Em fevereiro de 2012, quando o Grupo Globo anunciou a compra dos direitos de transmissão para mais duas Copas (2018 e 2022), nas televisões aberta e fechada, nos celulares e na internet, sem revelar o valor das transações, tudo parecia ameno e tranquilo, em vários sentidos. Não só pela variedade de canais que teria condições de exibir o Mundial de 2014, não só pela disposição anunciada da Globo em sublicenciar os direitos na tevê aberta – como fizera com a Bandeirantes em 2010 e faria em 2014 -, mas pela aceitação de tal cenário.

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Essa aparente imobilidade ficava clara nas palavras de Roberto Irineu Marinho, presidente do Grupo Globo, celebrando o acordo com a Fifa em 2012: “Por mais de 40 anos, Fifa e Globo desenvolveram uma bem sucedida parceria com significantes resultados para ambos. Durante esses anos, a Fifa conseguiu fazer do futebol um esporte com uma enorme audiência por todo o mundo e a Globo se orgulha de ter contribuído para isso. O mais importante para a Globo é permitir que nossos telespectadores se sintam parte do evento como se eles estivessem no estádio. Por essa razão, estamos orgulhosos com a continuidade dessa parceria”.

Palavras parecidas vinham de alguém que tinha importância semelhante na época: o francês Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, que também elogiava o acordo de modo protocolar: “A força da Globo com sua penetração no vasto território do Brasil garante que o torneio seja acompanhado pelo maior número de pessoas possível e foi um fator determinante para a nossa decisão de renovar o nosso acordo”. Num 2012 em que a Globo amargava dura perda nas disputas cada vez mais acirradas pelos direitos de transmissão de vários eventos esportivos – ver a Record ser exibidora exclusiva dos Jogos Olímpicos de 2012 na televisão aberta -, ter tamanho respaldo da Fifa era uma certeza de estabilidade duradoura.

Nada como um ano após o outro, com uma Copa do Mundo (2014) no meio. A prisão de vários dirigentes e empresários de mídia envolvidos com a Fifa, em maio de 2015, revelou como a compra de direitos de transmissão havia se tornado um mundo viciado, no qual havia tenebrosas transações, literalmente. Embora o Grupo Globo não tenha respondido diretamente à Justiça (pelo menos por enquanto), um de seus personagens principais nas negociações – Marcelo Campos Pinto, diretor da Globo Esportes, braço responsável pela compra de direitos no grupo de mídia – tinha relação íntima com muita gente envolvida nas prisões. Bastou: ainda em 2015, Marcelo deixou a empresa carioca, sendo sucedido por Pedro Garcia, responsável da área na Globosat. Por sua vez, Garcia passou a se reportar ao novo manda-chuva esportivo global: Roberto Marinho Neto.

No anúncio da saída, dizia-se que Marcelo Campos Pinto se aposentaria. Não só não se aposentou, como foi responsável por outro golpe polêmico que atingiu o domínio da Globo. Em 2017, expirara o contrato da empresa com a CBF para a transmissão dos amistosos da Seleção Brasileira. Pois bem: com assessoria informal de Campos Pinto (e de outro antigo empregado global: o ex-repórter e ex-diretor executivo João Pedro Paes Leme, que se mudara para os Estados Unidos), a CBF decidiu organizar sozinha sua transmissão em alguns jogos. Fez isso nos amistosos em junho de 2017, contra Argentina e Austrália, transmitidos pela CBF TV com uma equipe especial: Nivaldo Prieto narrando, Denílson comentando, e a participação especial de Pelé, voltando a comentar jogos na televisão após 19 anos. Fez isso no “Jogo da Amizade” com a Colômbia, em janeiro deste ano, transmitido pela Globo… e por qualquer emissora que desejasse.  Mais do que isso: abriu-se a licitação para a venda de direitos de transmissão dos amistosos, no quadriênio 2018-2022.

Era o ponto mais alto de uma vingança discretamente arquitetada por Marco Polo del Nero: sentindo-se traído pelas críticas da parceira histórica, após as acusações que levaram José Maria Marin à prisão (e que inviabilizaram suas viagens, para não correr risco do FBI o levar ao mesmo destino), o então presidente da CBF decidira endurecer as relações com a TV Globo. De certa forma, conseguiu. A ausência global nos dois amistosos em 2017 levara à demissão do diretor de esportes do canal, Renato Ribeiro – não o repórter, mas o antigo editor-chefe do “Jornal Nacional” -, sucedido por Gustavo Poli. E se a licitação não recebeu ofertas dignas de nota na primeira edição, a Globo correu para garantir na segunda edição os direitos de exibição dos amistosos, até 2022.

Por sinal, a primeira licitação não recebeu ofertas exatamente por outra razão antes inexistente que passou a perturbar o Grupo Globo – leiam-se TV Globo e SporTV: a necessidade de gastar cada vez mais com direitos de transmissão que antes pareciam intocáveis. Foi o que aconteceu, por exemplo, no Campeonato Brasileiro. Se antes a negociação individual da Globo com os clubes ainda contrabalançava com dinheiro a falta de exibições em televisão aberta, as agremiações da Série A pouco exibidas além do pay-per-view (Premiere) passaram a ouvir com carinho as ofertas da Turner/Esporte Interativo, conseguindo cada vez mais receptividade ao mostrar as Séries C e D. Sete deles assinaram com o canal fechado carioca (Atlético-PR, Bahia, Palmeiras, Santos, Internacional, Ceará e Paraná) – até ameaçando a exibição do Brasileiro em televisão fechada a partir de 2019, já que os times que assinaram com uma emissora não poderiam ser exibidos pela outra. A Globo contrabalançou oferecendo menos dinheiro a quem não assinou com ela. E segue o impasse, sem resolução.

Não bastasse o novo cenário nacional, ainda havia a necessidade de gastar mais pelos torneios sul-americanos, com a licitação inaugurada pela Conmebol. Licitação até ganha pela Globo, mas com alguns pacotes ganhos pelo… Facebook, abrindo mais um flanco para a internet avançar mais sobre o poder da televisão. E enquanto todos viam a Copa do Mundo, a rede social/empresa de Mark Zuckerberg conseguiu mais uma vitória sobre o Grupo Globo, como quem não quer nada: levou os direitos de transmissão da Liga dos Campeões para a televisão aberta, já que a Globo se via sem dinheiro, tal o vulto dos investimentos necessários para manter Brasileiro, Libertadores, Copa Sul-Americana…

Falta de dinheiro, a partir da recessão eclodida no Brasil desde o segundo semestre de 2014, foi outro problema a ter mudado drasticamente o cenário de transmissões esportivas. E a exibição da Copa em 2018 (é o tema principal do texto, embora não pareça) sofreu muito com isso. Na televisão aberta, a Bandeirantes fez o que pôde. Negociou com a Globo o quanto pôde. Encurtou a equipe que seria enviada à Rússia, tentou custear uma cobertura exibindo apenas metade dos jogos, tentou baratear a cobertura o máximo possível… mas em fevereiro deste 2018, a crise financeira que aflige a emissora paulista se impôs, com a desistência definitiva da transmissão da Copa.

E a Band não só desistiu, como só enviou o único correspondente à Rússia (o repórter Fernando Fernandes) na semana do início do torneio. De resto, só os debates habituais. Na televisão aberta, com o “Jogo Aberto” (envolvendo Renata Fan, Denilson, Ronaldo Giovanelli e Héverton Guimarães) e o “Donos da Bola”, com Neto trazendo protestos cada vez mais ácidos contra as atuações da Seleção Brasileira – após a eliminação para a Bélgica, o comentarista alegava que os jogadores haviam “perdido a dignidade”, e chegou a dizer que Gabriel Jesus “tinha de ter continuado no Jardim Peri: em cinco jogos, não fez nada”. O mesmo clima era mostrado por Neto na televisão fechada, com o “Baita Amigos” que comandava no Bandsports, com exibições após cada partida da equipe brasileira.

