Tinga, meia do Cruzeiro (Washington Alves/Vipcomm)

A zoeira, meus caros, ela tem limite. Ainda bem

Gómez Suárez de Figueroa é um dos filhos mais ilustres de Cuzco, talvez o mais ilustre. Mas pouca gente o conhece pelo nome real. O escritor e historiador nascido em 1539 adotou o nome artístico de Inca Garcilaso de la Vega. Filho de um conquistador espanhol com uma princesa inca, ele misturou os dois povos e se tornou o primeiro mestiço a ter projeção em todas as Américas. Hoje, “Inca Garcilaso de la Vega” virou nome de rua, estádio de futebol e até de uma escola em Cuzco. Uma escola cujos ex-alunos decidiram, em 2009, criar um clube, um clube que recebeu o nome que faz referência à escola e ao histórico personagem multirracial: Real Garcilaso.

Se o próprio clube carrega uma homenagem a um mestiço, qual a justificativa para os atos da torcida peruana, que fez sons de macaco quando Tinga pegava na bola na vitória do Garcilaso sobre o Cruzeiro por 2 a 1 nesta quarta, pela Libertadores? Contraditório. Talvez a explicação esteja na composição étnica dos peruanos.

Não, não está. O Peru é um país com muita miscigenação. Boa parte da população é de origem indígena e/ou europeia, mas há um contingente considerável de negros (cerca de 10%) e até de orientais (3%, percentual maior que do Brasil), ainda que esses dois últimos grupos se concentrem mais nas cidades costeiras, sobretudo Lima. Se trocarmos os indígenas pelos negros, a composição étnica entre os dois países tem semelhanças. Ou seja, mais motivos para considerar fora de propósito a atitude racista da torcida do Real Garcilaso.

Podemos buscar várias formas de mostrar quão incabível foi a atitude dos torcedores em Huancayo. Não encontraremos a resposta. Simplesmente porque o racismo é um fenômeno cultural e irracional, que não vai se condicionar a um estudo etimológico, histórico ou demográfico para encontrar apoio. Se a pessoa quer ser racista, ela dá um jeito, não precisa de argumentos para sustentar a tese. Até porque, se for buscar explicações científicas sérias para justificar a superioridade de uma raça, não encontrará.

Se quiser se informar sobre a questão do Peru, essa reportagem do Guardian mostra como há racismo contra os afro-peruanos. Link em inglês.

Isso fica ainda mais nítido quando se trata de futebol e provocar o adversário. Flávio Winicki, repórter do Fox Sports, estava em Huancayo para a cobertura de Real Garcilaso x Cruzeiro. Ele relatou nesta quarta que ficou surpreso com a reação dos torcedores peruanos em relação a Tinga. Simplesmente porque, nos dias anteriores, todos haviam sido cordiais com os brasileiros, incluindo os negros. A imagem do volante, inclusive, era utilizada em um cartaz fixado do lado de fora do estádio para promover o jogo.

Ramón Rodríguez e Tinga disputam uma bola durante Real Garcilaso x Cruzeiro (AP Photo/Karel Navarro)

Ramón Rodríguez e Tinga disputam uma bola durante Real Garcilaso x Cruzeiro (AP Photo/Karel Navarro)

Bonito, mas por que isso acabou na hora do jogo? O torcedor de futebol, em quase todos os lugares, é levado a acreditar que qualquer coisa é válida nas arquibancadas. Aliás, os jogadores têm a mesma atitude quando resolve provocar ou irritar o oponente.

Pode chamar de bêbado o jogador com problema de alcoolismo? Pode. Pode chamar de assassino o jogador que esteve envolvido em um acidente que matou alguém? Pode. Pode atacar a sexualidade do jogador? Pode. Pode atacar a terra de origem do adversário? Pode, claro. Pode cutucar a condição social do oponente? Óbvio. Tudo pode, até atirar rojão em direção a alguém é válido. E, nesse universo em que tudo é permitido em nome da vitória, o racismo não é visto como algo a se ter um cuidado especial.

Não é coisa apenas do Peru. É algo presente no mundo todo. Na Inglaterra, atiraram uma banana no estádio Emirates quando Neymar marcou um gol na Escócia. Na Rússia, a torcida do Zenit tem não esconde que não quer negros na equipe. Na Itália e na Espanha, houve casos recentes com as torcidas de Roma e Atlético de Madrid. E tem no Brasil.

Após o fatídico Real Garcilaso x Cruzeiro, Tinga disse que só havia passado por situação parecida uma vez. Em Caxias do Sul. Se formos para outro esporte, vamos encontrar dois casos recentes ligados ao Cruzeiro. Em 2011, a torcida celeste fez coro de “bicha” para Michael, central do Vôlei Futuro, durante os playoffs da Superliga. Tecnicamente não é racismo, mas é um preconceito igualmente lamentável. No ano seguinte, foi a vez de o vôlei cruzeirense ser a vítima. No clássico mineiro contra o Minas, o oposto Wallace foi chamado de “macaco” por uma torcedora.

Tudo vira uma maçaroca, e ninguém reflete sobre seus atos. É impossível precisar quantos torcedores participaram dos coros racistas contra Tinga nesta quarta. Digamos que tenham sido 5 mil, cerca de um terço do estádio Huancayo. Desses, alguns podem ser racistas convictos, outros são pessoas que talvez nem cometessem esse erro grave por conta própria, mas têm alguma semente racial na cabeça e foram na onda, e outros simplesmente achavam que essa questão não é relevante a ponto de inibir a provocação. Todos esses estão errados.

O campo de futebol não pode ser um vácuo de conceitos éticos básicos. Não é aceitável imitar macacos ou atirar bananas no gramado para desestabilizar o adversário. E, para mostrar quão inaceitável é esse comportamento, as punições precisam ser do mesmo peso. Fecha estádio, encerra o jogo na hora e dá os pontos para o adversário, tira ponto. Cria uma situação em que o clube tenha necessidade real de agir para que o ato cesse imediatamente. E força o torcedor perceber como a ação dele é realmente grave, a ponto de ele ter de refletir sobre o que está fazendo.

Afinal, a gente gosta de dizer nas redes sociais que a zoeira não tem limite, ela não pode ter limite. Mas é só na brincadeira de rede social. Porque, no mundo real, ela tem limite, sim.