Nos dias de hoje, ‘stalinista’ é ofensa das mais graves. Chamar alguém por esse adjetivo é qualificar a pessoa de autoritária, intransigente, que não aceita o diálogo. Pois bem, mas o que isso tem a ver com o futebol?

Tem a ver que o Zenit FC, clube russo que chegou até as quartas-de-final da Copa Uefa, que já foi apelidado de ‘Os Stalinistas’ no começo de sua história. O que pode soar assustador aos nossos ouvidos é perfeitamente compreensível quando falamos de um clube fundado na sombria União Soviética, onde um agrado a mais ao ditador não faria mal a ninguém.

Time operário

O Zenit, assim como tantos outros clubes da ex-URSS, tem sua origem no movimento operário. O time foi fundado por metalúrgicos da cidade de Leningrado – o nome “comunista” de São Petersburgo – em maio de 1925. O time não chegava a ter maiores aspirações dentro do futebol soviético até 1930, quando finalmente ingressou na liga regional.

Em 1936, o clube foi renomeado para homenagear o “patrão”: passou a se chamar Stalinets, nome quase cômico em referência a Josef Stálin. A importância de se homenagear o líder da URSS se fazia vital em uma cidade como Leningrado, berço da revolução russa e, mesmo sem o status de capital que voltara a pertencer a Moscou, era um ponto chave do maior país do mundo.

E foi em 1939 que os Stalinets mais honraram o nome que carregavam. Conseguiram chegar à final da Copa da União Soviética – não tiveram sorte, já que encararam o então imbatível Spartak, e ficaram com o vice. Mas o nome do clube já estava registrado no futebol soviético.

Mesmo com a euforia pelo vice-campeonato, o clube resolveu adotar o nome pelo qual já era conhecido popularmente. Nascia, então, o Zenit FC, em 1940. Quatro anos mais tarde, o primeiro troféu da galeria do Zenit: o time sagrou-se campeão da Copa da URSS vencendo o CDKA Moscou (atual CSKA) na decisão – e ainda dando o troco no Spartak, despachando o “bicho-papão” nas semifinais.

Quando parecia que o Zenit se confirmaria como um dos grandes da URSS veio o ocaso. As décadas posteriores marcaram a fase mais sombria do clube. Um jejum assolou o clube e o Zenit acabou por se tornar um coadjuvante. De fato, a União Soviética estava tomada pela grandeza de Dínamo Kiev e Spartak Moscou. Era raro que um “penetra” furasse a hegemonia dos dois – e a espera por títulos do Zenit durou quarenta anos.

Time do saco

A longa espera vivida pelos fãs do Zenit foi recompensadora. A temporada 1984 foi a melhor da história do clube. O time voltou a uma decisão da Copa da URSS – quando foi derrotado pelo Dínamo de Moscou – e conquistou o maior feito da sua existência, o campeonato soviético. Com dois pontos à frente do Spartak, os torcedores de Leningrado fizeram a festa.

A festa do título rendeu ao clube um dos seus apelidos: “os sacos”. A alcunha estranha se deveu a distribuição de sacos plásticos com a inscrição “Zenit campeão”. Com os sacos, o Zenit adicionou outro apelido curioso para a sua coleção: o outro é “os sem abrigo”, numa referência aos torcedores do clube que encaravam longas viagens de trem e dormiam em estações ferroviárias, tudo para acompanhar o time do coração.

Depois do título nacional, o Zenit ainda venceu a Supercopa da URSS, derrotando o Dínamo de Moscou na final.

Pós-URSS

Acaba a União Soviética e o Zenit sofre uma mudança imediata: sua cidade, Leningrado, voltaria a adotar o nome que usava até antes da revolução, São Petersburgo. E o Zenit adiciona o “novo” nome da cidade em seu nome oficial.

Dentro de campo, as mudanças só vinham para pior. Logo na primeira temporada do Campeonato Russo – em 1992 – veio o rebaixamento. Desse buraco, o Zenit só conseguiria escapar em 1995, com o terceiro lugar na segunda divisão.

A partir de 1996, o clube cravou sua posição na elite russa, sem mais apertos com o rebaixamento. Sonhar com títulos já não era mais algo impossível. E o primeiro após a extinção da União Soviética veio na Copa da Rússia de 1998/9, quando, em 26 de maio, o Zenit saiu de São Petersburgo para derrubar o Dínamo local e comemorar o título.

Nos anos seguintes, feitos mais memoráveis não foram realizados pelo Zenit. Mas temporadas como a de 2003 – quando o clube foi vice-campeão nacional e campeão da recém criada Copa da Liga Russa – confirmaram que o clube pode complicar para os favoritos da Rússia. E até mesmo para os grandes da Europa – Olimpique de Marselha e AEK de Atenas, derrotados pelos “sem abrigo” na temporada 2005/6, que o digam.