Na televisão fechada, a emissora tradicional a sofrer com a falta de dinheiro foi a ESPN. Já em agosto de 2017, o canal sediado no bairro paulistano do Sumaré anunciava: após 16 anos, deixaria a Copa do Mundo de lado, apostando numa oferta conjunta com o SporTV para tentar recuperar os direitos de transmissão da Liga dos Campeões. Nem a oferta se confirmou, e nem os direitos foram recuperados. E a emissora do grupo Disney apostou em sua tradição jornalística, conforme o diretor de jornalismo João Palomino antecipou ao UOL, em março: “Quando a bola não estiver mais rolando, nosso objetivo será convencer o telespectador pelo argumento, profundidade e bom-humor. Temos certeza que vamos conseguir fazer uma cobertura instigante e atraente. Uma cobertura profunda (…) Não tendo os direitos, discutimos um produto para quando os jogos estiverem acontecendo. Uma opção de ter uma segunda tela para as pessoas, com um formato bem interessante, de muita informação, análise”. Assim, foram escolhidos os setoristas para cada seleção digna de nota (Gerd Wenzel com a Alemanha, Mauro Cezar Pereira com a Argentina, Mário Marra com a Bélgica, Paulo Calçade com a Espanha, Stéphane Darmani com a França, Rafael Oliveira com a Inglaterra, André Kfouri com o México, Leonardo Bertozzi com Portugal e Gian Oddi com o Uruguai).

Gustavo Hofman foi o enviado especial à Rússia, para acompanhar a Seleção Brasileira junto de João Castelo Branco e Natalie Gedra, ambos já conhecidos do trabalho como correspondentes na Inglaterra, acompanhando os jogos do Campeonato Inglês. O jornalista russo Grigoriy “Grisha” Telingater deu algum auxílio logístico e fez reportagens captando a cultura russa – assim como Mendel Bydlowski foi o enviado para as matérias sobre como o país-sede estava acompanhando a Copa. Sem jogos a narrar para a televisão, Everaldo Marques foi convidado e aceitou ser um dos principais locutores da rádio goiana Sagres 730 na cobertura, unindo o agradável ao útil e sendo também o apresentador das aparições dos enviados da ESPN à Rússia. Participação semelhante teve Bruno Vicari: já enviado do SBT à Rússia, para boletins sobre a Copa, o apresentador também era utilizado em alguns boletins, ao lado dos repórteres enviados. Mais concentrado no trabalho como colunista da “Folha de S. Paulo”, Juca Kfouri aparecia apenas esporadicamente, com rápidos comentários nos programas noticiosos do canal, como o “Bate-Bola”.

Mas o objetivo de ser uma “segunda tela” teve resultados mistos para a ESPN. “Tempo Real”, o programa exibido enquanto os jogos ocorriam, trazia os setoristas analisando as atuações em frente à televisores, em volta de uma mesa – com garrafas térmicas e salgadinhos, simulando uma sala onde se assistisse às partidas -, com três duplas de apresentadores se alternando (Alex Tseng e Luciano Amaral; Eduardo Monsanto e Fernando Nardini; e Flavio Ortega e Renan do Couto) e participações temporárias (como a de Renato Rodrigues, analista tático da ESPN). Deu errado. Mauricio Stycer, colunista de televisão do UOL, criticou: “A iniciativa de “Tempo Real” é boa, mas o resultado está expondo o canal a constrangimento (…) O programa parece experiência de jovens universitários tentando tirar onda no You Tube com as emissoras tradicionais”. Deu mais certo para a ESPN apostar no seu habitual. O “Linha de Passe” diário obteve bons resultados de audiência, com uma mescla interessante entre o tom habitualmente cerebral de Paulo Calçade e André Kfouri, os comentários detalhistas de Leonardo Bertozzi e o gosto de Mauro Cezar Pereira e Arnaldo Ribeiro pela polêmica – além de um reforço até surpreendente, apenas para a Copa: Xico Sá, mais habituado aos canais da Globosat nos últimos anos (SporTV e GNT), foi convidado contratado em algumas edições do “Linha de Passe”.

Por mais que tenha ganho espaço claro ao longo dos últimos anos (espaço confirmado com a manutenção do grande trunfo: os direitos de transmissão da Liga dos Campeões, no triênio 2018/2021), o Esporte Interativo também se valeu do aproveitamento de enviados que têm outros veículos além do canal. Comentarista fixo do programa “+90” e repórter paulista das rádios Globo e CBN, Gustavo Zupak foi utilizado pelo EI para aparições diárias na Rússia analisando o dia na Copa e acompanhando a Seleção Brasileira, ao lado de Monique Danello, repórter com experiência internacional generosa (ficou famosa a cobertura de Monique para o título mundial brasileiro no Mundial Feminino de Handebol, em 2013), e André Henning, um dos símbolos do canal, ambos enviados para formarem um trio com Zupak. No Brasil, Vitor Sérgio Rodrigues mediava o “Noite dos Craques” especial após cada jogo da Seleção, com três convidados que sabiam uma coisa ou duas sobre defender o país numa Copa do Mundo: Leão, Zico e Rivellino – estes dois, titulares habituais do programa.

Com tantas mudanças, é preciso até relembrar que o Grupo Globo exibiria a Copa de 2018. Na televisão aberta, com a Globo voltando a ser a única emissora a transmitir os jogos. Na fechada, com o SporTV tendo apenas a concorrência do FOX Sports. E os três canais cobriram o Mundial, simbolizando tempos em que a internet coloca a televisão cada vez mais em xeque.

Gustavo Villani se confirmou como nome de futuro; Cléber Machado foi elegante; Galvão Bueno se fortaleceu como nome cada vez mais icônico da cultura pop brasileira; Rogério Correa e Rembrandt Jr. cumpriram suas tarefas; mas Luís Roberto é que viveu seu auge na TV Globo, nesta Copa de 2018 (Divulgação/TV Globo)

Globo

Narração: Galvão Bueno, Luís Roberto, Cléber Machado, Gustavo Villani, Rogério Correa e Rembrandt Jr.
Comentários: Casagrande, Ronaldo, Arnaldo Cezar Coelho, Roger, Júnior, Caio e Bob Faria
Reportagens: Mauro Naves, Tino Marcos, André Hernan, Marcos Uchoa, Marcelo Courrege, Eudes Júnior, André Gallindo, Pedro Bassan, José Roberto Burnier, Júlia Guimarães, Bruno Diniz, Carlos Gil, Edgar Alencar, Ivan Raupp, Guilherme Pereira, Kiko Menezes, Marcelo Canellas, Pedro Vedova, Raphael de Angeli, Thiago Dias, Felipe Brisolla, Richard Souza, Alex Escobar e Glenda Kozlowski/Marina Izidro, Bianca Rothier, Victor La Regina e Andrey Raychtock
Apresentações: Alex Escobar e Fernanda Gentil (do jornalismo: Ana Paula Araújo, Sandra Annenberg e Renata Vasconcellos)
Participações: Tiago Leifert, Bárbara Coelho, Júlio César, Bárbara Labres, Mariana Santos e Márvio Lúcio, o “Carioca”

“Um tíquete só para três lugares”. Na transmissão de Brasil x Croácia, um dos amistosos finais de preparação da Seleção Brasileira para esta Copa do Mundo, Galvão Bueno usou a frase bem humorada de Júnior para mostrar o que era definitivo desde 2017: a fusão das três frentes esportivas do Grupo Globo para a cobertura na Rússia. Fosse no globoesporte.com, site esportivo da casa, fosse no SporTV, fosse na própria TV Globo, os 197 enviados produziriam material para os tais “três lugares”. Os repórteres simbolizariam isso, trabalhando simultaneamente para Globo e SporTV. Tudo certo com isso? Nem tanto. Primeiramente, porque uma demissão inesperada trouxe certa turbulência à preparação global para a Copa, pouco antes dela começar. O caso envolveu justamente um dos comentaristas mais elogiados da emissora em 2014: Juninho Pernambucano, principal ocupante do posto em jogos envolvendo times fluminenses desde então, além de presença frequente em transmissões de partidas internacionais (esteve ativo pela Globo na Liga dos Campeões e na Euro 2016).

