O zagueiro Ricardo Costa tem 36 anos de idade e uma ampla experiência no futebol. Já passou por clubes como Porto, Wolfsburg, Valencia, e PAOK, além da seleção portuguesa. Provavelmente, porém, nenhuma das emoções que ele viveu até agora dentro de campo pode ser comparada com os momentos que passou no domingo (15).

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Ricardo e seus companheiros tinham chegado havia pouco tempo de Matosinhos, onde o Tondela fora eliminado pelo Leixões da Taça de Portugal – ele próprio foi expulso durante a partida. Na viagem de volta, a delegação se viu surpreendida pelos incêndios florestais que devastaram parte de Portugal e mataram ao menos 37 pessoas. O ônibus em que viajavam foi atingido por pedaços de árvores em chamas e o motorista teve de guiar na contramão de uma estrada para buscar um atalho salvador.

Mas o susto maior ainda estava por vir. Quando a delegação chegou a Tondela, o zagueiro foi para o hotel onde está morando, próximo à sede do clube. E não demorou muito para que o fogo – que se alastrou por toda a cidade – também chegasse ao hotel. Com mangueiras e extintores, hóspedes e funcionários se juntaram aos bombeiros na tentativa de conter as chamas. A ideia era manter seguros a garagem e o espaço onde fica armazenado o gás.

A situação foi ficando cada vez pior. “Estava tudo pegando fogo, o hotel cheio de fumaça e os alarmes tocando. Tivemos de fugir para o subterrâneo com toalhas molhadas a tapar o rosto. Esse era o plano B; o C era mesmo irmos para dentro da piscina. Estava tudo cercado pelo fogo, não tínhamos qualquer hipótese de fuga. Foi um estresse tremendo, estava um calor incrível, mais de 30 graus, muitas cinzas, um cheiro muito forte”, contou o jogador, em entrevista ao jornal Record.

Enquanto Ricardo Costa estava acuado no hotel, dirigentes e simpatizantes do Tondela assistiam de longe, sem poder fazer nada, à gigantesca ameaça que o fogo trazia ao clube. Todo o complexo desportivo – incluindo o estádio João Cardoso e a sede social – estava cercado por enormes labaredas. Não havia nada a ser feito.

“Era impossível tentar salvar algo. O vento era tal que o conselho para todas as pessoas era ficar em casa. Na verdade, a preocupação maior foi o campo de treinamento, que estava mais exposto, mas por incrível que pareça não há prejuízo a registrar”, contou o diretor de comunicação do Tondela, Vítor Ramos.

Se por um lado o fogo poupou o clube de um prejuízo material e emocional de enormes proporções, de outro deixou um rastro de destruição por toda a cidade. Mais de 100 carros foram carbonizados e dezenas de imóveis, entre casas, barracões, comércios e indústrias, foram consumidos pelas chamas. No dia seguinte, o forte cheiro de fumaça ainda presente no ar fez as escolas cancelarem as aulas e o elenco do Tondela treinar nos corredores do estádio, evitando problemas respiratórios.

Os grandes incêndios florestais são um dos maiores problemas vividos por Portugal nos últimos tempos. Em junho, 64 pessoas morreram com as chamas que atingiram a região de Pedrógão Grande. Ao longo do ano, mais de 300 mil hectares de área foram devastados pelo fogo. Nesta quarta-feira (18), a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, não resistiu à pressão e deixou o cargo.

Do ponto de vista da solidariedade esportiva, não falta apoio ao Tondela. Vários clubes manifestaram-se solidariamente à equipe e o Belenenses, seu próximo adversário no Campeonato Português, já acenou estar disposto a adiar a partida.

Do ponto de vista humanitário e de administração do país, porém, Portugal precisa tomar providências urgentes – e eficazes –, seja para prevenir os incêndios, seja para combatê-los. Mais do que a ameaça de dilapidar um clube de futebol, o que não pode continuar acontecendo é a morte de centenas de vítimas inocentes de tragédias possíveis de serem evitadas, controladas ou, na pior das hipóteses, amenizadas.