Xavi continua como um vulto importante ao barcelonismo. A representatividade do meio-campista no estabelecimento do ciclo vitorioso do Barcelona é inegável. E suas ideias continuam repercutindo no Camp Nou. Mesmo de longe, o veterano acompanha o cotidiano do clube. Tem suas opiniões firmes sobre o que os blaugranas fazem dentro e fora de campo. Inclusive, não se furta a criticar decisões da atual diretoria, pensando em sua política de contratações e de gestão em geral.

Nesta sexta, Xavi concedeu uma longa entrevista ao Marca. Falou sobre diversos assuntos, inclusive sobre a atual crise dos blaugranas. Por vezes valorizou as dificuldades vividas no Camp Nou, mas fez um diagnóstico interessante sobre a pressão que se enfrenta na Catalunha, especialmente comparando com o Real Madrid. Abaixo, traduzimos alguns dos principais trechos. Confira:

Como vê o presente do Barcelona

“O Barcelona fez parte de uma época tão sensacional que agora parece que não é o mesmo. Joga muito bem, mas poderia ter contratado melhor. Dormiu porque, faz cinco ou seis anos, tinha os melhores jogadores. Mas o Barcelona deve ter 11 para este sistema. Antes você não via nada por aí e dizia ‘este caberia muito bem no Barça’, porque os melhores já estavam ali. Contratou jogadores que não se encaixam neste sistema”.

O uso da base

“Sim, ainda se recorre à base, mas outra coisa é que sejam titulares. É preciso potencializá-la. Em caso de dúvida, você busca o que tem em casa. Na melhor época do Barcelona, o time se nutriu com pelo menos 60% de canteranos. Thiago saiu com todo o seu direito, porque não davam oportunidades a ele, mas todos devem ter paciência, é o clube mais difícil do mundo”.

As diferenças em relação ao Real Madrid

“Exige-se ganhar e jogar bem. O Real Madrid ganha de 3 a 2 virando uma partida desastrosa, mas é o melhor e se fala do épico, do espírito Juanito… Ganhamos no último minuto e analisamos toda a semana porque não há posse, porque criaram ocasiões, porque a superioridade ocorreu por dentro e não por fora. No Real Madrid não há porquês, ganha-se e não há debates”.

A diferença na forma em lidar com a pressão

“A diferença é que no Real Madrid, quando as coisas vão mal, tanto os torcedores quanto os jogadores, a comissão técnica e a imprensa se unem. No Real Madrid não há oposição à presidência faz alguns anos. No Barcelona sempre há, o presidente só pode ficar seis anos no cargo. No Barcelona quase nunca se está unido. Insisto: é o clube mais difícil para triunfar, não só para os jogadores”.

A solução para o Barcelona

“Paciência. No ano da nossa tríplice coroa, o Real Madrid ganhou não sei quantos jogos seguidos. Em janeiro parecia invencível, mas perdeu em Valência e logo em casa, acabamos ganhando nossos três títulos. O clube deve cuidar muito dos jogadores, devem ser felizes, como eram com Laporta, que já é bastante difícil ser jogador do Barça. É preciso contratar. No Barcelona, todos os astros precisam se alinhar para que se ganhe, o Real Madrid é muito poderoso. O Real Madrid vai perdendo e vai ao ataque sem complexos, tem muito atrevimento”

Quem é mais forte atualmente

“O Real Madrid vem com uma equipe ganhadora, já tem a inércia. A sensação é que o Real Madrid tem uma equipe mais pronta e o Barcelona começa nova etapa, mas não quer dizer que não pode ganhar La Liga. No ano do triplete, todos queriam demitir Luis Enrique em janeiro”.

A mudança na filosofia de jogo

“Não quero pensar que nos afastamos da ideia. Vejo a equipe tentando jogar o mesmo que nos deu tantos títulos. Se isso for mudado, seria uma cagada histórica. Desde a chegada de Cruyff o Barcelona é diferente, é respeitado no mundo todo, apaixona o fanático por futebol. Como vamos deixar essa ideia? Não conheço os dirigentes de hoje, mas não gostaria que o Barça jogasse outra coisa”.

Sobre ser treinador do Barcelona

“Sempre senti essa pressão. É um orgulho que estejam me esperando. A curto prazo, é inviável. Não tenho a habilitação, até que consiga passarão dois ou três anos. Gostaria de controlar o tempo e são muitíssimas coisas que teriam que se encaixar para treinar o Barça”.