Não que Juninho ainda fosse inquestionável: seu envolvimento em discussões com torcedores do Flamengo, que o acusavam de clubismo, já era um problema com o qual era necessário lidar. Mas não era problema para a TV Globo, que confirmara Juninho como comentarista na Copa. Pelo menos, até o dia 27 de abril. Nessa data, ao participar do “Seleção SporTV” (agora fixo na programação, como debate do início da tarde), o ex-meio-campista citou os ataques da torcida do Flamengo ao clube – e a partir disso, debatendo com o apresentador André Rizek, criticou duramente os repórteres que trabalham como setoristas de equipes: “Matéria no sábado, o cara do UOL escreveu que os jogadores exigiram a troca de ônibus do Flamengo porque quicava. Mentira. Exige a troca porque ninguém quer sair com a bandeira do clube. Você é louco de sair com a bandeira e correr o risco de levar uma pedrada? Aí o cara irresponsavelmente, porque tem relação com o dirigente, setorista, vai e põe uma pilha dessa; Quem vê quer matar, Rizek. Os setoristas são muito piores hoje em dia. Eu sei que ganham mal, mas cada um tem o caráter que tem”.

Bastou: no próprio “Seleção SporTV” do mesmo dia, André Rizek leu nota emitida pelo canal da Globosat, criticando o que chamava de “generalização” na opinião de Juninho. Nos dias seguintes, alguns funcionários da redação deixaram clara a insatisfação com a postura do comentarista. E seu clima ficou insustentável: no dia 4 de maio, Juninho pediu a rescisão de seu contrato. Prontamente, outro nome de 2014 que ficara no Grupo Globo foi promovido: plenamente integrado como apresentador/comentarista do “Troca de Passes” e de vários jogos no SporTV, Roger Flores (que já iria à Rússia pela emissora fechada) ocupou a lacuna nos comentários, dentro da TV Globo.

Outra polêmica sobre a cobertura global foi uma decisão ensaiada nos anos anteriores e concretizada em 2017: sob a batuta de Roberto Marinho Neto, a Central Globo de Esportes deixara de ser um apêndice da Central Globo de Jornalismo para se tornar independente nas operações do grupo de mídia, cada vez mais próxima da área de entretenimento. Os jornalistas da editoria estavam liberados não só para mencionarem nomes dos patrocinadores das coberturas esportivas, mas também para fazerem propagandas – sugestão que já cercava figuras como Fernanda Gentil e Galvão Bueno. Tornava-se aceito algo proibido no jornalismo global, tornava-se oficial algo que fora forçado em momentos anteriores dentro da Globo. Por exemplo: na Copa de 1986, como narrador dos principais jogos do torneio, Osmar Santos incomodava o departamento de jornalismo, pelos constantes anúncios que fazia no rádio e na televisão. Vice-presidente de Operações da emissora, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o “Boni”, deu um jeito: passou Osmar Santos para o departamento de entretenimento. Pois bem: tal “jeito” se tornaria o padrão, e teria esta Copa recém-encerrada como primeiro teste.

Tiago Leifert, Bárbara Labres, Bárbara Coelho e Caio: o “Central da Copa” confirmou a opção da Globo por descolar o esporte do jornalismo e vinculá-lo ao entretenimento (Divulgação/TV Globo)

E nenhum programa dentro da TV Globo simbolizou mais isso do que o “Central da Copa”. Em sua terceira temporada dentro de um Mundial, o programa informando o que ocorria nos jogos trazia de volta a um evento esportivo Tiago Leifert, que deixara as apresentações esportivas em 2015, com seu nome consolidado para rumar ao entretenimento: primeiro no “É de casa”, depois se fixando como apresentador do “The Voice Brasil” e sucedendo Pedro Bial no “Big Brother Brasil”. Ao lado de Tiago, repetindo a parceria em 2010 e 2014, Caio. E mais duas novidades: a capixaba Bárbara Coelho, outra içada do SporTV (desde 2013 está no canal fechado, como apresentadora do “Tá na área”), e Júlio César, estreando nos (curtos) comentários televisivos após encerrar a carreira como goleiro. Na apresentação, Tiago Leifert assumia de vez o ar de torcedor – ao focar as críticas da mídia inglesa às simulações de Neymar, ele alertava: “Pode ser que aconteça alguma coisa, beleza. Mas o nosso time é o mais forte do mundo. E eles já estão tentando desestabilizar os nossos jogadores desde cedo. A gente precisa ficar esperto pra isso”.

Havia mais itens que tornavam o “Central da Copa” um programa mais ligado ao entretenimento do que ao jornalismo. Como a presença de uma DJ – Bárbara Labres, conhecida pelo seu trabalho e pelo seu perfil no Instagram. Como as fugazes aparições de Léo Batista, para apresentar o estilo de jogo dos adversários do Brasil, como se fosse um “youtuber”. Como a participação de atores da TV Globo (Deborah Secco, Emílio Dantas, Cauã Reymond, Lúcio Mauro Filho, Cléo Pires, Marcelo Serrado, Marcelo Adnet, Marcelo Faria) e de cantores (Di Ferrero, Toni Garrido, Samuel Rosa) como convidados. Como quadros de humor dentro do programa: no “Toca pra Mari”, Mariana Santos – atriz muito vinculada ao humor, nas passagens pelo “Zorra” e pela novela “Pega Pega” – interpretava uma repórter que cobria a Copa focando aspectos pitorescos, enquanto Márvio Lúcio, o “Carioca”, recém-egresso do “Pânico”, interpretava junto ao elenco fixo do “Central da Copa” o “narrador” Cascadura Jr., que usava de vários trejeitos dos reais narradores da casa. Em termos de audiência, não cativou muito: algumas vezes, o “Central da Copa” até penou diante do SBT nos índices. De mais a mais, com o fim do programa após as semifinais, Tiago Leifert anunciou internamente a preferência que o programa siga com outro comando nas futuras temporadas.

Finalmente, oras, o que interessava era exibir os jogos (56 mostrados ao vivo – oito em VTs na madrugada, como é usual nas coberturas da Globo, com Léo Batista apresentando os compactos). Para as transmissões, havia algumas apostas. A mais badalada delas, cortejada desde o ano passado pela emissora. No “Bem, Amigos!” em que foi apresentada ao público, em março, tal aposta disse que conhecera Galvão Bueno em 2017, na Arena do Grêmio, onde ambos narrariam o jogo de ida da final da Copa Libertadores, entre Grêmio e Lanús. Galvão o cumprimentou dizendo: “Estou sabendo que logo, logo, a gente vai trabalhar juntos”. Dito e feito: em fevereiro, Gustavo Villani foi anunciado como novo narrador da emissora (e do SporTV), trabalhando do Brasil na transmissão de alguns jogos. E ainda narrou as partidas da Seleção Brasileira nas exibições da Globo para os cinemas, com os comentários de Grafite e a interação com as mídias sociais mediada por Mari Palma, egressa do G1, celebrizada pelas aparições no “Encontro com Fátima Bernardes”. Pelo menos um grande momento foi protagonizado por Villani: a narração do gol de Philippe Coutinho que abriu o placar na extenuante vitória contra a Costa Rica, na fase de grupos.

