Torcida do Corinthians fez festa na sua nova casa, a Arena Corinthians (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

A zona leste é do Corinthians e o Corinthians finalmente é da zona leste

O dia era de trabalho. Acordei no mesmo horário dos dias úteis, como se fosse atravessar a cidade, como normalmente faço. Só que era sábado. E, desta vez, não seria preciso atravessar a cidade para trabalhar. O sentido era oposto. Moro na zona leste de São Paulo, a região mais populosa da cidade, com 3,9 milhões de pessoas, e, como a maioria dos moradores da região, trabalho fora longe daqui. Só que neste sábado, as coisas foram diferentes. Peguei o ônibus para o metrô e lá estava o primeiro sinal: um pôster indicando como chegar à Arena Corinthians, em Itaquera.

Pôster dá indicações sobre como chegar à Arena Corinthians (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

Pôster dá indicações sobre como chegar à Arena Corinthians (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

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O sábado ensolarado e frio era dia de um jogo festivo. Um Corinthians x Corinthians só com ex-jogadores do clube, muitos ídolos do passado e nomes que são adorados pela torcida. E como faço todos os dias, usei o metrô para ir trabalhar, mas nada de vagões lotados, aperto e espera de oito trens para conseguir entrar. Com tudo vazio, foi bem mais fácil. Pela primeira vez na vida peguei o metrô no sentido Corinthians-Itaquera para trabalhar, e não no sentido Palmeiras-Barra Funda. Pois é, tem clássico até nos sentidos do metrô na Linha 3, que passa pela zona leste.

Em lados opostos da cidade, Corinthians e Palmeiras ponteiam a linha. No Pacaembu, o Corinthians ficava mais perto da estação Palmeiras-Barra Funda do que da Corinthians-Itaquera. Não mais. Agora, o Corinthians está na região à qual pertence. O clube sempre foi na zona leste, no Parque São Jorge. Nada mais justo que seu estádio fosse em Itaquera, onde o clube já teve centro de treinamento, onde a grande maioria dos moradores é corinthiano. Os moradores da zona leste não precisam mais pegar o sentido Palmeiras-Barra Funda para ir ao Pacaembu. Vão para Corinthians-Itaquera, como deve ser.

Até nos sentidos do metrô tem dérbi entre Corinthians e Palmeiras (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

Até nos sentidos do metrô tem dérbi entre Corinthians e Palmeiras (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

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No caminho, já dava para ver alguns torcedores. Ainda era cedo, faltavam duas horas para o jogo. Da estação Corinthians-Itaquera, já dava para ver o estádio e a concentração de pessoas indo na direção da nova casa corinthiana. No metrô, indicação para seguir até o estádio. Não que precisasse. Aquela construção enorme chama a atenção antes mesmo de descer do trem.

O caminho do metrô até a entrada é de cerca de 10 minutos. Embora o estádio seja do lado da estação, é preciso praticamente contorná-lo para poder entrar. O pó da construção está lá, em meio a máquinas, tratores, guindastes. As obras continuam e a manhã de sábado não é só de festa na Arena Corinthians, é também de trabalho para muitos operários, que seguem tocando parte da obra. Parece faltar muita coisa no entorno, na Radial Leste, nas chamadas estruturas temporárias. Mas as obras seguem a todo vapor e isso deve garantir, no fim, que tudo fique pronto a tempo – ainda que em cima da hora demais.

O estádio é belíssimo, as cadeiras são confortáveis, os banheiros são limpos e as entradas dos torcedores são amplas. Dá para ver que as arquibancadas temporárias são as mais atrasadas. Falta colocar as cadeiras e muito do acabamento. Em diversos pontos, há canteiros de obras. Internamente, o estádio está praticamente pronto. Falta mesmo o acabamento. A situação deve melhorar até o dia 18, quando o Corinthians fará o seu primeiro jogo oficial na nova casa, contra o Figueirense, pelo Campeonato Brasileiro. Melhor, mas não completo. As arquibancadas temporárias ainda não estarão liberadas, segundo o responsável pela obra, Andrés Sánchez. Essas só serão mesmo usadas na abertura da Copa do Mundo, no dia 12 de junho.

