Completando 25 anos de criação neste mês de agosto, a Premier League tem uma gênese intrincada. Muitas vezes mencionada como consequência direta do chamado Relatório Taylor, que obrigou os clubes ingleses a executarem reformas em seus estádios, além de endurecer a legislação no combate ao hooliganismo, a competição é na verdade fruto de um contexto mais amplo e antigo. Surge da disputa de poder entre entidades (notadamente a Football League e a Football Association) e os clubes da primeira divisão, fomentada pela briga por mais dinheiro de televisão, num momento de queda de interesse pelo jogo (ressuscitado apenas às vésperas de sua criação) e da necessidade de maiores fontes de receita. Os caminhos que levaram a essa verdadeira revolução no futebol inglês serão contados aqui em detalhes.

Início dos anos 80, tempos de crise

Uma mudança importante – ainda que pouco destacada hoje – na legislação de transferências no futebol inglês ocorreu em abril de 1978. Diante da pressão da Uefa e da Comunidade Europeia (atual União Europeia, para a qual o Reino Unido havia entrado cinco anos antes), a nova regra permitia pela primeira vez a um jogador a chamada “liberdade de contrato”, isto é, o poder de recusar propostas de renovação com o clube em que estava e, neste caso, mudar de camisa por um valor a ser estipulado pelos clubes ou por um tribunal (a mesma reforma também abriu de vez o mercado inglês a jogadores estrangeiros, mas o impacto inicial desta medida foi menor).

trevor francis

A nova possibilidade acabaria levando a uma escalada de cifras um tanto hiperbólicas para o contexto do futebol local naquele momento: depois de, em fevereiro de 1979, o Nottingham Forest quebrar a marca de um milhão de libras para tirar o meia-atacante Trevor Francis do Birmingham City (embora Brian Clough tenha sempre declarado que o valor real havia sido de £999,999), nada menos que nove outras transferências acima da quantia antes mitológica no futebol inglês foram realizadas pelos 18 meses seguintes, até agosto de 1981.

VEJA TAMBÉM: Os 25 anos do último título do Leeds, uma surpresa às portas da revolução com a Premier League

A gastança, porém, era incongruente com as receitas dos clubes: o público total nos jogos da primeira divisão vinha despencando desde seu auge nos primeiros anos do Pós-Segunda Guerra. No início dos anos 80, o número de torcedores nos estádios era cerca de metade do que era no fim dos anos 40. Em grande parte, por conta da recessão econômica e o aumento brutal das taxas de desemprego no país naquele começo de década (que afetavam principalmente a classe operária, maioria entre os torcedores de então), mas também diante do temor gerado pelo avanço desenfreado do hooliganismo.

luton-millwall

Como resultado de todos esses fatores, naquele momento praticamente todos os 92 clubes da Football League estavam operando no vermelho, mergulhados em dívidas, e muitos à beira da falência – ainda que muitos tivessem tentado compensar a queda de público com um aumento no preço dos ingressos. Não foram poucos os casos de clubes tradicionais (como o Wolverhampton e o Middlesbrough) salvos de fechar as portas na última das horas por contribuições de grupos de torcedores, consórcios ou empresários locais.

VEJA TAMBÉM: A briga generalizada que serviu de laboratório para as mudanças nos estádios ingleses

Diante da consternação geral, em outubro de 1982 a Football League encomendou a Norman Chester, presidente do Comitê de Inquérito do Futebol, um relatório sobre a estrutura das competições de liga e copa nacionais e as finanças dos clubes, com o objetivo de propor melhorias e ajustes para o futuro. As reivindicações dos clubes da elite ouvidas por Chester durante a feitura do documento eram bem claras: menos jogos nos meios de semana, 75% do dinheiro da televisão e patrocínio exclusivo para a então Division One e a retenção das receitas de bilheteria pelos clubes mandantes dos jogos. Apenas a última seria acatada pela liga.

Chester, que tinha suas próprias ideias – transformação dos clubes da terceira e quarta divisões em semiprofissionais, regionalização das categorias inferiores da liga, estabelecimento de um mecanismo de acesso e descenso direto entre a Football League e a chamada “non-league” – expressas no relatório, comentou em uma nota particular: “Os clubes da elite sabem por conversas no mundo da publicidade e do entretenimento que se eles fossem agentes livres provavelmente garantiriam para eles próprios receitas muito maiores do que sendo tratados como nada mais que parte de um grupo de 92. Essa é uma questão que, caso não seja resolvida amigavelmente num futuro próximo, poderia rachar a Liga”, escreveu.