Assim como o locutor paulista de 37 anos, também mereceria aposta André Hernan: conhecido das transmissões do Campeonato Brasileiro no SporTV, o repórter não só viajou à Rússia, como ganhou oportunidades na cobertura da Seleção Brasileira. A justificativa: André se mostrava capacitado para unir o acesso às fontes oficiais à capacidade de apuração pessoal (para o comando da cobertura, algo semelhante ao que faz, na política, outra revelação que ganhou espaço: Andréia Sadi, que surgiu da Globo News para aparecer cada vez mais na “emissora-mãe”). Outros egressos do SporTV também apareceram constantemente no acompanhamento da equipe nacional: foi comum ver André Gallindo e Eudes Júnior fazendo plantões.

Em “As Matrioskas”, Glenda Kozlowski criava vínculo com as mães dos jogadores – vínculo estreitado durante a Copa (Divulgação/TV Globo)

De resto, a cobertura da TV Globo teve o previsível. Um ano antes da Copa, um repórter já se tornou setorista no país-sede, para captar o ambiente nele – em 2018, tal papel coube a Marcelo Courrege. Glenda Kozlowski voltou a trabalhar nas reportagens, em mais uma faceta do que se chama de “infotainment”, mistura de jornalismo e entretenimento: semanas antes da Copa, coube a ela apresentar “As Matrioskas”, programa no qual acompanhava pela Rússia as mães de Neymar, Fernandinho e Gabriel Jesus.  Copa chegando, a base da Globo se estabeleceu num estúdio panorâmico, em frente à Catedral de São Basílio, na Praça Vermelha.

Houve quem duvidasse que os estúdios da TV Globo (e do SporTV) realmente ficassem em frente à Catedral de São Basílio, na Praça Vermelha, em Moscou. Pois Sérgio Xavier Filho provou que era verdade: assim era a visão externa dos contêiners onde a operação do Grupo Globo foi montada (Reprodução/Perfil de Sérgio Xavier Filho no Twitter)

De lá, Fernanda Gentil apresentava o “Bom Dia Brasil” (ao lado de Ana Paula Araújo) e o “Esporte Espetacular”. Alex Escobar fazia a edição nacional do “Globo Esporte” e o “Jornal Hoje”, este com Sandra Annenberg. Tadeu Schmidt apresentava o “Fantástico”, com Poliana Abritta ficando no Brasil. Nas reportagens, alguns veteranos de sempre: Tino Marcos e Mauro Naves com a Seleção Brasileira, Marcos Uchoa, Pedro Bassan e José Roberto Burnier entre os setoristas de outras seleções – Burnier em seu último trabalho pela Globo, antes de se tornar apresentador de um vindouro telejornal na Globo News. Nas partidas da Seleção Brasileira, o ambiente ao redor do estádio era coberto por Alex Escobar e Glenda Kozlowski. Várias narrações de jogos foram feitas dos próprios estúdios na Praça Vermelha – uma prática condenada por alguns críticos de televisão (a pergunta óbvia: “Se é para transmitir dos estúdios no local, para quê viajar à Rússia?”). Finalmente, Renata Vasconcellos ancorava o “Jornal Nacional”, com Galvão Bueno a seu lado.

Aos 67 anos (completará 68 no próximo sábado, 21 de julho), há tempos entronizado no grupo seleto de pessoas que têm o nome marcado em destaque na história da televisão brasileira, Galvão ficou cada vez mais “protegido” nas narrações. Sua voz esteve em poucos jogos, mas que jogos… foi o narrador da abertura, da semifinal entre França e Bélgica, das partidas da Seleção Brasileira e da final. Nestas, deixava claro seu carisma: ao lado de Casagrande, Ronaldo e Arnaldo Cezar Coelho, os mesmos companheiros de cabine de 2014, ancorava a repercussão das partidas no Brasil, valia-se das clássicas expressões, dava emoção… e ainda usava das mídias sociais para colocar novos memes na boca de admiradores e detratores. Foi assim com o “Moscou enlouqueceu!”, proferido ao acompanhar uma festa em Moscou, próxima ao estúdio panorâmico da Globo. Vídeo postado nos perfis oficiais de Galvão no Instagram e no Facebook, virou bordão quase imediatamente.

Mas o grande símbolo global na cobertura da Copa de 2018, curiosamente, não haverá de ser Galvão. Nem Gustavo Villani, que justificou a expectativa com boas narrações no Brasil, junto a Caio ou Bob Faria nos comentários – também narraram partidas dos estúdios Rembrandt Jr. e Rogério Correa. Nem Cléber Machado, correto e elegante nas brincadeiras que fazia enquanto narrava, tendo Júnior como parceiro na cabine ou no estúdio – e dando voz a partidas marcantes, como Portugal 3×3 EspanhaFrança 4×3 Argentina e Bélgica 3×2 Japão. Nem as “deixas” divulgando as novelas exibidas atualmente pela emissora, envolvendo narradores e comentaristas – e sendo muito criticadas no início da Copa. Muito menos o trajeto frustrado do “cavalinho brasileiro”, emprestado pelo “Fantástico”, que aparecia a cada pré-jogo e pós-jogo da Seleção tentando chegar à “sexta estrela”, parando no cavalinho belga e prometendo recomeçar o caminho em 2022 – o “Seleção SporTV” exibiu o vídeo que apareceria em caso de vitória brasileira sobre a Bélgica. O grande símbolo da TV Globo quando a Copa de 2018 for lembrada será mesmo Luís Roberto.

Não que o narrador paulistano (criado em São João da Boa Vista, no mesmo estado) já não vivesse bom momento. Mas soube dosar bem suas características para viver o auge de sua carreira na Rússia. Luís recuperou bordões que usava nos tempos de narrador da Rádio Globo paulista – como “[fulano] é o nome da emoção”, para citar o autor de um gol. Trouxe bordões de outros momentos – tendo narrado a campanha da seleção masculina de vôlei até a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2016, Luís indagava “Sabe de quem? Wallace!” a cada cortada do jogador. Trouxe o “Sabe de quem?” para o futebol, antes de citar o autor do gol, e teve mais um sucesso (potencializado pelo óbvio trocadilho possibilitado por Harry Kane). Outra boa sacada: a cada chute que ia para longe do gol, Luis dizia que a bola fora parar lá em… uma cidade brasileira escolhida aleatoriamente. Finalmente, entrava na brincadeira com bom humor ao rememorar momentos aleatórios seus que haviam virado memes – claro, nesse caso entram “esses negros maravilhosos” criado involuntariamente em França 5×2 Suíça, na Copa de 2014.

Tais cacoetes começaram a cativar quem assistisse aos jogos com Luís Roberto – normalmente com Roger a seu lado, nos comentários. Mas se houve um momento decisivo para o locutor decolar, foi na transmissão empolgante de um jogo empolgante: o Alemanha 2×1 Suécia, com o gol de Toni Kroos no fim rendendo momento tão eletrizante que fez Roger se abraçar a jornalistas alemães que ladeavam a cabine global em Sochi (“A Alemanha não merecia perder”, exclamou o comentarista). Não bastasse empolgar a audiência, a escala rendia a Luís a sorte de estar em partidas de grande emoção: só nas oitavas de final, foi dele a voz em Croácia 1(3)x1(2) Dinamarca e em Colômbia 1(3)x1(4) Inglaterra, por exemplo. Até Roger ajudava a empolgar tais partidas – seu adjetivo para a linha defensiva da Inglaterra no 1 a 0 contra a Bélgica (“anfíbia”) foi mais um momento imediatamente gozado internet afora.

