São 43 anos de idade, 23 deles vividos como jogador de futebol profissional. E é impossível encontrar, nesses mais de 8 mil dias, apenas um no qual Zé Roberto não se dedicou à carreira de corpo, alma e coração. Um mísero dia no qual ignorou seu foco como atleta. Afinal, o veterano reúne o melhor de dois mundos. Respeitou à risca o profissionalismo, à medida em que exibiu uma paixão digna de tempos amadores. Leal aos companheiros e aos adversários, leal aos seus ideais, leal ao que se espera de um grande jogador. E, por isso, exemplo que rompeu décadas como uma das principais referências do futebol brasileiro.

Olhando a tudo que rolou desde 1994, Zé Roberto se aposenta como um craque. Mas não estritamente a conceitos técnicos, à qualidade no trato com a bola, que ele também exibiu em determinados momentos da carreira. Craque, sim, por representar algo que consegue ir ainda mais além que seus títulos ou seu currículo. Que será lembrado com respeito por quem quer que seja, por aquilo que construiu e ofereceu ao esporte desde 1994.

O Zé Roberto imparável dos tempos de Portuguesa foi um dos melhores laterais do futebol brasileiro nos anos 1990. Chegou ao Real Madrid, passou também pelo Flamengo, migrou ao Bayer Leverkusen. Disputou sua primeira Copa do Mundo em 1998. E apresentou um fôlego invejável para subir e descer o campo, algo que voltou a se ver no final da carreira, também por Grêmio ou pelo Palmeiras. Nesta posição, evidencia-se uma das grandes virtudes do veterano: a intensidade na qual atuava por 90 minutos e também por 23 anos. Que fizeram da idade um mero detalhe na hora de retomar as origens, sem vaidade, quando já estava consagrado.

Na Alemanha, Zé Roberto chegou ao seu ápice. E justo quando se reinventou. Transformou-se integralmente em um volante eficiente, que carregava o piano e dava um toque de qualidade na construção das jogadas. Compôs um time histórico do Bayer Leverkusen, apesar do gosto amargo que os três vice-campeonatos deixaram em 2002. Tinha bola para isso, mas não esteve na Copa do Mundo de 2002. Afinal, o seu salto de excelência aconteceu quando o Bayern de Munique confiou em seus serviços. Na Baviera, o meio-campista recebeu o devido reconhecimento. Os títulos e a idolatria. O retorno ao Mundial, convocado para jogar na própria Alemanha em 2006. E num elenco tão badalado, o operário da bola não era exatamente o nome mais cotado. Ainda assim, encerrou aquela Copa como o melhor jogador do Brasil, o único votado na seleção do torneio.

Haveria, pouco depois, o Zé Roberto que se fez maestro. O que voltou a Santos e jogou o fino, vestindo a camisa 10 de Pelé. Era a prova de que ele poderia seguir rendendo em alto nível por muito tempo. A deixa para retornar à Alemanha, mais uma vez campeão com o Bayern, também adorado no Hamburgo. Passou pelo Al-Gharafa. Até voltar para os últimos anos de sua carreira no Brasil, primeiro no Grêmio, depois no Palmeiras. Final de carreira, não ocaso. Mesmo que nem sempre tenha sido brilhante, não se pode ignorar a grandeza de seus últimos momentos. Com a camisa tricolor, por duas vezes recebeu a Bola de Prata, entre os melhores do Brasileirão como volante e como lateral. Até que recobrasse as glórias alviverdes como uma das principais lideranças no Palesta.

O que se viu nesta segunda, no Allianz Parque, é o suprassumo do que pode se chamar de gratidão. A frase “O Palmeiras é grande” ecoará por muito tempo no antigo Jardim Suspenso. E o que soou como chacota para muitos rivais naquele primeiro momento, em que o veterano acabava de chegar ao Palmeiras, terminou como profecia. Acabou com o título da Copa do Brasil e, mais importante, a reconquista do Brasileirão após um longo inverno de 22 anos. O vovô nem sempre foi unanimidade nessa passagem final pelo Palestra. Mas as contestações nunca acusaram a falta de entrega do velho craque. Era sempre o primeiro a puxar a fila, seja para dar o exemplo ou para ir além do seu limite. Várias vezes, ele conseguiu.

A emoção, por fim, imperou no último jogo de Zé Roberto no Allianz Parque. As homenagens começaram dando a voz ao próprio veterano, em uma preleção que mexeu com os seus companheiros. Na entrada em campo, recebeu uma placa, um quadro e – mais importante – a ovação da massa alviverde. A noite era dele. E continuou sendo, mesmo quando Dudu e Keno anotaram os gols na vitória por 2 a 0 sobre o Botafogo. Todos saíram correndo para comemorar com o ídolo. Ao final, a atuação de Zé Roberto se destacou pelo de costume: pela eficiência de quem errou apenas um passe durante os 90 minutos; pelo esforço de quem arrancou aplausos até por carrinho para evitar lateral; e por ser incansável, correndo pelo time como sempre. Pelo sempre.

E mesmo com toda a sua experiência, Zé Roberto não conseguiu controlar as lágrimas. Foi uma ocasião única, inédita em seus 23 anos como profissional. Aplaudido no centro do campo, acabou jogado pelos companheiros ao alto. Terminou dando uma volta olímpica, para agradecer o carinho a quem fez tanto. O capítulo final que ele escolheu, em um clube que também ajudou a engrandecer. No qual gravou seu nome, como a maioria absoluta daqueles que defendeu em mais de duas décadas.

Zé Roberto fará falta ao futebol, por inúmeras virtudes. Por ser aquele de quem nunca se ouviram queixas, de companheiros ou adversários. Por ser aquele que deixou de lado qualquer narcisismo para seguir na ativa até os 43. Mas, sobretudo, por seu devotamento à vida de atleta e por sua sede de vencer. Será por muito tempo o parâmetro do que qualquer futebolista comprometido deveria perseguir em seu dia a dia. Pois o compromisso, no fim das contas, nunca foi apenas com sua carreira, com seu clube ou com sua torcida. Foi ao idealismo sobre o que compõe a essência ao esporte.