A Croácia, o nacionalismo e os perigos de atribuir rótulo de fascista em um país tão complexo

A Croácia é a grande história da Copa do Mundo de 2018, caminhando até a final de forma surpreendente. E quanto mais longe vai um país na Copa, ainda mais um que nunca chegou tão longe, maior o interesse por ele. Assim, uma das polêmicas que a Copa trouxe foi a relação entre o fascismo e a Croácia, por episódios durante o Mundial. O país dos Bálcãs é o mais jovem entre todos os 32 participantes, com uma república que completará 27 anos em outubro. Rotular o país, ou os jogadores, como fascistas pode ser um erro para analisar um país que é muito mais complexo do que rótulos ou caixinhas ideológicas possam explicar.

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Unidade de sangue

A Croácia é independente desde 1991, em um plebiscito. A Iugoslávia, porém, não aceitou a separação de uma parte do seu território e tentou manter a unidade à força. Uma guerra civil que durou até 1995, com muitas vítimas nesse processo. A região dos Bálcãs passou por muitas mudanças e disputas ao longo da história e questões étnicas e religiosas tiveram uma grande influência. E a separação da Iugoslávia deixou muitas feridas abertas.

As duas grandes guerras no início do século 20 mudaram muito o que era a Croácia. Na Primeira Guerra Mundial, a Croácia era parte do território do Império Austro-Húngaro. Já naquela época, havia uma doutrina que permearia a região por décadas a fio: o pan-eslavismo. A ideia é que haja um território unificado unindo todas as etnias de origem eslava. Assim, seria um Estado eslavo, em última instância. E foi dessa ideia que surgiu a Iugoslávia (“Eslavos do Sul”, enquanto os eslavos do norte são os poloneses, ucranianos e russos), logo depois do fim dos conflitos.

O problema da Iugoslávia era ser de maioria sérvia, algo que outras nações, entre elas a Croácia, contestava. A unidade era frágil e isso causava instabilidade. Em 1941, a região foi invadida por países do Eixo, em meio à Segunda Guerra Mundial. E isso criaria uma marca. A Croácia foi separada da Iugoslávia, tornando-se um Estado Independente e que tinha Ante Pavelic à frente. General do exército, ele foi o fundador da Ustase, em 1929, uma organização ultranacionalista croata. Foi essa organização que foi alçada ao poder pelos nazistas alemães e fascistas italianos.

A Ustase praticava atos terroristas e Pavelic articulou com a Organização Revolucionária Macedônia. Por isso, foi condenado à morte pela primeira vez. A segunda condenação veio depois de um atentado em 1932, que culminou na morte do rei da Iugoslávia, Alexandre. Exilado na Itália, foi condenado à morte em um julgamento na França, em que ele não estava presente. Pressionada, a Itália o prendeu por 18 meses, mas o manteve vivo. Ele chegaria ao poder em 1941 para ser um Estado fantoche dos nazistas.

Pavelic estabeleceu um governo, portanto, similar ao dos nazistas, com ambições de expansão territorial, querendo anexar a Bósnia e parte da Sérvia, além de políticas contra sérvios e antissemita. O governo praticou crimes de guerra como a limpeza étnica, com a morte de 500 a 700 mil sérvios, judeus, muçulmanos e ciganos, entre outras minorias, além de torturas e campos de concentração. A sede de sangue de Pavelic era tamanha que até o Estado alemão nazista tentou intervir para tentar restringir as ações genocidas. Nem mesmo a rendição alemã, em maio de 1945, fez Pavelic parar. Ele mandou as tropas continuarem lutando.

Quando não havia mais o que fazer, ele ordenou que as tropas fossem até a Áustria e se rendessem ao exército britânico. Mas os britânicos se recusaram a aceitar a rendição e ordenaram que ela fosse feita diante dos Partisans, um movimento de resistência à invasão do Eixo na Iugoslávia. Parte desse movimento armado surgiu do partido comunista da Iugoslávia. Em vez disso, a Ustase lutou contra os Partisans. Pavelic, por sua vez, fugiu para a Áustria e depois para a Argentina, com abrigo oferecido pelo então presidente Juan Perón, que recebeu diversos criminosos de guerra nazistas.