Ficou definitivamente difícil para a Globo manter a animação após a eliminação brasileira contra a Bélgica – a chateação ficou clara na reportagem de Glenda Kozlowski fora do estádio em Kazan, com a voz embargada, após ter acompanhado a tristeza da mãe de Fernandinho (uma das “Matrioskas”, vale lembrar) pelos erros do filho no 2 a 1 belga e pela antecipação das críticas que vieram. Na última semana de Copa, vários enviados já retornaram ao Brasil – casos de Tino Marcos e de Cléber Machado. Ganharam espaço os repórteres enviados aos países semifinalistas (Marina Izidro na Inglaterra, Andrey Raychtock na Bélgica, Victor La Regina na Croácia e Marina Rothier na França). Pelo menos, Luís Roberto e Roger conseguiram merecido prêmio pelo entrosamento que esbanjaram na cobertura: junto a Júnior, narraram tanto a vitória da Croácia sobre a Inglaterra, nas semifinais, quanto o terceiro lugar da Bélgica contra os ingleses. No final de tudo, poucas alegrias foram tão espontâneas quanto o “Copa do Mundo, sua linda!” com que Luís Roberto de Múcio encerrou a transmissão, fechando o grande momento de sua carreira, como o narrador brasileiro que mais trabalhou na Copa (19 jogos).

E se não havia Brasil na final, além do França 4×2 Croácia ter trazido emoções suficientes em campo, a equipe da Globo rendeu mais razões para comover os espectadores, fosse pela galhofa ou pela emoção pura. Casagrande celebrou a sobriedade durante o mês de Copa, cumprindo o que prometera ao encerrar a série especial sobre vício em drogas, feita pelo “Fantástico”, indo às (extremamente compreensíveis) lágrimas. Com sucessão garantida – Leonardo Gaciba, Paulo César de Oliveira e Renato Marsiglia estiveram na “Central do Apito” que fiscalizou os juízes na Copa -, após 29 anos de TV Globo, tendo reabilitado definitivamente o papel polêmico de comentarista de arbitragem, Arnaldo Cezar Coelho confirmou em seguida o que já vinha indicando há alguns meses: aos 75 anos, encerrou neste Mundial sua faceta de comentarista de televisão, para se dedicar à vida familiar e aos negócios (prósperos – é dono da TV Rio Sul, afiliada da TV Globo no sul fluminense).

E Galvão Bueno? Lentamente, já começa a ceder espaço a nomes mais novos, como Gustavo Villani, ou a nomes no auge da maturidade profissional, como Cléber Machado e Luís Roberto. Muitos pedem que se retire das transmissões; outros dizem que sem ele a Copa não tem graça. Muitos acham que ele morrerá narrador; outros tantos apostam em um “recuo” para ser comentarista ou âncora, ou até apresentador na área do entretenimento. E seu fecho para mais uma Copa, na cabine do Luzhniki, foi enigmático: “Não sei se é minha última Copa do Mundo narrando. Talvez seja. Comecei em 74, mas se tiver sido minha última Copa narrando, e provavelmente seja, foi especial, emocionante, maravilhosa, como se tivesse sido a primeira. (…) Eu vou deixar para mais tarde. Não sei o que falar. É minha vida. Mas vamos resolver com muita calma”.

E assim terminou a cobertura da TV Globo para a Copa de 2018: cheia de dúvidas. Galvão Bueno, o grande símbolo esportivo da emissora do Jardim Botânico carioca, estará no Catar em 2022? (Ele diz querer – e é a hipótese mais provável, mesmo que não seja como narrador.) Qual será o resultado da aproximação cada vez maior do esporte com o entretenimento na emissora – opção controversa até mesmo dentro do grupo de profissionais dela? Qual será a reação à concorrência ao Grupo Globo, cada vez mais ousada e capacitada, principalmente na televisão fechada e na internet? A Globo resistirá às crescentes suspeitas sobre ela? Citando uma das frases finais de Galvão na cobertura da final: “Vamos ver”.

TV por assinatura

O assédio a Júlia Guimarães foi o fato mais falado na cobertura do SporTV – reabrindo caminho para mais um questionamento (Reprodução/SporTV)

SporTV

Narração: Milton Leite, Luiz Carlos Jr., Jader Rocha, Júlio Oliveira, Odinei Ribeiro e Eduardo Moreno
Comentários: Maurício Noriega, Muricy Ramalho, Lédio Carmona, Ricardinho, Raphael Resende, Paulo Cesar Vasconcellos, Carlos Eduardo Lino e Wagner Vilaron
Reportagens: os mesmos da TV Globo
Apresentações: Janaína Xavier, Marcelo Barreto, André Rizek, Tiago Maranhão, Ivan Moré e Cristiane Dias
Participações: Dejan Petkovic, Deco, Cuca, Clarence Seedorf, Gustavo Villani, Grafite, Ana Thaís Matos, Sérgio Xavier Filho, Lucas Gutierrez, Domitila Becker, Caroline Zilberman, Felipe Andreoli e Maurício Meirelles

A consolidação da união com a Globo rendeu dividendos e limitações ao SporTV. Dividendos, porque a estrutura era a mesma para o canal esportivo da Globosat: o estúdio panorâmico na Praça Vermelha (de verdade, não chroma-key, como alguns telespectadores suspeitavam mídias sociais afora), os mesmos repórteres da matriz, benesses como ter a taça da Copa presente no estúdio em alguns programas. Limitações, porque a bem da verdade, apenas as equipes de cabine nos estádios e os debates de estúdio eram diferentes. Às vezes, até as reportagens exibidas eram iguais ao que já era mostrado nos programas da TV Globo. Ainda assim, o SporTV tinha capacidade de dar a própria cara à exibição dos 64 jogos da Copa.

Seguiam os dois principais narradores na alternância entre os jogos do Brasil (e também nas principais partidas). E cada um tinha sua equipe. Com Luiz Carlos Jr, que esteve na abertura entre Rússia e Arábia Saudita e nas partidas da Seleção contra Costa Rica e México tendo a seu lado Lédio Carmona e Ricardinho – segunda Copa seguida em que o ex-jogador colaborou com o canal. Já Milton Leite, titular na estreia contra a Suíça, contra a Sérvia e na eliminação para a Bélgica (e na final entre França e Croácia), teve o habitual colega Maurício Noriega nos comentários, além de uma novidade que chegara ao SporTV em 2016: após deixar a carreira de técnico com os problemas de saúde que o assustaram em São Paulo e Flamengo, Muricy Ramalho já participara da cobertura da Copa das Confederações. E comentou pela primeira vez numa Copa.

Fosse das cabines dos estádios ou fazendo o “tubo in loco” do estúdio em Moscou, tanto Luiz Carlos quanto Milton apareceram bastante: o narrador paulista esteve em 17 jogos, e o carioca, em 16. No entanto, as outras duas duplas de locutor e comentarista enviadas pelo SporTV à Rússia até trabalharam numerosamente, também. O gaúcho Jader Rocha esteve em 13 jogos, tendo a seu lado Paulo Cesar Vasconcellos. Já o paranaense Júlio Oliveira trabalhou em mais 11 partidas, com os comentários de Raphael Rezende – elogiado pelas suas participações durante a Copa, Rezende ficaria no Brasil a princípio, mas foi (justamente) premiado com o embarque à Rússia: sua vaga seria de Roger, mas se abriu com a promoção do ex-jogador à TV Globo. Todos foram “premiados” com a transmissão in loco nas duas últimas partidas das quartas de final: Jader e PCV estiveram em Suécia x Inglaterra, Júlio e Raphael, em Rússia x Croácia. Nos estúdios cariocas do SporTV ficaram Eduardo Moreno e Odinei Ribeiro, que narraram as partidas simultâneas da rodada final da fase de grupos, tendo ao lado os comentaristas Wagner Vilaron e Carlos Eduardo Lino.

