Os tempos gloriosos do Wigan pareciam restritos ao passado. As temporadas consecutivas na Premier League, o time que não se dobrava ao rebaixamento e os bons papéis nas copas nacionais. Desde que conquistaram a Copa da Inglaterra, porém, os Latics entraram em uma espiral que inclui três rebaixamentos e um acesso ensanduichado que pouco adiantou. Atualmente na League One, a terceira divisão do Campeonato Inglês, os alviazuis estão no páreo pelo retorno à Championship. E viveram um sonho que soava distante nesta segunda, pela FA Cup. O Manchester City, adversário derrotado na memorável decisão de 2013, visitava o Estádio DW. Um City muito mais poderoso, especialmente por aquilo que protagoniza na Premier League. Pois o Wigan mostrou quem é o carrasco. Os pequeninos se desdobraram na defesa e viram Will Grigg incendiar o jogo com o gol que determinou a vitória por 1 a 0. O doce gosto da história, impondo a primeira eliminação ao time de Pep Guardiola em 2017/18. A invasão alucinada da torcida no gramado, após o apito final, simboliza o tamanho do épico. Uma noite para sempre.

Sem compromissos na Liga dos Campeões durante a semana e se preparando ao duelo com o Arsenal na final da Copa da Liga Inglesa, o Manchester City não poupou muitas forças. Com Ederson (que dava lugar a Claudio Bravo, titular nas copas nacionais) e Kevin de Bruyne no banco, além de Raheem Sterling e Nicolás Otamendi ganhando um descanso, o restante da equipe apresentava o que de melhor há à disposição de Pep Guardiola. E como era de se esperar, os celestes começaram no comando. Soava protocolar a vitória sobre um adversário da terceirona, longe do mesmo poderio ou da mesma qualidade no elenco. Assim, os visitantes martelaram desde os primeiros minutos.

Dominando a posse de bola, o City ia criando oportunidades. Parava no bom trabalho do goleiro Christian Walton e na valentia da linha defensiva comandada por Dan Burn. Enquanto adiasse o primeiro gol, o Wigan já ia saindo vencedor. E vez por outra, os Latics incomodavam no ataque. As chances viriam principalmente com Will Grigg, o ídolo da torcida e grande referência ofensiva. Tal qual seus compatriotas norte-irlandeses cantaram de maneira enlouquecida na Euro 2016, “Will Grigg is on fire”. Não demorou para que a defesa dos Citizens ficasse aterrorizada, com um chute perigoso do atacante que balançou a rede pelo lado de fora, aos 11 minutos.

A supremacia, de qualquer maneira, era do Manchester City. O bombardeio se seguiu durante todo o primeiro tempo, mas faltava pontaria aos celestes. Eram vários e vários chutes para fora, como uma bomba de Fernandinho por cima do travessão. Aos 45, Sergio Agüero esteve a ponto de marcar, mas parou em defesaça de Walton. Já nos acréscimos, a tragédia se esboçou ao City. Fabian Delph deu um carrinho duríssimo e recebeu o vermelho direto. O lance gerou muita controvérsia entre os técnicos na beira do gramado, depois que o árbitro ameaçou dar o amarelo e mudou de ideia.

Durante o segundo tempo, Guardiola preferiu recompor a linha defensiva com Kyle Walker e tirou Leroy Sané. De qualquer maneira, o controle de jogo do City não resultava em gols. O ataque ia batendo cabeça, sem acertar o alvo e sendo travado pela defesa adversária. Nem mesmo a entrada de Kevin de Bruyne no lugar de David Silva facilitou. E logo na segunda finalização certa do Wigan, aos 33 minutos, o gol histórico aconteceria. Enquanto o restante do time se entrincheirava na defesa, Will Grigg recebeu de Callum Elder e partiu em velocidade. Ganhou de Kyle Walker na corrida e, da entrada da área, bateu cruzado. Mandou a bola no canto de Claudio Bravo, que nada pôde fazer. Na comemoração, o norte-irlandês permaneceu impassível, em misto de marra e incredulidade, enquanto as arquibancadas explodiam de felicidade.

Nos pouco mais de 15 minutos restantes, o Manchester City partiu com tudo ao ataque. Consumou sua posse de bola esmagadora, com mais de 82% de controle do jogo. O que não ajudou foi a falta de precisão nas conclusões. Sem criatividade, os celestes acabaram limitados ao chuveirinho. Os cruzamentos eram a saída ao time de Guardiola. Bola após bola, a zaga do Wigan se safava. E quando houve qualquer ameaça direta à meta, Walton apareceu no lugar certo. O goleiro estava com o corpo fechado, sem sofrer nem mesmo quando o taco de seus companheiros espirrava contra o próprio gol. Ao final, não adiantou nem mesmo o “Pep Time” concedido pelo árbitro, de acréscimos bem mais generosos do que os apontados pela placa. Os Latics mantiveram a bravura e mereceram a classificação. O time de quatro finalizações na noite superou o de 29.

Ao final, o que se viu foi uma das mais belas comemorações dos últimos tempos. De início, algumas crianças e jovens invadiram o gramado. E então, dezenas e mais dezenas de torcedores adentraram no campo, para abraçar os jogadores, para se abraçar. Houve um princípio de confusão envolvendo Sergio Agüero, mas um fato isolado. Prevaleceu a festa, a emoção e o regozijo pela vitória que alivia os anos de calvário do Wigan. O time que sonha com o acesso tem no currículo uma vitória que quase ninguém conseguiu nesta temporada. Depois das partidaças do Bristol City, os Latics foram além.

O objetivo do Wigan na temporada é bem claro. Quer se manter nas duas primeiras colocações da League One, competindo sobretudo com Shrewsbury Town e Blackburn Rovers pelo acesso direto. Enquanto isso, o sonho na Copa da Inglaterra se vive em paralelo. O Southampton é um adversário acessível nas quartas de final, embora todos sejam depois do que aconteceu contra o Manchester City. Não custa ambicionar uma nova façanha, como aquela ocorrida em 2013. Os Citizens, por outro lado, lamentam o resultado e mais uma vez recebem um aviso pela falta de precisão no ataque, o que prejudicou em outros tropeços recentes. A história desta segunda, de qualquer maneira, merece exaltar mais os vencedores do que depreciar os vencidos. E a narrativa escrita pelo Wigan é daquelas a serem contadas por décadas e décadas. Se os celestes desejavam ao menos uma tríplice coroa nacional, ela foi negada por um time da terceirona que não se encolheu ao esquadrão do outro lado. O gigante desta vez eram os Latics.