foi porque a venda ao Barcelona não aconteceu que o camisa 10 deixou de mostrar serviço em campo – pelo contrário, manteve a sua valorização. Enquanto isso, a noção de sua preponderância dentro do elenco diminuiu. Vai para o Camp Nou como uma perda sentida, especialmente pela capacidade de decidir os jogos individualmente, mas não exatamente imprescindível, como se pensava antes.

Agora, é ver como Coutinho se estabelece neste início com o Barcelona. Sem dúvidas, há uma expectativa enorme, até pela maneira como a novela se desenrolou e pelos valores pagos. Mas a situação também é favorável ao brasileiro. Chega para ocupar uma lacuna na qual pode brilhar muito e dividir as responsabilidades com os outros craques do time – algo que por vezes faltou nesta temporada. Além disso, os seis meses de dedicação ao Campeonato Espanhol e à Copa do Rei permitem que ele pegue embalo rumo à Copa do Mundo. Uma oportunidade de se valorizar mais e, então, entrar em sua primeira temporada completa com os blaugranas sustentando uma reputação ainda maior.

E se Coutinho se tornou um dos melhores jogadores em um campeonato mais físico e intenso como a Premier League, não deve ter problemas em destoar também por La Liga. Suas habilidades, aliás, são úteis para abrir alguns jogos truncados que o Barcelona costuma enfrentar. Além do mais, vale lembrar que a Espanha não é exatamente uma novidade ao meia. Ele passou seis meses por lá em 2012, emprestado ao Espanyol, às vésperas de completar 20 anos. Conseguiu recuperar o moral com os pericos, retornando à Inter, mesmo sem emplacar em Milão. Volta agora a uma cidade na qual a adaptação não costuma ser exatamente um problema.

Coutinho poderia se colocar em uma posição importante entre os grandes ídolos do Liverpool? Tinha a oportunidade para isso. Sua vontade, entretanto, acabou sendo outra. E não é de se duvidar que ele marque seu nome no Camp Nou. Qualidade não falta e, pelo visto até o momento, vontade muito menos. Certamente esta postura resoluta do brasileiro valeu para o Barcelona gastar tanto em sua chegada. Por isso mesmo, os blaugranas não vão economizar no marketing e na exposição para se gabar do novo tesouro.