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E um Arsène Wenger

O ponto final nesta história tão carnal ao Arsenal, entre glórias e frustrações, mas certamente revolucionária à torcida que se mudou de Highbury para o Emirates, aconteceu neste domingo. Uma tarde especialmente emocionante, mesmo que o desfecho na Premier League não fosse o preferível ou que acontecesse longe de casa, na visita ao Huddersfield Town. A viagem ao norte da Inglaterra, pelo contrário, teve um significado especial a Wenger. Sua passagem se encerrou ante o clube de onde veio Herbert Chapman, o outro comandante que transformou os Gunners. “Ele sorriu para mim”, declarou o francês.

E sorriram a Wenger também cada um dos presentes no Estádio Kirklees, dos mandantes aos visitantes. A própria torcida do Huddersfield ovacionou o técnico, um reconhecimento comum visto entre tantos adversários nas últimas semanas. Aos 22 minutos, as arquibancadas se uniram no mesmo intuito, ao aplaudir o veterano. Ainda assim, o maior afeto vinha dos próprios seguidores do Arsenal, que não deixaram de honrar o treinador em um instante sequer. Mais do que para ver o time, eles viajaram para exaltar o homem que os providenciou tantas alegrias.  Nos céus, um avião passava com a mensagem: “Obrigado, Arsène, sentiremos falta de você também”. As nuvens pesadas, que guardaram amarguras na relação com o francês ao longo dos últimos anos, se abriram em uma tarde ensolarada, leve como o sentimento renovado depois da confirmação do adeus.

Até mesmo a sorte sorriu a Wenger. Depois de uma péssima sequência fora de casa em 2018, o Arsenal finalmente voltou a ganhar como visitante. O gol na vitória por 1 a 0 saiu aos 38 minutos do primeiro tempo, em uma belíssima troca de passes, para que Pierre-Emerick Aubameyang completasse dentro da área. O símbolo de um time que, apesar dos muitos pesares, nunca abdicou de seu futebol ofensivo e bem trabalhado sob as ordens do mestre. Nem sempre deu certo, é verdade. Quando deu, porém, os londrinos continuaram apresentando um estilo de jogo vistoso. Emblematicamente, o Kirklees acaba sendo o 48° estádio onde Wenger triunfa na liga, um novo recorde, superando a marca do amigo Sir Alex Ferguson.

E ao apito final, o presente se tornou passado. Wenger não precisará mais lidar com as desesperanças, as críticas e as decepções. Continuará sendo exaltado pelo muito que engrandeceu o Arsenal. Uma gratidão recíproca, presente em suas palavras finais. “É realmente um dia especial. Para manter meu senso de humor, eu deveria anunciar que irei me aposentar a cada semana. As pessoas foram tão boas comigo desde então… Continuarei como um bravo torcedor do Arsenal, mas gostaria de seguir trabalhando no futebol, seja como técnico ou não. Sou um viciado e não vou me curar, está muito tarde para isso”, declarou o francês, entre brincadeiras e seriedades.

Será diferente ver o Arsenal sem Arsène Wenger, e ainda há um longo caminho para a escolha de seu substituto, ao que tudo indica. O clube perde um traço marcante de sua personalidade. E será uma outra vida também a Wenger. A princípio, sem o estresse decorrente da rotina, mas também a sua paixão que o movia. A paixão que, no fim das contas, o tornou uma lenda. Uma paixão que provocou tantas paixões. Com o coração leve, finalmente Arsène sai. Carrega respeito e afeição, como merece.