Quando o Manchester City anunciou a chegada de Yaya Touré, em 2010, certamente não imaginava o tamanho da contratação que fazia. Para muitos, era o “irmão mais novo de Kolo”, o defensor de reputação bem maior na Premier League. Os £27 milhões pagos ao Barcelona sugeriam um investimento alto em um jogador de aptidões defensivas, pronto a acertar o meio-campo. No entanto, por tudo aquilo que o marfinense representou em seus oito anos no Estádio Etihad, o valor soa uma pechincha. O camisa 42 certamente está em uma seleção de todos os tempos dos Citizens. Tornou-se o dínamo de uma equipe fortíssima, em diferentes períodos, e carregou o time nas costas em outros. A temporada espetacular que fez em 2013/14, rendendo o título da Premier League, é a marca indelével de sua imensidão. Uma grande história com dias contados para acabar.

Nesta sexta-feira, Pep Guardiola confirmou que a passagem de Yaya Touré pelo Manchester City se encerrará ao final da temporada. O treinador, aliás, está presente no início e no fim de sua trajetória pela Inglaterra. A saída do Barcelona se deu pela utilização pela falta de espaço ao marfinense, por vezes escalado como zagueiro, a exemplo do que aconteceu na decisão da Liga dos Campeões de 2008/09. Com a camisa celeste, ele se empenhou para mudar a sua imagem e ganhou uma estatura bem maior, pela maneira como se tornou essencial a Roberto Mancini e Manuel Pellegrini. Já no reencontro com o catalão, apesar dos reportados atritos iniciais, o veterano foi importante na primeira temporada, quando provou sua confiança e recuperou um pouco seu lugar. Já na atual campanha, as limitações físicas minaram a sequência, mas ainda assim o camisa 42 teve algumas boas aparições na conquista de seu terceiro título na Premier League.

Guardiola, inclusive, tratou de exaltar Yaya Touré neste anúncio oficial. Relembrou o papel do meio-campista para que o clube atingisse seu atual nível: “Yaya chegou aqui no início da jornada. Onde estamos agora é por causa do que ele fez. Não podemos nos esquecer que, no período com Mancini e especialmente com Pellegrini, Yaya foi um jogador vital. No jogo contra o Brighton, daremos a ele a chance que merece, uma das mais belas despedidas que um jogador pode receber. Toda a partida será focada em vencer por Yaya, tentaremos isso para ele”.

O jogo contra o Brighton, na próxima quarta, será o último do Manchester City em casa nesta temporada. Uma grande oportunidade para que Yaya Touré seja exaltado, como aconteceu em 2017 com Pablo Zabaleta. Ao longo destes oito anos, o marfinense teve suas crises no Estádio Etihad – como a história em que cogitou deixar o clube em 2014, por não se sentir valorizado o suficiente, “ignorado no dia de seu aniversário”. Mesmo assim, manteve o seu compromisso e trabalhou duro até quando foi deixado de lado na chegada Guardiola, seguindo em frente justo ao escancarar seu esforço e passar por cima das mágoas. Por isso mesmo, renovou seu vínculo no último mês de junho, por mais um ano. Uma entrega que só aumentou sua consideração perante a torcida.

E, acima da personalidade, Yaya Touré é adorado por tudo aquilo que jogou. Por cinco temporadas consecutivas, o camisa 42 se colocou entre os melhores meio-campistas do mundo. E não apenas como volante “comum”, dando combate e ajudando a impulsionar o time de área a área. Seu impacto ofensivo foi estrondoso, como raras vezes se viu a um atleta de sua posição. Mais do que presença física, o veterano adicionou outras virtudes ao seu jogo, como a visão privilegiada e a precisão em seus chutes potentes ou nos lançamentos longos. Em seu ápice, o rótulo de “craque que muda os rumos de uma partida” lhe caía muito bem. Não à toa, de 2011 a 2014, foi eleito pela CAF o melhor jogador africano – igualando Samuel Eto’o como maior vencedor do prêmio instituído em 1970.

Aos 34 anos, é difícil imaginar se Yaya Touré conseguirá encontrar outro clube para atuar no primeiro escalão. Mas pode ser muitíssimo útil, mesmo nas grandes ligas europeias – quem sabe, nas próprias equipes da Premier League. É um jogador que faz o time orbitar em torno de si. Se a força física não é mais suficiente para um Manchester City tão intenso, talvez ainda sobre em outro lugar. Porém, que o tempo tenha acabado no Estádio Etihad, depois de oito temporadas memoráveis, a gratidão permanece entre os torcedores celestes. Aquele leão com a camisa 42 fez os Citizens maiores ao mesmo tempo em que se tornava eterno ao clube.