Quando a entrada dos torcedores foi liberada, as cadeiras brancas foram sendo coloridas com o preto e branco das camisas, agasalhos e faixas. Quando os primeiros torcedores entraram , já se ouvia alguns “Vai, Corinthians” sendo gritados e sendo ecoados em diferentes partes do estádio. O grito que foi aumentando, à medida que mais gente tomava as arquibancadas.

A cerimônia, marcada para às 10h, atrasou em cerca de meia hora. Entraram mais de 100 jogadores em campo, todos anunciados no microfone. Vampeta e Marcelinho foram muito aplaudidos, assim como Rivelino e Zé Maria, ídolos mais antigos. O ex-presidente Andrés Sánchez foi muito aplaudido quando foi anunciado. A torcida mostrou carinho com o dirigente responsável pelo estádio.

Mário Gobbi, ao contrário, foi vaiado e xingado pelo torcedor. “Gobbi, cuzão, fora do Timão”, gritava a torcida para o presidente, que falou rapidamente no microfone. Sánchez foi homenageado pela filha, e novamente muito saudado pelo torcedor. Até a viúva de Vicente Mateus, dona Marlene Mateus, apareceu na festa.

Enquanto a festa rolava do lado de dentro, era possível ver torcedores nas grades que cercam o estádio. Considerando que o ingresso custava R$ 50, não deixa de ser simbólico que alguns corinthianos tenham assistido à festa dessa forma. A questão dos ingressos, aliás, é algo que o Corinthians já pensa para o futuro. Com capacidade para 48 mil lugares inicialmente, a Arena Corinthians terá 62 mil lugares por causa da Copa do Mundo. Será possível colocar um público próximo da capacidade máxima, como o time vem fazendo nos últimos anos no Pacaembu?

“Na realidade, a gente vai começar a sentir isso nos jogos. A gente não conhece ainda qual é o público que vai vir para cá. Então a gente não vai falar nem se o que tá sendo agora vai permanecer, nem se vai aumentar ou diminuir. De acordo com o que acontecer, a gente vai moldando para aquilo que for melhor. Não tenha dúvida que o sócio-torcedor jamais será esquecido, sempre vai ter um privilégio, a gente quer que cresça isso, pro nosso estádio ficar assim, cheio, todos os jogos. Essa é a intenção”, afirmou Roberto de Andrade, ex-diretor de futebol do clube. O dirigente admite que o clube ainda analisa a possibilidade de manter as arquibancadas temporárias de forma permanente.

“A gente está vendo ainda [de manter as arquibancadas móveis], estamos avaliando ainda. A gente sabe que no início talvez tenha até necessidade porque o estádio vai ser novidade para muita gente. Se a gente não tiver capacidade para lotar as arquibancadas móveis não tem sentido mantê-las, mas a gente está estudando de acordo com como os jogos, a gente vai avaliando. No prazo de 10, 12 meses a gente consegue fazer uma avaliação”, disse.

Ao menos na lanchonete, seria bom rever os preços. Para quem estava com fome, a lanchonete oferecia pastel a R$ 6, um preço bastante salgado – no pior sentido da palavra. E não era só o pastel que estava caro. Um copo de água custava R$ 4. Veja outros preços:

Os preços da lanchonete na Arena Corinthians (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

Os preços da lanchonete na Arena Corinthians (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

Craques em campo

O primeiro jogo teve alguns grandes craques do passado, entre eles, talvez aquele que tenha sido um dos maiores da história do Corinthians: Rivellino. E foi dele o primeiro gol da Arena Corinthians. Só que tiveram que burlar umas regras para isso acontecer. Isso porque ele estava jogando no time de branco, mas quem teve um pênalti a seu favor foi o time que jogava de preto. Não importa, pediram para que Riva batesse o pênalti. Ele bateu, marcou e comemorou. A fiel tinha seu primeiro gol para comemorar na nova casa. E logo de um ídolo eterno, dando mais páginas imortais à sua história no clube.

