A bola sobrou na entrada da área. Veio girando como um pião. A Suíça perdia para a Sérvia, por 1 a 0. Granit Xhaka, livre, tomou a passada correta. Carregou o chute de canhota e soltou a perna com toda a força. Marcou o gol de empate e comemorou, com a língua de fora e as mãos juntas, parecendo aquele sinal clássico de uma pomba da paz. Mas o significado não foi bem esse. Xhaka reproduziu as duas águias negras que se destacam no vermelho da bandeira da Albânia. E Shaqiri, ao concretizar a virada, fez o mesmo.

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Xhaka é filho de Ragip Xhaka, kosovar-albanês, casado com a albanesa Eli. Naturais do Kosovo e da Albânia dividem a mesma etnia, além de serem vizinhos e países irmãos. Quando Ragip tinha 22 anos, estudava engenharia agrícola na Universidade de Pristina e participava de manifestações que pediam mais direitos ao Kosovo, naquela época ainda uma província autônoma da Iugoslávia, que apenas em 2008 declarou independência da Sérvia – e ainda luta para ser reconhecida pela comunidade internacional.

Um dia, recebeu a visita da polícia e passou três anos e meio como preso político do governo central de Belgrado. Morava em uma cela pequena com outros quatro homens e tinha apenas 10 minutos de ar fresco por dia. “Até onde sei, os primeiros meses na cadeia foram ok. Mas, então, os espancamentos começaram”, contou Granit, ao Guardian.

Ragip foi liberado sem grandes explicações em 1990. Durante o cativeiro, recebia a visita apenas da esposa Eli, com quem estava há três meses, e de agentes da Anistia Internacional. A organização ajudou o casal a subir em um ônibus, que passou por Croácia, Eslovênia, norte da Itália e parou na Basiléia. “Não tínhamos mais medo”, contou o pai, ao Telegraph. “Sentimos a liberdade. Sentimos que havia um futuro”.

A família Xhaka havia escapado da perseguição política, da crise econômica da Iugoslávia e da guerra civil que estava prestes a começar. No início de 1991, Eli deu à luz o seu primeiro filho, Taulant. Um ano e meio depois, veio o segundo: Granit. Ambos cresceriam para serem jogadores de futebol, embora, no âmbito das seleções, tenham tomado destinos distintos. Taulant decidiu defender a Albânia. Granit, a Suíça.

Shaqiri era um bebê quando sua família fugiu de Gjilan, onde nasceu no Kosovo, por causa da guerra. Também foi para a Suíça, onde cresceu e aprendeu a jogar futebol. “Eu nunca vou esquecer que nasci no Kosovo. Em um país muito, muito pobre, onde não há muito trabalho e muito dinheiro. Minha família não tinha muito. A casa do meu tio foi queimada e a nossa ficou em pé, mas tudo foi roubado ou quebrado e as paredes foram pixadas”, contou, ao Stoke Sentinel.

Ele frequentemente carrega uma lembrança da sua origem nas chuteiras. Como nesta sexta-feira, contra a Sérvia, utiliza a bandeira do Kosovo em um dos calçados. O outro trouxe a da Suíça. Certa vez, usou três, junto com a da Albânia. O expediente desagrada a federação de futebol da Sérvia, que ainda não reconhece a independência do país. A alegação é de mensagem política, o que é proibido pelas regras da Fifa.

As chuteiras de Shaqiri (Foto: Getty Images)

Quando Kosovo tornou-se membro da Uefa e da Fifa, em 2016, diversos jogadores suíços cogitaram defender a nova seleção. Entre eles, Xhaka e Shaqiri, os dois mais famosos descendentes da etnia kosovar-albanesa. Mas ambos decidiram continuar na Suíça. “Se ele ama tanto o Kosovo, e decidiu usar a sua bandeira na chuteira, por que recusou a chance de jogar pelo time?”, perguntou Aleksandar Mitrovic, atacante sérvio, ao ser questionado sobre o assunto, antes da partida. A notícia da bandeira na chuteira foi encarada como uma provocação na Sérvia.

Além de Shaqiri e Xhaka, outros jogadores da seleção suíça devem ter sentido um gostinho especial ao derrotar a Sérvia, dentro do contexto das guerras de separação da Iugoslávia. Começando pelo técnico, o bósnio Vladimir Petkovic, compatriota dos pais de Haris Seferovic. Valon Behrami também nasceu no Kosovo. Josip Drmic é descendente de croatas. Mario Gavranovic, autor da assistência para Shaqiri, de bósnios-croatas. A vitória da Suíça sobre a Sérvia foi a primeira virada da Copa do Mundo de 2018. Foi, também, uma partida em que antigos rancores geopolíticos vieram à tona.