Um dos mais proeminentes líderes dos Partisans era o Marechal Josip Broz Tito, que comandou a resistência e a retomada do poder em Belgrado, em 1944, antes de conquistar a Croácia em 1945, com a poderosa ajuda da União Soviética. Tito, croata de nascimento, era um pan-eslavista. Foi o ponto crucial da criação do Estado da Iugoslávia depois da Segunda Guerra Mundial, agora em um regime socialista e com ligações com a União Soviética, mas com muito mais independência em relação a outros países do leste europeu.

Com um regime autoritário, Tito manteve o país sob uma mesma bandeira, mas o caldeirão sempre ferveu. Com a morte de Tito, em 1980, o caldo entornou. Os movimentos separatistas, sempre combatidos por Tito, emergiram. A Iugoslávia, socialista, sofreu a influência da derrotada soviética e de regimes socialistas sob sua influência. A queda do Muro de Berlim, em 1989, com a Alemanha unificada em 1990 e a dissolução da União Soviética, em 1991, aconteciam, enquanto a Croácia declarava a sua independência por plebiscito. Assim como a União Soviética, a Iugoslávia era uma panela de pressão prestes a explodir, o que nos Bálcãs aconteceu a partir da morte de Tito.

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O renascimento da Croácia e o futebol

Como um país jovem, com menos de 30 anos de vida independente, é de se esperar que a vida dos jogadores presentes na Copa tenha muito a ver com o violento processo que levou à independência croata. As marcas de uma guerra nas vidas das pessoas são indeléveis e deixam sequelas que são importantes demais para serem ignoradas. E mais do que isso, os símbolos nacionais possuem um peso muito diferentes de outros países. Alguns jogadores nasceram em uma Iugoslávia em que se sentiam perseguidos, sofreram com a guerra e viram nascer o Estado para a sua nação. E isso significa muita coisa.

O futebol sempre foi uma forma altamente politizada de expressão nacional na Croácia pós-socialista. Franjo Tudman, que lutou pela independência da Croácia desde 1989, era um líder nacionalista e anticomunista, como ele mesmo se descrevia. E aqui é importante pontuar: ser contra o regime iugoslavo pan-eslavista era, quase necessariamente, ser alguém oposto ao socialismo ou ao comunismo apregoado por Tito.

Enquanto Tito e o seu regime minimizava os sentimentos nacionalistas dentro do Iugoslávia por algo acima disso, um Estado pan-eslavista, os opositores incitavam o nacionalismo. Por isso, não é surpresa que o líder que queria a separação da Iugoslávia fosse dessa matriz ideológica. Afinal, política se faz não só por semelhança, mas também por oposição ao que se estabelece.

Franjo Tudman se tornou o primeiro presidente da Croácia e tinha uma relação com o futebol que era muito militarizada. Os jogadores eram tratados como heróis e guerreiros e vistos como símbolos nacionais. “Vitórias no futebol moldam a identidade da nação tanto quanto as guerras”, dizia Tudman. Algo que se aproxima do que um grande escritor já dizia. George Orwell afirmava que o futebol era “a guerra sem os tiroteios”. Não é por acaso que muitos dos termos usados como metáforas no futebol são bélicos.

O esporte tornou-se uma manifestação nacional, o que para uma nação recém-criada era fundamental. “Atletas são os melhores embaixadores do nosso país”, afirmou Tudman. A Croácia disputou as Olimpíadas de 1992 já como um país independente, mesmo em meio ao caos. No futebol, a questão foi um pouco mais complicada. Os sucessos do esporte, e especificamente do futebol, eram estendidos ao país. Futebol, na Croácia, nunca foi só futebol. Sempre foi uma forma de unidade nacional em um país que sofreu muito para ser o que é.

Com tantas feridas abertas, o nacionalismo é uma faca de dois gumes, com faces bastante afiadas dos dois lados e muito menos óbvios do que pode parecer ao olhar de quem está de fora.

A cicatriz do craque

Luka Modric, da Croácia (Photo by Francois Nel/Getty Images)

Em meio à guerra pela independência, uma cidade foi atingida pelo conflito. Ali, no vilarejo de Modrici, um senhor levava o gado subindo a montanha em um dia, como fazia todos os dias. Era dezembro de 1991 e a Croácia tinha declarado independência, após um plebiscito. Como a Iugoslávia não aceitou, o país viva uma guerra civil. Enquanto alguns guerreavam, outros tentavam apenas sobreviver. Como era o caso daquele senhor, que subia o gado na montanha, cuidando como sempre fazia.

