Que o Ajax está com o título holandês praticamente garantido, já se sabe: basta um ponto contra o Heracles Almelo, na 33ª rodada. Seria o segundo título da temporada, mais um passo rumo a um triplo triunfo nacional. Os Godenzonen já ganharam a Supercopa da Holanda contra o AZ, no início da temporada, fazendo 3 a 2. O Holandês está na mão, com a penúltima rodada daqui a duas semanas. No meio do caminho há a final da KNVB Beker, a Copa da Holanda, a ser disputada neste domingo, em Roterdã. Só que poucos adversários estariam tão motivados quanto está o oponente do Ajax na final: o Zwolle.

Originalmente, a equipe de Zwolle (cidade a 82 quilômetros de distância de Amsterdã) pretendia apenas manter-se na primeira divisão, para onde voltou na temporada passada. E já começou muito bem, com cinco rodadas de invencibilidade, o que incluiu vitória sobre o Feyenoord na primeira rodada. E isso fez até com que a equipe chegasse a ocupar a liderança da Eredivisie, que vivia então tempos de frenético equilíbrio. Claro, uma hora passou: na sexta rodada, o Zwolle viu a boa sequência quebrada por uma derrota para o… Ajax, que fez 2 a 1 em Amsterdã.

E aí começou uma fase perigosa, com sete rodadas sem vitória, entre a 12ª e a 19ª. No entanto, logo a equipe voltou a se assentar. E até obteve bons resultados, como um empate contra o Ajax, na 23ª rodada. Vendo que não sairia do meio da tabela (e nem lamentando isso – era, afinal, o desejo principal), o Zwolle começou a querer mais coisas na Copa da Holanda. E o desafio nas quartas de final era acessível, enfrentando o JVC Cuijk, time amador da terceira divisão holandesa.

O time livrou-se do adversário com facilidade, fazendo 5 a 1. Na semifinal, haveria dificuldades maiores: a equipe enfrentou o NEC, ainda mais preocupado com o perigo do rebaixamento na Eredivisie (tendo chegado a ser lanterna, era – como é – o penúltimo colocado, quase certo de precisar jogar a Nacompetitie, repescagem contra a queda). Talvez por esse nervosismo, o goleiro do NEC, Dennis Gentenaar, falhou nos dois gols do Zwolle, que fez 2 a 1 e chegou à terceira final de copa em sua história.

Aí surgiu a melhor notícia: como se sabe, vencedores de copas nacionais europeias ganham lugar na Liga Europa. Porém, paralelamente, o Ajax venceu o AZ na outra semifinal da KNVB Beker. E chegou à final, mesmo já estando na disputa do título holandês. Lá se manteve. E como líder do campeonato, já terá vaga garantida na fase de grupos da Liga dos Campeões.

Vaga na segunda fase preliminar da Liga Europa aberta, então, para o Zwolle, que está praticamente certo numa competição continental pela primeira vez em sua história. O que foi motivo de comemoração até incrédula para o diretor geral do clube, Edward van Wonderen: “É bizarro. Já estamos numa posição acima do que esperávamos, e agora ainda estaremos em uma competição continental. Nunca aconteceu antes, e obviamente é maravilhoso. Estamos fazendo história”.

O melhor é que o Zwolle pode comemorar essa participação sem preocupações com o rebaixamento. Até curiosamente, já que está há quatro rodadas sem vitória, com dois empates e duas derrotas. Mas o benefício é claro: o equilíbrio do meio da tabela, com apenas três pontos separando o Zwolle, 9º lugar, do Heracles, 14º colocado. Com a irregularidade de todos os times que estão nessa região, não há quedas drásticas nem ascensões vertiginosas.

O que favorece times como o que Ron Jans armou para o Zwolle, bastante esforçado no meio-campo. Tendo perdido Rochdi Achenteh em janeiro, para o Vitesse, o time teve a armação tática alterada. Antes no 4-2-3-1, a equipe começou a ser escalada no 4-1-4-1. Como tem fôlego quase inesgotável, o sul-africano Mokotjo consegue se desdobrar para evitar que a coisa estoure na defesa. Afinal, é mais protegido pela linha de quatro meio-campistas, que tem gente como o grego Karagounis e Stef Nijland. Estes auxiliam o atacante Guyon Fernandez, talvez o destaque do Zwolle na linha, durante a temporada.

Mas na linha, só, porque no gol, o estandarte do Zwolle é Diederik Boer. Nem é um goleiro indiscutível: lesiona-se muito, a ponto de ter apenas 18 partidas das 32 do Holandês, contra 14 do reserva, o belga Kevin Begois. Mas é um símbolo da equipe, sua única em toda a carreira, desde 2001. Sendo o terceiro jogador com mais partidas pelo clube (a ponto de virar segundo – tem 279 partidas, seis abaixo de outro goleiro, Henk Timmer), Boer é idolatrado pela torcida dos Dedos Azuis.

Pois é: Dedos Azuis é o apelido do Zwolle. Não só do clube, aliás, mas de qualquer nativo de Zwolle. Tudo por uma curiosa lenda popular: na Idade Média, as cidades de Zwolle e Kampen eram rivais. Mas certa vez, num período de trégua nas guerras em que a Holanda estava, Zwolle precisava vender sinos que estavam queimados. Kampen aceitou, mas a cidade rival não quis deixar barato e colocou um alto valor nos sinos. Ainda assim, os Kampenaren fecharam negócio, mas pagaram com um caminhão cheio de moedas de cobre. Aí surge a piada: os habitantes de Zwolle ficaram com os dedos “azuis” de tanto contarem moeda por moeda.

A cidade torce para que os Dedos Azuis ergam um troféu inédito agora.