Por falar em comentaristas, foi nos debates que o SporTV se sobressaiu definitivamente na televisão fechada. Se não tiveram tanta produção quanto em 2014, tais programas eram o sustentáculo da cobertura. Começavam pela manhã, com o “Planeta SporTV”, mais informativo, no qual Janaína Xavier apresentava as notícias e acionava os repórteres na cobertura – aí, o debate ficava por conta de outro Xavier, sem parentesco com a apresentadora paranaense: Sérgio Xavier Filho, chegado ao SporTV em 2016 após trajetória reconhecida principalmente pelos quinze anos como diretor de redação da revista “Placar”. Janaína e Sérgio puderam entrevistar no “Planeta SporTV” alguns convidados de respeito dentro de campo, da data de abertura da Copa, com Xavi Hernández no programa, à de encerramento, com dois convidados representando os finalistas: Laurent Blanc, pela França, e Stipe Pletikosa, pela Croácia.

Após a transmissão das partidas, entrava no ar (na maioria das vezes, às 18h) talvez o mais elogiado programa do SporTV durante a Copa. Mesmo que já fosse parte frequente no pós-jogo do canal, o “Troca de Passes – Copa” trouxe um quarteto que cativou a maioria da audiência. Apresentador habitual do programa, Tiago Maranhão ganhou novos colegas durante o Mundial. Se narrava os jogos pela Globo, na televisão ou no cinema, Gustavo Villani ajudava Maranhão na apresentação do “Troca de Passes”, além de também comentar o que se via na Rússia. Também habituada ao SporTV, Ana Thaís Matos (repórter paulista das Rádios Globo e CBN) era mais uma debatedora. O último integrante da mesa estreava em televisão: Grafite.

Ana Thaís, Villani, Maranhão e Grafite formaram uma roupagem elogiada do “Troca de Passes” na Copa (Reprodução/SporTV)

Os elogios ao “Troca de Passes – Copa” se deviam principalmente à boa mescla entre diversão e jornalismo. Sim, havia espaço para o debate sobre as partidas e os resultados. Sim, Grafite ganhou respeito pela capacidade de explicar didaticamente as mudanças táticas – sua explanação sobre a falha defensiva brasileira no gol de Steven Zuber que empatou a estreia para a Suíça foi aclamada unanimemente. No entanto, também havia espaço para a condução dos debates num tom naturalmente bem-humorado – nos frequentes trocadilhos de Maranhão, nas imitações de Gustavo Villani para os “Mick Jagger” e “Jabulani” que Cid Moreira tornara populares na Copa de 2010, nas citações de Ana Thaís Matos a elementos da cultura pop futebolística (como “Bate de Trivela”, paródia do Futparódias para “Baile de favela”, em referência ao gol de Quaresma para Portugal contra o Irã). Finalmente, o humor ainda se fazia presente no “Troca de Passes – Copa” em dois quadros fixos. No “Às de Copas”, Domitila Becker e Caroline Zilberman mostravam rankings de momentos pitorescos da história dos Mundiais; no “Fala Muito”, que causou reações controversas (alguns gostavam, outros não), Lucas Gutiérrez fazia vídeos sobre o dia da Copa, à moda “youtuber”.

Por sinal, o “Fala Muito” fechava o “Troca de Passes – Copa” e abria espaço para o debate mais “sério” do “Seleção SporTV – Copa”. Do estúdio panorâmico em Moscou, Marcelo Barreto e André Rizek mediavam as conversas. Completando o trio básico do programa, outro estreante em televisão: Dejan Petkovic, mostrando tom assertivo e se destacando nos debates. Junto a Barreto, Rizek e Petkovic, os outros convidados iam e vinham. No início da Copa, estiveram mais presentes no “Seleção SporTV – Copa” Clarence Seedorf e Deco; no decorrer dela, Cuca fez outras participações – e fez fama ao testemunhar o gol de seu antigo comandado Yerry Mina, em Inglaterra x Colômbia. Não raro, havia participações dos outros enviados de SporTV/Globo: Raphael Rezende, Roger, Casagrande, Alex Escobar e… Galvão Bueno, que saiu da apresentação do “Jornal Nacional” para visita inesperada aos estúdios do “Seleção”.

No “Seleção SporTV – Copa” que André Rizek e Marcelo Barreto mediavam, Dejan Petkovic deu o tempero aos debates – tempero até demasiado, como numa conversa com Casagrande (Reprodução/SporTV)

Alguns quadros também eram frequentes no “Seleção SporTV – Copa”. No “Momento… Legal” (zombando amistosamente do tom lacônico dos comentários de Lédio Carmona), apontava-se um destaque do dia. Em “Poetkovic”, o ex-jogador sérvio fazia poemas improvisados sobre o que se vira no dia do Mundial. Sobre isso também versava o “Conto Russo”, texto reflexivo para fechar o programa, escrito ora por Barreto, ora por Rizek. Este, por sinal, protagonizou um momento emotivo no “Conto Russo”: em meio a discussões com seus seguidores no Twitter, após postar foto com Paulo Júlio Clement (1964-2016) na Copa de 2014, desejoso de um Brasil x Colômbia que possibilitasse homenagens à solidariedade colombiana no desastre que vitimou o grupo da Chapecoense (e vários amigos seus, como o próprio Paulo Júlio), Rizek chorou após ter seu texto lido num VT.

Terminado o “Seleção SporTV – Copa”, voltava o humor. Aí, mais escancarado: no “Zona Mista”, dirigido por Sidney Garambone, Felipe Andreoli e Maurício Meirelles (conhecido dos tempos de “CQC”, em sua primeira experiência no Grupo Globo) faziam debates e entrevistas cheias de perguntas capciosas aos convidados, muito variados. Grande parte dos presentes ao “Central da Copa” da emissora-matriz também passavam por ali: do próprio Tiago Leifert a Fátima Bernardes, passando por Cléo Pires e Marcelo Adnet. Mas outros nomes também entraram nas piadas de Andreoli e Meirelles – merecem citação Luciano Huck, Wiliam Bonner, Glória Maria, Nanda Costa e Cléber Machado, que participou do “Zona Mista” no domingo que fechou a Copa. Encerrando a longa rotina, cabia à dupla Ivan Moré e Cristiane Dias apresentar o noticioso “SporTV News – Copa”, com um resumo dos fatos.

Mas talvez nenhum desses programas tenha sido mais comentado na cobertura do SporTV do que um fato ocorrido com uma repórter – mais uma fonte de questionamentos sobre o comportamento com as mulheres. Poderia ter sido com as correspondentes Marina Izidro ou Bianca Rothier, ou com Glenda Kozlowski, ou com Fernanda Gentil. Coube a Júlia Guimarães ser abordada indevidamente por um torcedor, minutos antes de entrar no ar para um boletim, sobre Japão x Senegal, que logo começaria – e também dar a ele uma dura resposta, muito aplaudida pela coragem e pela prontidão. Houve quem falasse em hipocrisia. Mas Júlia Guimarães se tornou, inesperadamente, um dos símbolos de um questionamento. Também levantado por Ana Thaís Matos, no último “Troca de Passes – Copa”: “Foi uma cobertura de guerrilha, e eu acho que, das últimas Copas que eu acompanhei, essa foi uma Copa diferente para as mulheres. (…) Eu acho que é um ponto importante na Copa da Rússia discutir o posicionamento e a postura da mulher em um ambiente do futebol, que é um ambiente extremamente machista e extremamente segregador”.

Mais um ponto importante, em cobertura de audiência previsivelmente respeitável – o SporTV chegou a ser cinco vezes mais visto do que o FOX Sports.