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O segundo jogo teve outros ídolos em campo. Em um dos times, Marcelinho Carioca, um dos grandes nomes do time nos anos 1990, multicampeão pelo clube. Apesar de acima do peso e fora de forma, o meia mostrou que ainda sabe bater bem na bola e fez belas inversões de jogo. Quando o seu time teve uma falta próxima da área, a torcida foi à loucura. Um lance tantas vezes comemorado pelos torcedores. E ele não decepcionou: bateu bem e marcou. A torcida comemorou muito e o jogador foi muito abraçado em campo. No mesmo jogo, o time adversário de Marcelinho teve um pênalti. A torcida então pediu para outro ídolo cobrar: Rincón. O colombiano cobrou com categoria e marcou o gol de empate. Mais festa dos torcedores.

Foram seis jogos de 15 minutos cada um. A lista de ídolos da fiel em campo era enorme, incluindo Palhinha, Dinei, Silvinho, Luizão, Edílson e até jogadores do elenco atual, como Jadson e Elias, que não podem jogar pelo clube neste domingo, em jogo contra o São Paulo pelo Campeonato Brasileiro e vieram reforçar o elenco de estrelas corinthianas.

Os jogos não tinham espírito de competição. Tinha mais cara de uma pelada entre amigos em um sábado de manhã. Com a diferença que era uma pelada só com ex-jogadores, alguns grandes ídolos do passado, em um estádio de Copa do Mundo e com 17 mil pessoas nas arquibancadas.

Alguns momentos ficarão para sempre. Um dos grandes ídolos corinthianos, Zé Maria, o grande símbolo da raça em um clube que valoriza muito isso, foi um dos mais festejados enquanto esteve em campo. Nas vezes que apoiou o ataque e recebeu a bola, a torcida gritou e o aplaudiu como se ele fosse o craque atual do time. Um reconhecimento justo a um grande nome do passado. E ele mesmo se emocionou.

“É sempre gostoso, eu jamais esperava um acontecimento como esse, poder estar voltando diante da torcida, entrando no estádio, mas aconteceu. Eu tenho que agradecer a essa direção, e ela faz uma premiação a todos nós, ex-jogadores, a galera que passou pelo Corinthians, e é um prêmio para nós ter dado esse início e com certeza será um grande prêmio para a torcida”, declarou o ex-lateral corinthiano.

“Não tem como você avaliar, é um negócio muito impressionante, só mesmo estando dentro, estar passando por isso para você ter esse sentimento. A gente volta no tempo, volta na história. É mais que um troféu para mim, eu que tive uma temporada bastante longa no Corinthians. Eu fico muito feliz, isso é algo que a gente leva para sempre no coração. E a gente representa, sem dúvida nenhuma, os jogadores todos que passaram pelo clube. É um presente que o clube deu aos ex-jogadores essa participação e vai complementar com a festa da torcida e dos próximos jogadores”, disse Zé, com seu bigode sempre marcante e um sorriso no rosto.

Zé Maria, ídolo corinthiano (Foto:: Felipe Lobo/Trivela)

Zé Maria, ídolo corinthiano (Foto:: Felipe Lobo/Trivela)

Ainda em teste

Andrés Sánchez fez uma boa avaliação sobre o evento.  “Teve algumas coisas que a gente se perdeu por aqui. Teve muitos familiares dos jogadores, mais de 105 jogadores, família entra, família sai. Até peço desculpas para vocês porque certamente atrapalhou, mas nos próximos jogos vamos acertando. Todo mundo tem que achar o seu espaço aqui, tem que achar sua localização para ficar melhor pra todo mundo”, afirmou o dirigente responsável pelo estádio.

