A Copa Argentina oferece um choque de realidade imenso em suas fases iniciais. Os grandes clubes do país enfrentam pequeninos que nem de longe sonham em disputar a primeira divisão. Jogos valiosos para estas equipes periféricas, que têm rendido grandes surpresas nas últimas semanas. Mas que, além disso, proporcionam grandes histórias. Nesta terça, o River Plate encarou o pequenino Atlas, time da província de Buenos Aires que integra a quinta divisão do Campeonato Argentino. Entretanto, pouco importou a vitória dos Millonarios por 3 a 0. O que ficará na memória é a emoção do maior ídolo dos ‘Guerreros’ ao ter a chance de enfrentar seu time de coração.

Filho de um brasileiro e de uma salteña, Wilson Severino nasceu em Córdoba. Mudou-se a Buenos Aires em busca de uma oportunidade de vida, por volta dos 22 anos, cuidando de um tio que acabara de sofrer um acidente e trabalhando na companhia ferroviária – seja limpando os trilhos ou desarmando trens. Sem ter se desenvolvido em categorias de base, o atacante chamou a atenção dos clubes das divisões inferiores do Campeonato Argentino enquanto atuava na várzea. E foi ao Atlas que dedicou a maior parte de sua energia. Apenas pela quinta divisão, anotou 109 gols em 258 partidas, se transformando na grande referência de sua torcida.

Aos 37 anos, o veterano já não integrava mais o elenco do Atlas. Devido à estabilidade na companhia ferroviária, passou a se dedicar apenas ao trabalho que lhe garantia o sustento, na companhia ferroviária – atualmente atuando como encarregado de esportes da empresa. No entanto, diante do cruzamento com o River Plate, ele abriu uma exceção. Torcedor do River desde a infância, Severino entrou em contato com o presidente do Atlas. O atacante se ofereceu para disputar o jogo da Copa Argentina e, assim, também se despedir oficialmente do futebol. Treinou durante duas semanas com o técnico César Rodríguez, seu antigo companheiro de clube. E então pôde participar dos minutos finais do confronto realizado em Salta, no extremo norte da Argentina – justamente a terra natal de sua mãe.

Wilson Severino teve sua chance apenas depois dos 40 do segundo tempo, mas pouco importou. Antes de entrar em campo, deu um emotivo abraço em seu treinador, sem esconder as lágrimas. Além disso, também abraçou Leonardo Ponzio, capitão do River Plate – por, segundo suas palavras, ser uma referência à equipe, assim como o atacante era para o Atlas. Demonstra, além de tudo, o tamanho do coração do veterano.

“Estou feliz, amigo. Isso é para as pessoas do bairro e do trabalho. Para a minha família. Para os ferroviários, para as pessoas do futebol, para os meninos que se empenham no dia a dia. Um guerreiro das divisões de acesso se vai. Eu dedico isso a todos os que lutam todos os dias, que trabalham para levar o pão para sua casa e buscam um lugar no mundo do futebol”, declarou na saída de campo, com a voz embargada, ao falar com o repórter da TV argentina – a quem também abraçou. Ainda pediu desculpas ao filho, por não ter acompanhado da melhor maneira 13 anos da vida do garoto enquanto dedicava o tempo livre ao futebol. Um gigante entre tantos desconhecidos que se dedicam a cultivar a verdadeira alma do futebol nas divisões inferiores.

A dica sobre a pauta foi do leitor João Gabriel Lansillote. Muito obrigado!