Renata Silveira, Isabelly Morais e Manuela Avena: as três narradoras do FOX Sports na Copa concretizaram bem a iniciativa do canal (Divulgação/FOX Sports)

FOX Sports

Narração: Nivaldo Prieto, João Guilherme, Téo José, Marco de Vargas, Silva Jr., Éder Reis e Hamilton Rodrigues/no FOX Sports 2, Isabelly Morais, Manuela Avena e Renata Silveira
Comentários: Paulo Vinicius Coelho, Edmundo, Zinho, Rodrigo Bueno, Carlos Eugênio Simon, Eugênio Leal, Oswaldo Pascoal, Leandro Quesada, Fábio Sormani, Nadine Bastos, Renê Simões, Ricardo Rocha, Emerson, Careca, Elano, Paulo Nunes, Mauro Galvão, Gilberto e Juninho Paulista/no FOX Sports 2, Vanessa Riche e Bárbara
Reportagens: Abel Neto, Leandro Quesada, Fernando Caetano e Gudryan Neufert
Apresentações: Eduardo Elias, Marina Ferrari, Luciano Calheiros, Vanessa Riche e Daniela Boaventura
Participações: Flávio Gomes, Maurício “Mano” Borges, Paulo Lima, Bárbara, Daniela Boaventura, Lívia Nepomuceno, Carla Matera, Christiane Mussi, Graça Berman, Vanderlei Luxemburgo, Carlos Alberto Parreira, Marco Aurélio Cunha, Moisés Cohen, Abel Braga, Zé Ricardo, Jair Ventura, Roger Machado, Jorginho, Thiago Larghi, Diego Aguirre, Paulo Roberto Falcão e Jô Soares

A cobertura elogiável da Copa de 2014 já tornara o FOX Sports um concorrente digno de muita nota na medição dos índices de audiência. Mas só no final daquele ano veio a grande tacada da emissora do grupo FOX, que a fez equilibrar de vez o duelo com a ESPN (e até passar à frente dela) na disputa para ser a grande adversária do SporTV: em dezembro de 2014, era anunciada a contratação de Paulo Vinicius Coelho, simplesmente o grande trunfo e o grande símbolo nas transmissões de jogos de futebol pela filial brasileira da emissora esportiva do grupo Disney. Estreando na FOX Sports no primeiro dia de 2015, PVC foi recebido com pompa e circunstância pela emissora sediada no Rio de Janeiro.

Os investimentos continuaram. Nas instalações: a FOX Sports seguiu no Rio de Janeiro, mas se foi de um casarão no Cosme Velho para um prédio na Barra da Tijuca, onde foram centralizadas as operações. E na equipe: em 2015, após 17 anos de TV Bandeirantes, chegava ao canal Nivaldo Prieto, para ser mais um narrador com status de “principal” – mesmo status com que chegou Leandro Quesada, experientíssimo como repórter da Rádio Bandeirantes paulista, começando a ser comentarista na experiência televisiva. Haveria mais: no começo de 2016, após ser demitido da rádio CBN paulista, Deva Pascovicci retornava à televisão após 11 anos. A cobertura dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, consolidava o segundo lugar do FOX Sports na audiência. E logo após ela, mais uma novidade a vitaminar o grupo de comentaristas: Edmundo, relativamente credenciado pelos anos na TV Bandeirantes.

Tirar PVC da ESPN foi o impulso decisivo para fazer a FOX Sports falar grosso na disputa pela audiência (Divulgação/FOX Sports)

Porém, o destino foi malvado com o canal fechado. No mesmo desastre aéreo que matou boa parte da delegação da Chapecoense, de uma vez só, o FOX Sports perdeu vários destaques. Foram-se naquele aziago 29 de novembro de 2016 Deva Pascovicci, com somente nove meses no novo empregador; Paulo Júlio Clement e Victorino Chermont, que haviam começado a trajetória da emissora em 2012; Mário Sérgio, cuja morte afetou pesadamente os outros integrantes do “FOX Sports Rádio” com quem dividia espaço (no programa do dia, o choro entrecortou as lembranças de Fábio Sormani, Maurício “Mano” Borges e Benjamin Back); e gente experiente por trás das câmeras – o cinegrafista Rodrigo Santana e o coordenador de transmissões externas Lilácio Pereira Júnior, o “Jumelo”. Restou à FOX Sports seguir em frente, tendo no primeiro ano após as mortes uma lembrança (estendida às filiais da FOX Sports no mundo todo, por sinal): seis estrelas acima do logotipo, simbolizando os seis funcionários mortos, e a mudança temporária do lema do canal para “Sempre Juntos”.

A vida seguiu, as transmissões também, e logo o FOX Sports pôde ter algumas razões para celebrar: em julho de 2017, veio o acordo de sublicenciamento dos direitos de transmissão da Copa com o Grupo Globo, permitindo que o canal mostrasse seu segundo Mundial. Alguns nomes de 2014 já não estariam lá – fora PJ Clement, “Vitu” Chermont e Mário Sérgio, por razões óbvias, a apresentadora Renata Cordeiro deixara o canal. Bem como Renato Maurício Prado: descontente por ter ficado fora da cobertura dos Jogos Olímpicos, o jornalista carioca preferiu antecipar os planos de desacelerar a carreira, focando-se em sua fazenda de criação de cães (o Rancho Ponderosa, em Itaipava, interior do Rio de Janeiro) e fazendo colunas esporádicas em jornais e sites. Começou 2018, e outra ausência impactou o FOX Sports: com status de narrador principal do canal após os trabalhos elogiados na Copa de 2014 e nos Jogos de 2016, Gustavo Villani aceitou em fevereiro a proposta de Globo/SporTV.

Perdendo alguns nomes importantes, por força maior ou por opção, o FOX Sports respondeu em 2018. E Abel Neto foi um dos ganhos principais (Divulgação/FOX Sports)

Mas se uns iam, outros vinham. Simultaneamente à saída de Villani, Téo José deixava a TV Bandeirantes, após fracasso nas negociações para renovar contrato com a emissora aberta paulista, e foi rapidamente escolhido não só para ser contratado e preencher a lacuna aberta, mas também para trabalhar na cobertura da Copa do Mundo. Em abril, o FOX Sports ainda anunciava uma surpreendente contratação: chegava Abel Neto. Experiente repórter, muito utilizado ainda na TV Globo em São Paulo (costumava não só reportar jogos dos times paulistas, mas também apresentar esporadicamente a edição do “Globo Esporte” no estado), Abel aceitou a proposta e deixou o Grupo Globo, após 20 anos, para chegar ao novo local de trabalho – e nele ser o principal setorista relacionado à Seleção Brasileira durante a Copa.

Todavia, quem representava a grande novidade do FOX Sports para a cobertura do Mundial não era Téo, nem Abel. Era Vanessa Riche. Demitida do Grupo Globo no final de 2017, a apresentadora e narradora bissexta carioca foi contratada em fevereiro. E chegou não só para cumprir seus papéis profissionais primordiais, mas também para ser a principal avaliadora de um projeto. Baseado no slogan do canal para a Copa – o incentivador “Brasil, joga o que sabe” -, o FOX Sports encampou a série “Narra quem sabe”, procurando três narradoras para fazerem as transmissões alternativas dos jogos da Copa, no segundo canal da empresa. Numa avaliação chefiada por Vanessa, foi um mês de testes, até que se chegasse a seis finalistas. Destas saíram as três escolhidas: a mineira Isabelly Morais (já em plena atividade, narrando e reportando na Rádio Inconfidência, em seu estado), a baiana Manuela Avena (repórter da Rádio Sociedade, em seu estado) e a fluminense Renata Silveira (jornalista que já tivera fugaz experiência, na locução de dois jogos após uma promoção da Rádio Globo carioca).

