As ligas nacionais pela Europa atingem níveis de hegemonia sem precedentes. Bayern de Munique e Juventus sustentam atualmente os recordes de títulos consecutivos em seus países. O Paris Saint-Germain só não emenda uma série parecida porque o Monaco surgiu como ponto fora da curva. Na Espanha, o trio de ferro (com o Atlético de Madrid fazendo milagre desde a chegada de Diego Simeone) ainda sugere uma competitividade maior, mesmo que limitada. Apenas na Premier League é que se vê um campeonato imprevisível, por mais que as taças recentes de Chelsea e Manchester City tenham se consumado com boa antecedência. Uma realidade cada vez mais assentada.

Para alguns clubes, inclusive, a liga nacional parece não bastar mais. Só a Liga dos Campeões interessa como conquista realmente relevante, apesar do número limitado de reais candidatos à Orelhuda. E, neste cenário, a ideia de uma liga europeia de clubes, que aglutine as potências em um sistema de pontos corridos e gere ainda mais dinheiro, volta a surgir como um futuro possível. Arsène Wenger, que parece ter perdido as amarras nas palavras desde que anunciou sua despedida do Arsenal, é um dos que crê nisso. Para o veterano, o surgimento da nova competição será questão de tempo.

“Em alguns anos, vocês certamente terão uma liga europeia aos finais de semana. É inevitável. Por que? Primeiro de tudo, dividir o dinheiro entre os grandes clube e os pequenos se tornará um problema. Os grandes dirão: ‘Se dois pequenos estão jogando entre si, ninguém quer ver. As pessoas querem assistir à qualidade. Então, nós temos que dividir o dinheiro, mas ninguém está interessado em vocês’. Uma liga doméstica certamente será jogada às terças, às quartas. Penso que este é o próximo passo que veremos”, analisou Wenger.

Para Wenger, a liga europeia será a forma encontrada pelos grandes clubes de outros países receosos de perder terreno à Premier League. Com as forças inglesas lado a lado dos gigantes da Europa continental num novo torneio, o potencial financeiro cresce ainda mais, pela maneira como atrairão audiências. Assim, contornarão as diferenças de receitas vistas na TV inglesa, se comparadas a outras ligas nacionais.

“Isso acontecerá em breve porque é o caminho para outros clubes lutarem contra a Premier League. Olhe as audiências da Liga dos Campeões. Há um contraste nelas, porque se você olhar para as audiências, não são fantásticas. Mas se você tiver Real Madrid x Barcelona, ou Real Madrid x Arsenal, ou Manchester United x Bayern todas as semanas, as audiências serão boas”, complementou.

Por fim, Wenger também declarou que o caminho à Premier League será reduzir o número de clubes, tornando-se mais competitiva e aproveitando as brechas dentro da expansão da liga europeia: “Se você quiser fazer a Premier League mais atrativa, precisa reduzir o número de clubes para 16. E fazer uma competição real a partir disso. Mas será menor se a liga europeia acontecer”.

Como a liga europeia se formará? Os principais clubes protagonizarão uma cisão e fundarão o novo torneio na marra? O destino das ligas nacionais se assemelhará aos estaduais brasileiros? Haverá um sistema de acesso e descenso? A elite do futebol europeu se cristalizará como uma NFL ou uma NBA? São muitas perguntas sem resposta. Mas o que Wenger traça, como um George Orwell do futebol, não parece mera ficção científica. Enquanto os torcedores perseverarem, os clubes menores continuarão existindo, isso é um fato. Mas a concentração em torno das potências é perceptível. Questões a se pensar, e que o treinador do Arsenal antevê.