Futebol versus televisão

MOTD

A relação do futebol com a televisão também enfrentou turbulências ao longo da década de 80. Em fevereiro de 1983, a emissora pública BBC e a privada ITV, que compartilhavam entre si as transmissões, anunciaram suas propostas para o novo contrato, avaliado em £5,2 milhões por dois anos. Se por um lado, ele previa pela primeira vez em caráter definitivo a exibição de partidas ao vivo, por outro proibia os clubes de mostrarem patrocínios nas camisas, algo que na época começava a aparecer em maior número.

VEJA TAMBÉM: Há 30 anos, o Everton faturava sua última liga e encerrava período de grandes glórias

O acerto só veio ao fim da temporada, mas dali a dois anos, quando o contrato se encerrou, houve um novo ‘round’ da disputa. Os clubes decidiram pedir alto, acima de um valor já bem maior que o do termo anterior, e as negociações se arrastaram ao ponto de toda a primeira metade da temporada 1985-86 ter se desenrolado sem futebol nacional nenhum na TV, nem mesmo nos tradicionais videotapes com os compactos das partidas exibidos pelo “Match Of The Day”, da BBC, e pelo “The Big Match”, da ITV. No fim das contas, os clubes acabaram assinando um contrato-tampão até o fim da temporada e por valor proporcionalmente ainda menor do que o oferecido inicialmente.

A ideia de uma “superliga” já era comentada desde o início da década, mas começou a ser sondada de maneira mais explícita justamente nessa época, fim de 1985, em meio à batalha com as emissoras de televisão. Os clubes da elite ameaçaram romper com a Football League caso suas exigências não fossem aceitas. Acabaram satisfeitos com uma delas: a distribuição do dinheiro da TV, antes igualitária entre todos os 92 clubes das quatro divisões, foi refeita, com metade do valor total indo para a primeira divisão.

Na segunda metade da década, o grupo que reunia os presidentes dos clubes de maior influência, prestígio e poderio econômico no país e que seria apelidado de “Big Five” (os “Cinco Grandes” – na época, Arsenal, Everton, Liverpool, Manchester United e Tottenham) começou a se reunir frequentemente, e mais tarde também com membros da Football Association, para discutir desde maneiras para aumentar a receita com a televisão até propostas para a criação de uma nova liga.

Sabendo disso, em 1988, o diretor da ITV, Greg Dyke, chegou a oferecer um milhão de libras a cada um dos “Big Five”, mais dois milhões a serem divididos entre outros cinco clubes para convencê-los a criar uma superliga com apenas dez equipes. Para efeito de comparação, o contrato proposto pela mesma ITV e pela BBC cinco anos antes, avaliado em £5,2 milhões por dois anos e repartido entre os 92 clubes da Football League, geraria uma receita anual de £25 mil a cada um deles. Parece irrisório hoje. Na época também parecia.

A cisão era iminente. Em um capítulo de seu livro Football Nation, o inglês John Williams, professor de Sociologia do Esporte na Universidade de Leicester, retrata o cenário de disputas no futebol inglês daquele período, tendo como atores o governo, o comitê administrativo da Football League, os presidentes dos clubes da primeira divisão (entre eles, figuras controversas como Ken Bates, do Chelsea, e Robert Maxwell, do Oxford United), a Football Association (FA), a Associação dos Jogadores Profissionais, as emissoras de televisão e, muito atrás, as associações de torcedores.

Graham Kelly, personagem central

graham kelly

Nesse contexto, em setembro de 1988, o ex-secretário da Football League Graham Kelly é apontado como novo chefe executivo da FA, numa transição surpreendente. Kelly conhecia de perto todos os problemas enfrentados pelo jogo profissional no país, sabia do verdadeiro cabo de guerra travado entre as instituições e era cético a respeito de ideias como a de cartões de identidade para torcedores, defendida pela primeira-ministra Margaret Thatcher visando combater o hooliganismo. Mas era um dirigente ambicioso e tinha seus próprios planos.