Vanessa Riche veio ao FOX Sports para capitanear a cobertura especial do segundo canal: mulheres tomando o destaque (Reprodução/Facebook)

No FOX Sports 2, as três vencedoras se revezavam na narração do principal jogo de cada dia, tendo ao lado um comentarista da casa e Vanessa mediando a reação nas mídias sociais. Isabelly Morais foi a primeira mulher a narrar um gol em televisão numa Copa do Mundo na história da imprensa esportiva brasileira – era dela a voz quando Yuri Gazinsky cabeceou para as redes, no primeiro gol da Rússia contra a Arábia Saudita. No dia seguinte, coube a Manuela Avena dar a voz ao 3 a 3 entre Portugal e Espanha. No sábado, 16 de junho, Renata Silveira narrou Argentina 1×1 Islândia. No domingo, Isabelly voltou, narrando o 1 a 1 entre Brasil e Suíça, na estreia da Seleção, junto a Vanessa Riche e a Bárbara, goleira da Seleção feminina. E assim foi até o domingo passado, quando Renata Silveira narrou o título francês sobre a Croácia. Além dos jogos, as mulheres ainda monopolizavam a mesa-redonda no FOX Sports 2. “Comenta quem sabe”, exibida a partir das 20h, tinha Vanessa na apresentação e na mediação, junto a uma das três narradoras, a apresentadoras dos programas do canal – Daniela Boaventura, Lívia Nepomuceno -, a repórteres do canal – como Caroline Patatt -, à comentarista de arbitragem Nadine Bastos e a convidadas alternadas – como a supracitada Bárbara, a jornalista Carla Matera, a dramaturga (e fã de futebol) Graça Berman e a jornalista Christiane Mussi.

Se os debates foram parte do projeto de impulsionar a presença feminina na cobertura, foram quase o prato principal na cobertura do canal primordial do FOX Sports. Do centro internacional de transmissões em Moscou seriam produzidos e exibidos o “FOX Sports Rádio”, com o quinteto habitual (Benjamin Back, “Mano” Borges, Fábio Sormani, Oswaldo Pascoal e Flávio Gomes), e o “Expediente Futebol”, ora apresentado por João Guilherme, ora por Luciano Calheiros, tendo figuras como Zinho e Paulo Lima nos comentários. Mas saltou aos olhos mesmo foi o número de convidados especiais para participarem do “Debate Final”, mesa-redonda que analisava o dia na Rússia, a partir das 20h. Além dos enviados à Rússia, participavam, dos estúdios no Brasil, vários ex-jogadores com passagens pela Seleção em Copas.

A lista foi longa: Careca (Copas de 1986 e 1990), Elano (Copa de 2010), Gilberto (Copas de 2006 e 2010), Mauro Galvão (Copas de 1986 e 1990), Emerson (Copa de 2006), Juninho Paulista (Copa de 2002) e Ricardo Rocha (Copas de 1990 e 1994). Diretor esportivo do São Paulo, Ricardo Rocha – temporariamente de volta à televisão, após a passagem pelo SporTV – teve a participação recebida com críticas pelos torcedores: afinal, sua presença era pedida para participar da estruturação são-paulina rumo à segunda parte do Campeonato Brasileiro. Todos, sem contar Zinho e Edmundo, também com Copas em seus currículos, já membros fixos do FOX Sports. Dos ex-atletas convidados pela emissora, só mesmo Paulo Nunes esteve ausente do Brasil em Copas do Mundo. De quebra, os atletas ainda se alternavam nos comentários, nas transmissões das 64 partidas.

Com tantos debates e tantos convidados, o “Debate Final: Especialistas” era o destaque no FOX Sports – mais por Jô Soares, é verdade (Reprodução)

Já era o bastante? Não para o FOX Sports: após a primeira emissão do “Debate Final”, haveria ainda o “Debate Final: Especialistas”, às 22h. Nele, o espaço era dos técnicos: produzida nos estúdios cariocas da empresa na Barra da Tijuca, a mesa-redonda mediada por Téo José envolvia vários treinadores, empregados ou não. De alguns deles, a televisão já era conhecida: Vanderlei Luxemburgo, por exemplo, participava pela segunda vez da cobertura de uma Copa no canal, bem como Renê Simões. Carlos Alberto Parreira, presença esporádica no “Debate final: Especialistas”, também já tivera seus momentos em debates televisivos. Para outros, ser membro de uma mesa-redonda era uma novidade – aliás, para a longa maioria: Abel Braga, Zé Ricardo, Jair Ventura, Jorginho, Thiago Larghi, Diego Aguirre, Roger Machado, o médico e dirigente Marco Aurélio Cunha, o médico Moisés Cohen. A bem da verdade, o mais íntimo da televisão no “Debate Final: Especialistas” não era nem Téo José, mas sim uma aposta do FOX Sports: Jô Soares, enfim voltando a participar regularmente de um programa (e agradando a direção a ponto de fazer pensar em contratação definitiva). Num debate assim, curioso foi notar a ausência de Paulo Roberto Falcão: se apresentara o “Boa Noite Copa” em 2014, o técnico – novamente desempregado – se resumiu a participar do noticioso “Central FOX”, apresentado do Brasil por Marina Ferrari e Eduardo Elias.

A profusão de debates tinha apenas uma intenção: capturar a audiência que gostasse das mesas-redondas mais até do que os jogos. Não deu muito certo: a audiência não só foi menor que a do SporTV, e algumas mudanças internas ocorreram no FOX Sports em meio à Copa (a dificuldade em vender as cotas de publicidade levou a matriz norte-americana a decidir pela demissão do vice-presidente comercial Arnaldo Rosa). Para piorar, às vezes os debates saíam do controle. Como numa discussão de Fábio Sormani com Renê Simões, no “Expediente Futebol”, sobre o comportamento de Neymar em Costa Rica x Brasil. A discussão ficou tão acalorada que João Guilherme, apresentador, precisou subir um pouco o tom para pedir que ambos se acalmassem:

De todo modo, o FOX Sports se manteve. Nos jogos, João Guilherme retomou parcialmente o posto com que inaugurou a emissora fechada em 2012, narrando a partida de abertura e a decisão entre França e Croácia. Parcialmente: nas partidas da Seleção Brasileira, Nivaldo Prieto foi o narrador, com PVC e Edmundo como os comentaristas – confirmando o status de ambos como a principal dupla de jornalistas/comentaristas a participar dos jogos. Nos comentários de arbitragem, Carlos Eugênio Simon mantinha seu posto, mas tinha Nadine Bastos estreando numa Copa.

Enfim, se não perturbou muito a liderança do SporTV, a FOX Sports se conservou como opção mais mencionada à emissora da Globosat. Pelo menos, por enquanto: nos Estados Unidos, a negociação da venda da FOX para a Disney pode causar alterações na América Latina. É o que deseja a filial brasileira da ESPN…

*                                        *                                            *                                         *                                         *

Para terminar, uma pensata. Como se deu a entender, a cobertura de 2018 na televisão foi feita de questionamentos. O alcance do papel da mulher no jornalismo esportivo, a postura do Grupo Globo, o esporte como parte do jornalismo ou apenas de entretenimento, a própria relevância da televisão e do jornalismo… todos temas que fizeram parte da pauta.

De fato, a internet questiona cada vez mais o papel da televisão, de forma galhofeira (com os memes) ou séria (com podcasts, sites, canais no YouTube…). No entanto, a reação a fatos como a compra dos direitos de transmissão da Liga dos Campeões pelo Facebook causa alguma estranheza ao próprio público. Como se a internet ainda não estivesse pronta para ter o mesmo respeito da televisão na cobertura de um grande evento esportivo.

A internet poderá deixar de ser “da zoeira” na transmissão de um evento esportivo? Conseguirá explorar todo seu alcance? A televisão mudará alguns de seus usos e costumes para as Copas do Mundo?

As respostas não serão imediatas. Nem em 2022 terão vindo. Mas talvez estejam mais definitivas na próxima Copa.