Alguns homens uniformizados apareceram. Supostamente policiais, mas não se sabe. Levou aquele senhor, junto a cinco outros, para o vilarejo seguinte a Jesenice. O crime dele, e de todos aqueles ali, não era nada do que eles tinham feito. Era algo que eles eram. Eram milicianos sérvios e o crime daqueles capturados era serem croatas. Aquele senhor deixou uma família que o amava. Entre eles, um garoto de seis anos de idade, que ele ajudava a criar enquanto os pais trabalhavam em uma fábrica de roupas. O garoto era Luka Modric, com 32 anos em 2018, prestes a capitanear a sua seleção a uma final de Copa do Mundo. Um sonho realizado em uma vida que teve um início que mais soava como pesadelo.

O assassinato  do avô era um método de intimidação em meio à guerra. Não foi o único. A casa onde a família morava foi queimada, como tantas outras. Os pais fugiram, levando Luka Modric, para Zardar, onde moraram em um hotel abandonado que serviu como abrigo para diversas famílias que viviam situação similar. Em meio ao caos de uma guerra, de viver em uma situação limite, Luka Modric jogava futebol no que era o estacionamento do hotel. Às vezes sozinho, às vezes com outras crianças.

“Quando a guerra começou, nós nos tornamos refugiados e foi um tempo muito difícil. Eu tinha seis anos de idade. Aqueles eram tempos realmente muito duros. Eu lembro deles vividamente, mas não é algo que você queira lembrar ou pensar a respeito. Nós vivemos em um hotel por muitos anos, já que nós sofríamos financeiramente, mas eu sempre amei futebol. Eu lembro das minhas primeiras caneleiras que tinham o brasileiro Ronaldo neles e eu as amava”, contou Modric em 2008, quando chegou ao Tottenham. “A guerra me fez mais forte. Foi um momento muito difícil para mim e para a minha família”, disse Luka Modric ao The Sun. “Eu não quero carregar isso comigo para mim, mas eu não quero esquecer também”.

A Croácia se tornou finalista passando por muitas batalhas – em mais uma metáfora bélica, tão comum no futebol. Contra Dinamarca, vitória nos pênaltis, depois de ver o seu capitão, o próprio Luka Modric, perder um pênalti na prorrogação. Nos pênaltis, Modric não teve qualquer medo de cobrar novamente. E marcou. No final, vitória da Croácia. Ivan Rakitic declarou, após o jogo, que o time fez tudo para vencer por Modric. “Lukita já nos salvou tantas vezes. Era a hora de retribuir”, disse o meio-campista. Os croatas enfrentaram os russos e tiveram que passar novamente por prorrogação e pênaltis. E venceram. Veio a semifinal e mais um duelo duro contra a Inglaterra. Mais uma prorrogação. Desta vez, sem pênaltis. Vitória. Os croatas chegam com três prorrogações nas costas.

É difícil imaginar o que ser croata representa para esse time e o que esse time representa para os croatas. Só mesmo os jogadores podem sentir o que é poder representar um país que se sentiu tantas dores recentes da guerra. O valor de poder vestir a camisa da Croácia, para esses jogadores, é algo que nós, que não somos croatas, sequer podemos imaginar. A história croata tem capítulos sombrios com as relações com fascistas, os nazistas e tudo isso. Mas tem também uma história de dores que muitos dos jogadores viveram na pele.

Jogadores como Dejan Lovren, ou como Ivan Perisic, que se tornaram refugiados na Alemanha antes de serem obrigados a voltar ao país após o fim da guerra. São marcas difíceis de tirar. O ultranacionalismo croata era terrível, em vários aspectos. Mas quem pode condenar alguém que sente o orgulho de ser croata, de ter a liberdade de gritar, a plenos pulmões, pelo seu país? Ainda mais na Rússia, um país que tem ligações com aqueles que os perseguiram. E os croatas sabem que a população russa não tem nada a ver com isso. Eram questões de governo.

“Eu não gosto de voltar para essas coisas. Está tudo no passado”, afirmou Modric, na coletiva de imprensa antes da final da Copa. “É claro, tudo influencia você. Isso nos fez resilientes como pessoas, como nação”. Nacionalismo, então, é uma questão muito mais complexa do que uma relação com fascismo.