VEJA TAMBÉM: Dez histórias do Brighton na outra vez em que o clube frequentou a elite inglesa

Sete meses depois, em 15 de abril de 1989, ocorreu a tragédia de Hillsborough, em Sheffield, na partida entre Liverpool e Nottingham Forest pela semifinal da FA Cup, que levou à morte de 96 torcedores dos Reds (além de mais de 700 feridos) por esmagamento devido à superlotação, e escancarou as más condições dos estádios no país e o despreparo deles para receber o público – as grades colocadas para evitar a ação dos hooligans acabaram matando o torcedor comum. O relatório sobre a tragédia coordenado por Peter Murray Taylor, o Lord Justice Taylor, recomendou que os estádios sofressem profundas reformas, a começar por receber cadeiras em todos os setores e proibir a venda de bebidas alcoólicas dentro deles.

hillsborough 1989

No fim de 1990, diante das negociações para um novo contrato de TV, os clubes ficaram apreensivos quanto ao poder de negociação da Football League, já que precisariam agora de ainda mais dinheiro para adequar seus estádios ao Relatório Taylor. Em dezembro, os presidentes do Arsenal, David Dein, e do Liverpool, Phillip Carter, reuniram-se com Graham Kelly e com o presidente da FA, Sir Bert Millichip, para expor seu descontentamento. E, nas entrelinhas, deixaram vislumbrar a intenção de criar uma liga de ruptura, mas temiam uma cláusula incorporada há pouco tempo pela legislação do futebol no país: a chamada “Regulation 10”, que obrigava os clubes a comunicarem seu desligamento da liga com três anos de antecedência.

VEJA TAMBÉM: Por que a tragédia de Hillsborough aconteceu, e o que mudou depois dela

Enquanto procurava um meio de liberar os clubes, Graham Kelly liderava um grupo de trabalho que desenvolvia um documento da FA em contraposição ao apresentado pela Football League meses antes. Chamado de Plano Para o Futuro do Futebol, o dossiê ambicionava colocar como carros-chefe da administração do futebol no país a seleção inglesa, a FA Cup e a nova divisão de elite, a ser chamada “FA Premier League”, todos sob o comando da Football Association.

A ideia da Premier League avança

A proposta era separar a primeira divisão da estrutura da Football League para torná-la mais viável comercialmente e ao mesmo tempo mais enxuta, de modo a trabalhar favoravelmente também à seleção inglesa, que costumava pagar a conta do calendário superlotado do futebol no país. Em Football Nation, John Williams destaca o impacto que teve a apresentação do projeto da FA Premier League em abril de 1991: “Historicamente, a FA sempre havia sido a guardiã da moralidade e da disciplina do jogo, um órgão anticomercial que havia inclusive vetado a presença de ex-jogadores profissionais em seus cargos internos. Agora a FA estava abrindo suas portas aos ultraprofissionais. A FA dirigiria a maior liga profissional do jogo”.

Os “ultraprofissionais” aos quais Williams se referia eram alguns nomes que atuavam ao lado de Kelly, de Millichip e de Charles Hughes, diretor de treinamento e educação da FA, no desenvolvimento do relatório da entidade. Era o caso, por exemplo, de Rick Parry, um consultor de gerenciamento baseado em Manchester que trabalhava para a firma de consultoria Arthur Young e vinha de participar do comitê que planejou a candidatura da cidade para receber os Jogos Olímpicos de 1992.

millichip

Apresentado em 8 de abril, o projeto da FA explanava as bases para a invalidação da Regulation 10 (a pedido dos clubes) e previa uma Premier League com 18 equipes, o que aliviaria o calendário e diminuindo o desgaste dos atletas de seleção – por décadas a fio, a liga inglesa contou com 22 clubes na divisão de elite, até a temporada 1987-88, quando o número foi reduzido para 21, e na posterior, quando passou a 20. Porém, um mês depois, houve um passo atrás quando Millichip, num encontro com os presidentes dos clubes, afirmou que o número de participantes na nova competição ficaria a critério deles – e logo voltou a ser estipulado um torneio inchado com 22 equipes, já que a maioria dos clubes defendiam um campeonato maior para que as arrecadações ajudassem a cobrir as despesas das reformas dos estádios.

VEJA TAMBÉM: Dez histórias que fizeram a temporada 1985/86 especial para o Campeonato Inglês

Em junho, o relatório da FA finalmente seria publicado. Abordava uma série de temas relativos à estrutura do futebol, mas obviamente o interesse era monopolizado pelo novo torneio, a FA Premier League, construído nos moldes da Bundesliga alemã: uma divisão de elite desvinculada da Football League, com um razoável nível de independência, mas acomodada dentro do “portfólio” administrativo da FA.

