Inevitável concluir: apesar da oferta cada vez maior de jogos transmitidos pela televisão, apesar dos meios para se acompanhar uma partida de futebol serem cada vez mais variados (mídias sociais que o digam), o rádio ainda é – e sempre foi – uma opção muito válida para quem acompanha o esporte. Não fosse assim, e provavelmente os personagens que o protagonizam – narradores, comentaristas, repórteres, plantonistas – não deixariam memórias tão profundas nos ouvintes. Nem cada estado brasileiro teria seus radialistas tão fortes quando o assunto são transmissões esportivas. Minas Gerais foi um exemplo nesta terça: atleticanos, cruzeirenses e americanos se uniram para lamentar a morte do locutor Willy Gonser, aos 80 anos, vítima de pneumonia.

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Antes mesmo de chegar a Minas, o narrador paranaense já tinha longo histórico no rádio brasileiro. Sua carreira vinha desde 1953, quando foi iniciada na Rádio Marumby, de Curitiba, sua cidade natal. A narração, desde 1955, quando substituiu outro profissional que passara mal. Não só o “Alemão” (apelido dado pelo sobrenome) nunca mais saiu da frente dos microfones para irradiar jogos, como também começou trajetória quase única: entre 1962 e 2006, com exceção de 1966, esteve nas Copas do Mundo, por várias emissoras, de vários estados: a Jovem Pan paulista, a Nacional fluminense, a autoexplicativa Rádio Gaúcha.

Porém, é possível dizer que a trajetória de Willy tomou rumo definitivo a partir de 1979, quando chegou a Belo Horizonte, para trabalhar na Rádio Itatiaia. A tarefa era difícil: substituir um nome já marcante na transmissão de esportes do rádio mineiro, Vilibaldo Alves (do marcante bordão “adivinhe…”, antes do grito de gol). A transição entre o nome que era Vilibaldo e o nome que seria Willy foi lembrada por um dos tantos garotos mineiros, hoje homem e profissional do rádio: Hugo Botelho, narrador da rádio Band Campinas e dos canais ESPN. “Eu sempre ouvia as rádios de Belo Horizonte – morava em Lavras. Eu me lembro bem – era criança – que a Rádio Itatiaia tinha o Vilibaldo, e aí eles colocaram o Willy, para confundir, ‘o Vili saiu, o Willy ficou’, era uma coisa interessante. Aí eu tomei conhecimento que era o Willy Gonser, que já tinha trabalhado na Jovem Pan. Tornou-se uma influência: todo mundo era moleque, quase não tinha jogo na televisão, e acabava ouvindo a rádio Itatiaia. Virou uma referência para mim, não dá para dizer que não foi”.

Mais do que uma referência para muita gente que trabalhou no rádio em Minas a partir de 1979, na Itatiaia Willy virou a narração indissociável dos jogos do Atlético Mineiro, conforme a divisão feita na emissora desde então, lembrada por Hugo Botelho: “A rádio direcionou o Willy para os jogos do Atlético e o outro narrador, o Alberto Rodrigues, para a torcida do Cruzeiro. E criou aquela legião de fãs do Atlético. Isso gerava uma discussão entre a gente, que era de Minas, sobre quem era melhor (Alberto ou Willy). O Willy criou essa identificação com a torcida do Atlético – por todo esse tempo acompanhando o time de perto. Ele nasceu em Curitiba, mas virou um ‘mineiro de Belo Horizonte’”.

De fato: não há atleticano nascido em Minas, de 1970 para cá, que não se lembre do timbre de voz e do “bola no barbante” que Willy gritava a cada gol do Galo, entre 1979 e 2009. Além disso, o narrador curitibano também impressionava por uma característica rara na época, conforme Hugo Botelho lembrou: “Quando eu era moleque, os narradores não traziam muito conteúdo. E quando eu ouvia o Willy, eu ficava prestando atenção: ele tinha muito conteúdo, trazia muita informação sobre o jogador, onde o jogador nasceu etc. Ele gerava um conteúdo muito grande para quem ouvia a transmissão. E ele narrava todos os esportes, num tempo em que todo mundo só queria narrar futebol”. Palavras semelhantes falou outro marcante personagem do rádio mineiro: o repórter Roberto Abras. “Resumiria o Willy da seguinte forma: cultura e honestidade. O Willy era muito culto. Lia demais, buscava se atualizar”.

Nos 30 anos acompanhando os rumos atleticanos, Willy ganhou espaço insuperável no imaginário da torcida. A própria diretoria reconheceu isso, conforme Hugo Botelho lembrou: “Ele recebeu homenagem da diretoria do Atlético, ainda na ativa [referência ao troféu Galo de Prata, entregue em 2002], para você sentir a importância dele. E para a torcida, em rádio, o Willy foi o melhor de todos. Se você pergunta, vão falar que o Vilibaldo Alves era bom, que o Mário Henrique “Caixa” é o cara do momento… mas o Willy Gonser é o maior narrador da história para a torcida, pelos 30 anos e a identificação que criou. E ele criou essa identificação pela competência. Ele vestia, literalmente, a camisa do Atlético”.

O tempo passou. Em 2009, por problemas de saúde, Willy foi afastado e, posteriormente, deixou a Itatiaia. Foi viver na Bahia, em Alcobaça, mas voltou à sua paixão e a Minas após alguns anos: em 2015, ainda passou seis meses como diretor de esportes e comentarista da Rádio Inconfidência. Hoje, o caminho terminou. Todavia, a torcida do Atlético – bem, qualquer amante mineiro de futebol – sempre poderá percorrê-lo novamente, ao ouvir as narrações de Willy Gonser. Assim como qualquer amante de futebol, com seu locutor/comentarista/repórter preferido no rádio.

Colaborou Leandro Stein

Abaixo, reportagem da rádio Jovem Pan sobre o radialista: