A cada dez pessoas que responderam a uma pesquisa realizada na Geórgia, em 2011, nove responderam que a homossexualidade nunca pode ser justificada. A Reuters também informa que houve mais de 30 ataques violentos contra membros da comunidade LGBT no país ano passado. Por mais que, na tentativa de se aproximar da União Europeia, ele esteja tomando pequenos passos contra o preconceito, a homofobia ainda é um problema sério na ex-república soviética. O exemplo mais recente é o caso do zagueiro Guram Kashia.

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Kashia, 30 anos, defendeu a seleção georgiana quase 60 vezes, algumas como capitão, e disputou todas as partidas da campanha que tentou, sem sucesso, levar a Geórgia à Copa do Mundo da Rússia – acabou na vice-lanterna do Grupo D. Seu trabalho cotidiano é roubando bolas no Vitesse, para o qual se transferiu do Dinamo Tbilisi, em 2010. Usa a braçadeira de capitão do atual terceiro colocado da Eredivisie, o que significa que ela estava pintada com as cores do arco-íris, em 15 de outubro, contra o Heracles.

Naquele fim de semana, os capitães de todos os clubes da duas primeiras divisões da Holanda e da liga feminina usaram a braçadeira de capitão com a bandeira LGBT, em ação idealizada pelo Conselho Central de Jogadores e pela fundação Johan Blakenstein, batizada em homenagem ao ex-árbitro holandês e ativista dos direitos homossexuais, que morreu em 2006.

“Fazemos isso para apoiar colegas de futebol, árbitros, torcedores, voluntários e muitos outros na luta pela sua própria identidade e para contribuir para conscientizar sobre a diversidade. O futebol deve ser para todos, independente do plano cultural, cor de pele, raça, orientações sexuais ou religião”, afirmou Danny Hesp, presidente do sindicato dos jogadores da Holanda.

Por usar essa braçadeira, Guram Kashia recebeu uma tonelada de críticas em seu país natal, por meio das redes sociais e da imprensa. O colunista do jornal Asavali-Dasavali escreveu, de acordo com o Washington Post, que Kashia deveria ser excluído da seleção nacional e que seria organizado um boicote se ‘LGBT-Kashia ousasse defender a camisa do time nacional”. Davit Skhirtladze, meia do dinamarquês Silkeborg, disse que Kashia foi obrigado a usar a braçadeira e se colocou abertamente contra a comunidade LGBT.

“Claro que participar de uma coisa dessa não foi iniciativa dele”, afirmou, à agência Adjarasport. “A federação de futebol obriga os capitães dos times a fazerem isso. Houve a mesma campanha na Dinamarca, e o capitão do meu time era contra a comunidade LGBT, mas a federação o obrigou a participar da campanha. Ele fez o que mandaram. Não tinha outra opção. Eu sou categoricamente contra eles (LGBTs), mas eu agiria da mesma maneira que Kashia na mesma situação, porque eu não posso mudar a opinião das federações de futebol da Dinamarca e da Holanda”.

Em entrevista ao site holandês Gelderlander, Kashia rechaçou a noção de que foi obrigado a apoiar a comunidade LGBT e respondeu aos pedidos de que renunciasse à seleção com muita tranquilidade. “Estou disponível. Não me importo com a pressão. Quem não pode apoiar a liberdade agora? Se me chamarem, estarei lá para a Geórgia”, disse o jogador, que, em outra entrevista, depois da goleada por 4 a 0 sobre o Heerenven, no último fim de semana, também respondeu diretamente ao colunista que pediu sua exclusão do time nacional e contou que recebeu mensagens de solidariedade.

“Foi muito estúpido da parte dele porque ele se colocou em um lugar complicado e recebeu mais críticas do que eu”, disse. “Ninguém pode mexer com a minha nacionalidade e com a equipe nacional. Mesmo que sejam mil pessoas, quando a seleção ligar, eu irei. Não me arrependo do que fiz. Era minha responsabilidade. Não importa quem você é ou o que você faz: se você não machuca os outros, pode ser quem quiser. Essa é minha visão, e é assim na Holanda”.

Jogadores como Giorgi Loria (Anzhi-RUS), Jimmy Tabidze (UFA-RUS), Giorgi Arabidze (Shakhtar Donetsk-UCR) e Nika Kacharava (Korona Kielce-POL), todos com passagens pela seleção georgiana, apareceram em defesa de Kashia. Alguns fizeram questão de expressar que são neutros em relação à comunidade LGBT, mas todos condenaram qualquer tipo de violência, segundo o site Tabula. “O que Kashia quis foi condenar a agressão contra pessoas LGBT no mundo inteiro. Acho que esse é um problema especialmente grave na Geórgia. A violência contra pessoas LGBT é inaceitável”, afirmou Tabidze.

Instituições também se colocaram ao lado de Kashia, como o presidente da Federação Georgiana de Futebol, Levan Kobiashvili, e o Movimento Pela Igualdade, que luta por direitos LGBT no país. “Esses gestos são importantes para inúmeros fãs de futebol e ainda mais na Geórgia, onde os sentimentos homofóbicos são particularmente fortes”, escreveu o grupo, no Facebook. Kakha Kaladze, recém-eleito prefeito de Tbilisi, falou em liberdade de expressão. “Somos um país democrático e cada cidadão tem o direito, apesar de nacionalidade, religião ou orientação sexual, a expressar suas opiniões”, disse o ex-jogador do Milan.