Uma importante vitória para o novo torneio veio em 31 de julho, quando o veredito da Justiça britânica confirmou a legalidade da FA para instituir a Premier League, dando o sinal verde para que, em 23 de setembro, a entidade, a Football League e os clubes da então Division One assinassem os documentos de desvinculação do antigo campeonato e da criação do novo, a ser iniciado a partir da temporada seguinte. Agora não havia mais volta.

A última cisão

Não havia mais volta, mas desvios de rota ainda apareceriam pelo caminho. O Conselho da FA, trazendo de volta à tona o conservadorismo pelo qual a entidade sempre havia se caracterizado, começou a reclamar do número de representantes da Premier League dentro de seus quadros e também da hipótese de a FA se aliar a empresas comerciais no que se referia a patrocínios e naming rights do torneio – era inadmissível para eles, por exemplo, a ideia de uma “FA Carling Premier League”.

VEJA TAMBÉM: Como o futebol internacional era transmitido para o Brasil antes das TVs a cabo

Foi a deixa para que os clubes também finalmente deixassem transparecer seu objetivo original: uma liga administrada por eles próprios, sem tutela nem da Football League nem da FA. Não era do interesse deles dividir seus contratos de patrocínio com a Football Association, nem ter um membro da entidade dentro de seu Conselho, nem trabalhar com a finalidade de favorecer a seleção. Houve então a ruptura dentro da ruptura. O que Norman Chester vislumbrara nove anos antes se concretizara: os clubes se tornavam agentes livres para negociar o gerenciamento esportivo e comercial de sua própria liga. Sem outra saída, a FA concordou, tendo sua participação nas decisões – e no dinheiro – sensivelmente reduzida.

Para John Williams, a grande ironia de todo o processo era que para obter sua independência da Football League e conseguir enfim usufruir da plenitude de seu potencial econômico – agora aberto sem reservas ao mercado – por meio da criação de uma liga própria, gerenciando uma verba de patrocínio exclusiva, os clubes precisaram recorrer à intervenção de outra entidade reguladora, a Football Association, aproximando-se dela enquanto foi necessário (como no caso da supressão da Regulation 10) para depois romperem o acordo quando suas intenções já eram explícitas.

Ainda haveria outra discussão, já em pleno ano de 1992, com a temporada de estreia batendo na porta: o novo contrato de televisão. Com o interesse pelo jogo renovado no país após a boa campanha da seleção inglesa na Copa de 1990, a disputa foi acirrada. A ITV, que contava inclusive com ajuda financeira da BBC, concorria com a BSkyB, programadora de canais fechados, comandada pelo magnata das comunicações Rupert Murdoch. A primeira apostava na maior penetração de seu sinal aberto, com audiência girando em torno de oito milhões de britânicos, contra apenas meio milhão do canal pago. A segunda, por outro lado, oferecia mais dinheiro, além de contar com outros trunfos importantes.

De acordo com a empresa de Murdoch, os clubes não gostavam da superexposição do futebol na televisão aberta – e nesse quesito a aposta em mais jogos ao vivo para um público mais segmentado da BSkyB evitava um impacto significativo nas rendas, um temor dos clubes. Havia também a percepção de que a Inglaterra vivia um outro momento, diferente do começo dos anos 80 e com uma nova cultura de consumo em ascensão (especialmente em bens de conforto e lazer, como videocassetes, aparelhos de ginástica e aquecimento central nos lares). Assim, acreditava a empresa, mais torcedores aceitariam pagar para receber os jogos em pacotes de televisão por assinatura.

Houve reclamação por parte de associações de torcedores e até da Uefa contra a retirada das transmissões ao vivo das partidas dos canais abertos. Mas a proposta da BSkyB acabou vencendo a parada graças à influência de Alan Sugar, presidente do Tottenham na época, e despejando fabulosos 305 milhões de libras a serem repartidos entre os organizadores. Em menos de uma década, com o dinheiro da televisão e as reformadas estruturas dos clubes, a Premier League já rivalizava financeiramente com as ligas mais ricas da Europa. Com a abertura definitiva e compulsória do mercado em face da Lei Bosman, passou a atrair cada vez mais jogadores de ponta que antes iriam para outros centros, assim como viu o interesse global sobre si crescer exponencialmente.

Os críticos apelidaram a competição de “Greed Is Good League” (algo como “Liga da Ganância”), mas a transformação seria tão irreversível que em breve a antiga segunda divisão ganharia autonomia dentro da Football League, dando origem à Championship. Primeira liga esportiva do continente europeu formatada pela e para a televisão, a Premier League marcaria o início de uma nova era na administração do futebol com reflexos muito além das Ilhas Britânicas.