Owen Hargreaves é um volante que nasceu no Canadá e que fez toda a sua carreira no futebol alemão. Já Kevin Kuranyi é um daqueles centroavantes típicos: alto, forte e grosso. Apesar do nome, é brasileiro, filho de pai alemão e mãe panamenha. Optou por defender a seleção alemã, assim como Hargrevaes é jogador do English Team. Duas histórias que falam de família, migrações e interesses profissionais. Duas histórias das mais comuns no mundo globalizado do futebol. Duas histórias que retratam bem o complicado mundo dos passaportes; mundo cheio de dúvidas, confusões e, como não poderia deixar de ser, dinheiro, muito dinheiro.

A história do homem é marcada por migrações. Desde o tempo das cavernas, a humanidade procura o melhor lugar para viver e vencer. Vencer, aliás, é o que dita o rumo das migrações no futebol. Jovens talentos de países mais pobres cruzam os mares para encontrar em outra pátria, um lugar onde possam exercer o seu talento e ganhar dinheiro. Tentados pelo sucesso e pela glória, eles são capazes de tudo para garantir sua vaga nesses mercados maiores, até mesmo vender sua própria nacionalidade.

Ma afinal, qual é a nossa pátria: aquele país onde nascemos ou o lugar que nos acolhe? Já que essa é uma pergunta sem resposta, não podemos culpar os jogadores por tentarem a naturalização. É natural que, se há regras que impedem que um determinado número de estrangeiros atuem por clube, o mercado tende a ficar mais restrito para esses atletas. Nesse caso, resta o instinto de sobrevivência, a tentativa de naturalização, para não ver as portas se fecharem.

Qualquer pessoa pode ser naturalizada desde que atenda alguns pré-requisitos básicos, que variam de país para país. As exigências mais normais para a obtenção desse título são o tempo de residência no país, o casamento com algum nativo e a presença de ascendentes que já possuam a nacionalidade pretendida. O tempo do processo também varia de caso a caso e pode variar de poucos meses a alguns anos.

Os clubes, sobretudo os mais importantes, funcionam como empresas e visam o lucro. Nessa visão empresarial do negócio futebol, os jogadores são mercadorias, que devem ser adquiridas pelo menor preço e vendidas pelo máximo possível. Diante dessa lógica, essas equipes vão buscar alguns de seus atletas nos países subdesenvolvidos. Esses jogadores, algumas vezes, só conseguem espaço no clube se tiverem passaportes europeus, o que nem sempre acontece. É aí que começa a bagunça: com a impossibilidade legal de obter a cidadania desejada, casamentos são arranjados e ascendentes são procurados ou criados. Emblemáticos são os casos de passaportes falsos do goleiro Dida, do Milan, e do meia Edu, do Valência. Culpa dos atletas? Quase sempre não, mas da incrível ganância dos empresários e dos clubes envolvidos nas negociações.

Algumas vezes, a naturalização deixa de ser vantajosa apenas para clubes e atletas. Nesses casos, entra um terceiro elemento: as seleções. E é aí que os jogadores são obrigados a decidir qual a equipe nacional que pretendem defender? Essa escolha pode ser facilitada pela impossibilidade de convocação para a seleção de seu país natal, como foi o no caso de Alex, brasileiro que defenderá o Japão na Copa do Mundo. Em outros casos, o que pesa é a projeção que atuar por determinada seleção dará: por isso Hargreaves escolheu a Inglaterra, e não o Canadá.

O caso de nosso outro personagem, Kevin Kuranyi, é a mistura das suas histórias contadas acima. O atacante nasceu no Brasil e viveu em Petrópolis(RJ) até a sua adolescência. Assim, poderia jogar pela seleção brasileira. Mas, ele mesmo assume que dificilmente conseguiria uma vaga na amarelinha porque seu estilo de jogo não se adapta muito bem ao futebol brasileiro. Kuranyi também poderia jogar pelo Panamá, terra de sua mãe, e dificilmente participaria de uma Copa do Mundo. Assim, ele optou por defender a seleção alemã. Isso só foi possível porque Kuranyi é filho de um alemão e, automaticamente, também considerado alemão. Ele não é naturalizado, mas sim portador de um passaporte de tripla cidadania: brasileiro, panamenho e germânico.

Nos dias atuais, graças ao aumento no número de naturalizações, o número de atletas que defendem seleções diferentes das dos países onde nasceram, é muito grande. Na Copa de 2006, acompanharemos a odisséia de alguns desses atletas: Deco é brasileiro, mas jogará por Portugal, o italiano Camoranesi é argentino. Até o Kosovo terá um representante no mundial, o meia Valon Behrami, que atua pela Lazio e pela seleção suíça. No meio de toda essa bagunça, há um caso inédito que chama muito a atenção.

Já estamos acostumados a ver irmãos jogando juntos por uma seleção. Na década de 90, acompanhamos Franck e Ronald de Boer, com a camisa laranja da Holanda, e os irmãos Mpenza (naturalizados, inclusive) no time belga. Agora, em 2006, irmãos poderão se enfrentar pela primeira vez. Christian Vieri nasceu na Itália, seu irmão, Max, na Austrália. Apesar dos dois terem dupla cidadania, cada um escolheu defender a seleção do país onde nasceu. Christian é presença certa no Mundial, Max ainda luta para convencer Guus Hiddink. Nós esperamos pelo confronto inédito, que ainda pode acontecer de outra maneira.

Costa do Marfim e Holanda estão no mesmo grupo do Mundial. Bonaventure Kalou é meia do Paris Saint-Germain e da seleção marfinense. Seu irmão Salomon joga no ataque do PSV e também poderia disputar a Copa pelos Elefantes. Isso se ele quisesse. O Kalou mais novo já rejeitou diversas convocações do time do país onde nasceu porque pretende jogar pela Holanda. O processo de naturalização está na justiça e as chances de ele obter o passaporte holandês são muito boas. Se ele obtiver a cidadania holandesa, deve jogar a Copa, essas são as palavras do técnico Van Basten. Portanto, as chances de vermos a luta de irmão contra irmão são grandes. 2006 pode marcar a história das Copas, ou pelo menos, a história das famílias Vieri e Kalou.