Andrés ainda afirmou que durante esse ano o Corinthians irá analisar e tentar adaptar para atender melhor o torcedor e só mesmo no início de 2015 o clube poderá atender completamente o torcedor. “Eu acredito que até o final do ano teremos que acertar a operação, a logística, um monte de coisa que tem que se acertar e acostumar e começar 100% com atendimento mesmo a partir de janeiro”, disse.

O nome do estádio é, oficialmente, Arena Corinthians, mas ficou comum ouvir “Estádio de Itaquera” ou “Itaquerão”. Nas placas na direção ao estádio, a prefeitura colocou “Est. Itaquera”, assim como existe “Est. Pacaembu” e “Est. Morumbi” em outros pontos da cidade. Sanchez reclamou, mas disse que o que prejudica mesmo é o nome que a imprensa dá.

“Isso é uma hipocrisia que tem nesse país, especialmente em São Paulo, a lei cidade limpa, que não pode colocar em placas oficiais o nome do estádio, nome de hospital ou nome de alguma empresa. Infelizmente fazem isso e vamos ver o que vamos fazer daqui para frente”, afirmou. “Isso não prejudica. O que prejudica é a imprensa falar Itaquerão, Lulão, Andrezão, Fielzão, isso prejudica bastante. Agora das placas nem tanto e as pessoas falarem nem tanto. O problema é que as pessoas querem ver na internet, no jornal e na televisão”.

Um dos efeitos do estádio ser em Itaquera é o orgulho de alguns torcedores por serem da região. Um grupo de torcedores organizados tinha na camisa “Zona Leste” junto ao nome do Corinthians. O clima era todo favorável. E o estádio emocionou muitos torcedores que o viram pela primeira vez. “É um orgulho para todo corinthiano, não tenho dúvida disso”, disse Roberto de Andrade, que acredita que o estádio fará diferença para a zona leste.

As arquibancadas temporárias, no alto: ainda incompletas (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

As arquibancadas temporárias, no alto: ainda incompletas (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

“Para a região já chegou [os benefícios], o estádio está aqui, as benfeitorias, algumas já foram feitas, outras virão com o público vindo para cá. Agora, o nosso time com um estádio desse, nós temos que ter um timaço sempre para dar grandes glórias para todo nosso torcedor e acredito que não será diferente disso”, continuou. “Que o torcedor venha agora, nós precisamos de todo torcedor enchendo a casa, porque nós temos que pagar essa conta aqui, que não é pequena, mas se Deus quiser, com a ajuda de todos a gente vai conseguir”.

Os benefícios para a região não são tão grandes assim. As obras viárias tentam melhorar o tráfego de carros e ônibus na região e facilitar o acesso dos torcedores. Falta que a prefeitura e o governo do Estado olhem com carinho para a região para trazer benefícios reais em uma região tão sofrida, com tantos problemas estruturais, a começar pelo metrô superlotado (o mais lotado do mundo).

Mas o benefício para a torcida do Corinthians está evidente. A torcida já abraçou o estádio. A Arena Corinthians mexe com a zona leste, é um orgulho para a região e para a sua torcida. O Corinthians tem sua torcida enorme, espalhada pelo Brasil, mas nenhuma região é tão representativa para o clube como a zona leste. A origem do clube é o Bom Retiro, região central da cidade, mas a sua casa sempre foi a zona leste. Seja pelo clube, no Parque São Jorge, seja pelo centro de treinamento que foi em Itaquera e atualmente fica em Ermelino Matarazzo, seja porque a zona leste tem a maior proporção de corinthianos da cidade.

Antes, o Corinthians morava na zona leste, mas dava festas na zona oeste, onde também se acostumou a chamar de casa, no Pacaembu, que será eterno na história do clube. Mas agora o Corinthians não precisa mais alugar salão de festas. Pode chamar seus fieis convidados para a sua casa. E é uma casa linda, ampla e que tem tudo para estar sempre cheia. Não faltam interessados a estar lá sempre.

A zona leste sempre foi do Corinthians. Agora, o Corinthians é, definitivamente, também da zona leste.

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