O caso da presidente

Kolinda Grabar-Kitarovic (centro), presidente da Croácia (Photo by Kevin C. Cox/Getty Images)

A Croácia tem uma presidente e um primeiro-ministro, que é quem tem o maior poder. A presidente se tornou uma figurinha carimbada na Copa do Mundo. Kolinda Grabar-Kitarovic foi vista durante todo o torneio com a camisa da Croácia e comemorando. Ela é candidata a reeleição nas próximas eleições presidenciais, em 2019.

O governo do país atualmente é de centro-direita e tem um discurso economicamente liberal e capitalista. Como forma de manutenção de governabilidade, deu espaço a alguém como Zlatko Hasanbegovic, que se tornou ministro da cultura e é uma figura conhecida de grupos de extrema direita que tem discurso que minimiza os crimes da Ustasa. O primeiro governo, liderado por Tihomir Oreskovic, caiu ainda em 2016, com essa e outras controvérsias – por lá o regime é parlamentarista.

Depois da vitória suada contra a Dinamarca, nos pênaltis, pelas oitavas de final, Grabar-Kitarovic foi vista no vestiário. Algo inesperado para uma chefe de Estado, que foi cumprimentando um a um, a começar pelo técnico, sendo que alguns jogadores sequer estavam completamente vestidos enquanto se filmava o evento. Luka Modric foi quem recebeu o mais longo abraço, além de palavras trocadas com a presidente. Enquanto o ato foi visto por seus pares como algo patriótico de alguém que gosta muito de futebol, os opositores viram como um grande golpe de marketing político para capitalizar em cima do time. E eis quando o caldo engrossa.

Zdravko Mamic, o dirigente mais poderoso da Croácia dos 10 anos, foi condenado à prisão dias antes da abertura da Copa. Ele fugiu para a Bósnia, país onde também tem nacionalidade e, assim como o Brasil, não extradita seus cidadãos. Figura controversa, ele foi um apoiador da campanha da presidente Grabar-Kitarovic, financiando e promovendo jantares em favor dela. A presidente alega que não conhecia as práticas criminosas do dirigente. Modric também foi condenado por perjúrio justamente pelo processo contra Mamic, onde ele mudou o depoimento para não prejudicar o dirigente. Seu julgamento será após a Copa. Certamente como destaque do time croata e do país. Talvez como campeão.

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Desilusão no país, esperança no futebol

Torcedores comemoram em Zabreb, na Croácia (Photo by Srdjan Stevanovic/Getty Images)

Tudo isso está ligado. O sentimento nacionalista croata é muito ligado ao futebol e isso ficou evidente na campanha de 1998. A empolgação com o que fez o time na Copa do Mundo de 1998, na França, causou uma enorme euforia no país. Era uma empolgação com o país, que estava batendo às portas de entrar na União Europeia. A campanha na França servia como uma propaganda do país, um símbolo de união que faria a Croácia integrar a comunidade europeia – algo que só aconteceu em 2013, aliás, depois de se candidatar oficialmente em 2003.

O clima de empolgação não é o mesmo em 2018. Se há 20 anos o olhar era para o futuro, agora se volta ao passado. Naquela campanha, a promessa era de um futuro de estabilidade e prosperidade econômica. A esperança era parte da política, tanto quanto era do time. Mas esse futuro nunca chegou e a desilusão tomou conta.

Estudos mostram que muitos croatas são muito menos otimistas sobre o futuro do país e há uma enorme desconfiança da população em relação às instituições do país, políticas, judiciais e outras coisas. Há constantes conflitos entre políticos, a economia mostra poucos sinais de melhora e a imigração cresce em uma medida preocupante. Se nos anos 1990, depois da independência, o sentimento de nacionalismo emergia como uma forma de orgulho e símbolo de um sonho de país realizado, 20 anos depois a situação é bem diferente. A Croácia de 2018 é uma nação bem mais dividida em muitas questões e o futebol não é uma exceção.

