Tudo foi preparado para um dia inesquecível. E assim se cumpriu na Arena Condá, com cenas que ficarão gravadas na memória. Chapecoense e Atlético Nacional se enfrentaram no primeiro jogo da Recopa Sul-Americana, mas o futebol servia de mero pretexto para o que se viveu nas últimas horas. O Verdão do Oeste se uniu aos seus torcedores para honrar os 71 que se foram no acidente aéreo, para agradecer a enorme atitude dos colombianos perante a tragédia e para ressaltar que, apesar do vazio, a vida segue em frente. Segue com a vontade inabalável da Chape e segue de forma irrefutável, diante da vitória por 2 a 1. Os anfitriões derrotaram os seus convidados de honra, em partida bastante disputada, independentemente da amizade. Ainda assim, venceram todos, pela demonstração de respeito e fraternidade muito além dos 90 minutos de bola rolando.

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A atmosfera especial já tinha tomado as ruas de Chapecó desde segunda, com a bela recepção à comitiva do Atlético Nacional. Celebração e homenagens que continuaram desde as primeiras horas desta terça. Uma série de eventos foram realizados na cidade, preparada para dar as boas-vindas aos verdolagas. Camisas, faixas e bandeiras se espalharam por todos os cantos. Já de tarde, dezenas de pessoas se uniram para um abraço simbólico no entorno da Arena Condá.

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Horas antes do pontapé inicial, as arquibancadas começaram a encher. E, desta vez, não era o verde que predominava entre os presentes. A pedido da diretoria da Chapecoense, os torcedores vestiram branco. Uma referência à vitória da humanidade no Estádio Atanásio Girardot em 30 de novembro, assim como um sinal das esperanças em Chapecó. A partir de então, uma série de discursos foi realizada no gramado, primeiramente das autoridades. Palavras de força, que emocionaram o público. E mesmo os mais contidos não seguraram as lágrimas quando os quatro sobreviventes brasileiros surgiram no círculo central. Neto, Jackson Follmann, Alan Ruschel e Rafael Henzel, mais uma vez, ofereceram grandes lições de vida.

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“Obrigado pelas rezas, pelos pensamentos positivos. Hoje é um dia que precisamos celebrar a vida e o futebol. Queria que todos dessem uma salva de palmas aos irmãos que se foram. Porque sem eles, a gente não estaria aqui hoje disputando uma final inédita de Recopa. Então tudo que acontece hoje é graças a eles”, declarou Follmann, antes de ser complementado por Neto. “Não esperem um avião cair para dizer ‘eu te amo’, para pedir perdão, para dar um abraço, para dar um beijo. Você tem a oportunidade todos os dias de fazer diferente, de fazer o amor, que o amor de Deus faz diferença”, declarou.

Um telão suspenso acima das tribunas exibiu uma mensagem de agradecimento pela solidariedade em Medellín, assim como exibiu as fotografias das 71 vítimas. Além disso, a diretoria da Chape preparou uma “cápsula do tempo”, que guardará cartas pelos próximos 43 anos. A noite caía e o show de luzes dava mais beleza ao tributo, enfatizando as bandeiras brancas com os escudos dos clubes. Os torcedores completavam o espetáculo, não só com os gritos. Acenderam as luzes dos celulares, levaram mais faixas de gratidão e bandeiras da Colômbia. Na entrada em campo, os dois times foram aplaudidíssimos. Os jogadores posaram juntos para a foto oficial. E não existiam barreiras nas arquibancadas, com o setor visitante se misturando aos mandantes. Emblemas da irmandade que preponderou na Arena Condá. Um minuto de silêncio foi respeitado, em referência aos deslizamentos na região de Mocoa.

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Quando a bola rolou, todavia, os amigos não deixaram de disputar para valer a decisão. O ritmo não começou tão intenso, com as defesas dominando, sem tantos espaços de ambos os lados. Mas logo as oportunidades apareceram. Aos 21 minutos, o Atlético Nacional teve um gol bem anulado, em tentativa de Dayro Moreno. Já aos 23, nada pôde segurar o grito na garganta da Chape. Em boa trama do time de Vágner Mancini, João Pedro chutou e a bola explodiu no braço de Bocanegra. Pênalti, que Reinaldo converteu. O lateral, aliás, era um dos melhores de sua equipe, ao lado do atacante Rossi. De qualquer forma, o empenho sem a bola evitou novos tentos.

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Buscando mais o ataque na volta do intervalo, o Atlético Nacional empatou aos 13 minutos. E graças a um golaço de Macnelly Torres. O camisa 10 deu um belo drible na marcação, antes de soltar a bomba de fora da área, vencendo Artur Moraes. O mais legal do lance, porém, não foi a beleza do tento. A torcida da Chape aplaudiu os adversários, no maior sinal de carinho possível. Uma cena que soa como surreal, mas que realmente aconteceu, como um afago aos verdolagas. Já a charanga que animava o público logo começou a executar o clássico ‘Amigos para sempre’.

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Com dificuldades para se organizar, a Chapecoense estava mais propensa a tomar a virada. Entretanto, como em um livro, um elemento mágico parece ter influenciado os rumos da partida. Aos 26 minutos, o 71° do jogo, os torcedores começaram a gritar com força o ‘Vamo vamo Chapê’, em homenagem aos falecidos. Dois minutos depois, saiu o gol da vitória. Em cobrança de escanteio pela esquerda, Reinaldo levantou a bola na área e Luiz Otávio apareceu como elemento surpresa, completando de cabeça para as redes. A noite estava completa. No final, ainda houve a reclamação de um pênalti para o Verdão, em lance negligenciado pela arbitragem.

Antes que os jogadores deixassem o gramado, as luzes da Arena Condá se apagaram. A narração do primeiro gol, feita por Rafael Henzel, foi tocada nos alto-falantes. Mais lembranças, mais respeito, mais gratidão. A Chapecoense amplia a epopeia de seus heróis. E, além dos compromissos pela Libertadores, a jornada na Recopa se completa em 10 de maio, na vista a Medellín. Outra ocasião que será carregada de emoções, ainda mais pelo reencontro com aqueles que acolheram tão bem os brasileiros, que se esforçaram em busca das últimas esperanças e estenderam a mão para que os visitantes se reerguessem. Outra noite inesquecível, em que a entrega da taça será apenas o detalhe para coroar a redenção da Chape ou o coração verdolaga. Sobretudo, a fraternidade.