Tem muita gente que acessa a Trivela primordialmente porque gosta dos textos históricos que produzimos sobre futebol – ou sobre outros assuntos em que o futebol é apenas pretexto. Meios de visitar o passado e enriquecer o conhecimento que se tem da realidade ao nosso redor. Um dos grandes aliados nessa produção é a Biblioteca Nacional. O conteúdo da hemeroteca está digitalizado e acessível ao público, com milhões de periódicos disponibilizados no site da instituição. Um caminho que só foi possível graças à Fundação Biblioteca Nacional, com sua sede no Rio de Janeiro, reconhecida pela Unesco como a sétima maior biblioteca nacional do mundo. A iniciativa começa em 1810, nos desdobramentos da vinda da família real ao Brasil. Oito anos depois, surgiu o Museu Nacional, o mesmo que se perde em chamas neste domingo.

Este texto não tem pretensão de fazer acusações ou comparações quanto à negligência do poder público diante do incêndio. Há diferentes reportagens e posicionamentos pelas redes, devidamente qualificados, contundentes em relação ao tema e que se adaptam às diferentes compreensões de mundo. A intenção aqui é mesmo registrar o lamento. Imagine o tamanho do conhecimento que se esvai entre os 20 milhões de itens catalogados no Museu Nacional. São diferentes áreas que sofrem um baque imensurável e irreparável com os objetos de antropologia e história natural transformados em cinzas. A começar por Luzia, o mais antigo fóssil humano encontrado em território nacional, uma das inúmeras partes importantíssimas do Brasil (e da humanidade, considerando também peças ligadas a outros povos) que se perdem ali. Pesquisadores não terão fontes primordiais de estudos. O futuro não poderá mais descobrir no passado aquilo que desaparece no presente.

E fica a pensamento, indo além daquilo que o poder público não faz: quanto nós, como cidadãos, valorizamos os museus, centros de pesquisa ou afins ao nosso redor. Quanto nós damos atenção ao que se estuda e amplificamos a voz de quem luta pela preservação dos acervos. As visitas, por si, já são importantes. Mas raras à maioria absoluta da população.

Incêndios em instituições do tipo estão longe do ineditismo, ainda mais na última década, embora nenhum deles se equipare ao que acontece neste domingo. E se insere em uma busca pelo investimento relativamente baixo para a manutenção dos locais. Não quero propor solução A ou B, carregar de culpa Y ou Z. Mas uma situação como essa não é nova e nem se concentra em si, dentro de um contexto amplo. No momento, dói, e prevalece o lamento.

Como amantes dessa história que desaparece, aqui na Trivela sentimos profundamente o pesar. E, indo além do futebol, oferecemos o espaço democrático do site também para o debate quanto ao assunto. Com respeito e discernimento, como sempre, por favor.

– Sobre o Museu Nacional, um pouco de informação nesta matéria que resume bem o que existia por lá, publicada pela Pesquisa Fapesp.