A economia e a sociedade do país vivem uma crise, com imigração em grande número e 43% de desempregados entre os jovens. Os jogadores podem sentir a sombra do confronto com a França, olhando para a derrota de 1998, mas a sombra que assola a Croácia é a de uma transição do socialismo para o capitalismo que fracassou. E, assim como tantos outros países de terceiro mundo, o futebol é a única esperança de uma vitória. É a única coisa capaz de causar uma empolgação coletiva no país. A esperança que falta na política sobra no futebol.

Manifestação de croatas no Brasil

Torcedoras da Croácia em Zabreb (Photo by Srdjan Stevanovic/Getty Images)

Com tantas rotulações sobre o fascismo croata, a Croatia Sacra Paulistana, uma associações de croatas e descendentes no Brasil, se manifestou a respeito da questão. Em um país que viveu o fascismo, há sempre muita gente alerta contra isso.

“Durante a Segunda Guerra Mundial parte dos croatas integrou um movimento de extrema direita chamado Ustasha, ao qual se atribuem diversos crimes. No entanto, a adesão o esse movimento esteve longe de ser unânime naquele período histórico e não tem aderência na sociedade croata contemporânea.

A Croácia moderna se constitui como uma sociedade democrática e constitucional, que emerge da recente Guerra Patriótica, que culminou com independência política do povo croata e com o estabelecimento do estado croata. Surgiu então uma sociedade plural e diversificada, com diversos partidos políticos de vários os prismas ideológicos, dinâmica, pujante e democrática.

Os valores patriotas são presentes em um povo antigo que respeita seus antepassados e sua tradição de luta pela liberdade política. Assim, manifestações patrióticas são comuns: os croatas amam seu país, seus símbolos nacionais, seu folclore e sua história. Os veteranos de guerra são vivos e ainda jovens, a população em geral se lembra dos sofrimentos dos anos 90.

As manifestações de orgulho nacional dos atletas croatas representam o amor pelo país que o croata tem. Assim, a alegria da vitória não se transforma em agressão ou discurso de ódio, como querem uns, que procuram borrar as conquistas croatas e nos fazer ter vergonha de nossa identidade”.

Há, portanto, um conflito nas próprias pessoas em relação ao sentimento nacionalista que vem com a Copa e com os jogadores. Em um país com esse cenário, o nacionalismo em um momento de glória esportiva se torna uma esperança, ainda que restrita a uma campanha esportiva. O histórico do ultranacionalismo e as suas ligações com o nazismo são parte da história, assim como a guerra com a Sérvia é uma cicatriz ainda muito grande em todos.

O nacionalismo, então, tem duas faces que ficam difíceis de serem distintas. Há um nacionalismo com raízes fascistas que surfa com o sucesso da seleção; mas há também o nacionalismo da legítima sensação de pertencimento e empolgação coletiva que parece pouco provável de acontecer de outra forma. Separar o que é um símbolo de orgulho croata do que é um símbolo de um nacionalismo fascista e ligado ao neonazismo é uma tarefa complicada, ainda mais diante do cenário que se coloca.

Seja diante da Rússia no episódio de “Glória à Ucrânia” de Domagoj Vida, seja contra a Sérvia, já questões que são difíceis de serem tratadas. A Rússia ajudou a financiar a Iugoslávia por anos para oprimir movimentos separatistas como o croata. A Sérvia colocou à força os croatas em uma nação que custou a vida de tanta gente e tentou manter assim mesmo sem os croatas quererem, definir o que é o fascismo de um lado do fascismo de outro é uma tarefa muito mais complexa do que determinar esquerda e direita ou colocar confortavelmente jogadores ou torcedores em uma caixinha ideológica, ainda mais relacionando com a política do Brasil ou de qualquer outro país do Ocidente.

É por tudo isso que dizer que há movimentos ultranacionalistas que usam o futebol como plataforma é verdade, mas não dá para dizer que os jogadores são fascistas por serem nacionalistas, um sentimento tão importante na identidade da Croácia. Ao tratar qualquer nacionalismo como fascista, corremos o risco de cair em um erro metonímico: tratar a parte como o todo. Entrar nesse caldeirão identitário e tentar colocar rótulos é um exercício perigoso. Assim como nem toda pessoa vestindo uma camisa da seleção brasileira na Avenida Paulista, em São Paulo, é alguém de direita e que pede intervenção militar, nem todo jogador ou torcedor que manifesta um orgulho nacionalista é um fascista. O mundo não é preto e branco. Há inúmeros tons de cinza no meio.