Uma carreira no futebol que se encerra aos 26 anos quase sempre indica uma tragédia. A Marcial, a trajetória curta significa basicamente a sua escolha. Afinal, o pouco tempo atuando profissionalmente valeu passagens por três dos maiores clubes do Brasil, assim como oito jogos pela Seleção. Um dos melhores goleiros do país na década de 1960 teve tempo suficiente para protagonizar lances eternos. E, aos 26 anos, preferiu dizer um basta. Escolheu aquele que era o seu verdadeiro objetivo de vida, a medicina. Pendurou as luvas e dedicou-se às anestesias, mas ainda assim permaneceu adorado por grandes torcidas – algo que se percebe ainda mais no momento triste do adeus. Falecido nesta quinta, vitimado por um infarto aos 77 anos, o veterano recebeu homenagens de atleticanos, flamenguistas e corintianos. É a memória que fica.

Mineiro de Tupaciguara, cidadezinha de 25 mil habitantes no Triângulo Mineiro, Marcial mudou-se a Belo Horizonte e começou a carreira no amador do Sete de Setembro. Chegou ao Atlético Mineiro em 1960, aos 19 anos, juntando-se ao que na época era chamado de juvenil. Permaneceu na base alvinegra por dois anos, mas logo deixaria o futebol para se dedicar aos estudos. O arqueiro tinha passado em medicina na Universidade Federal de Minas Gerais e focaria nisso. Porém, em 1962, recebeu um convite. O técnico Antoninho o chamou para retornar ao Galo já como profissional. Garantiu que os treinamentos não atrapalhariam a rotina na faculdade. Ganhou um fenômeno para defender a meta atleticana.

Marcial passou a defender o Atlético a partir de agosto de 1962. De tão bem que se saía, começou a ser convocado por Minas Gerais no Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais. Nas semifinais, os mineiros derrotaram os paulistas que tinham Félix no gol e Oswaldo Brandão no banco. Já na decisão, desbancaram os cariocas que contavam com Castilho em sua meta, além de serem comandados por Flávio Costa. O título se consumou em 30 de janeiro de 1963. Quinze dias depois, o arqueiro ainda se tornava protagonista do Galo na conquista do Campeonato Mineiro (válido por 1962), fechando o gol nas finais contra o Cruzeiro, tricampeão estadual nos anos anteriores.

Como se o sucesso fosse insuficiente, em março o jovem ganhou sua primeira convocação à seleção brasileira. Marcial foi o titular no time de Aimoré Moreira no Sul-Americano de 1963, em um elenco alternativo, sem jogadores mais renomados do país. O arqueiro disputou as cinco primeiras partidas, mas a derrota por 3 a 0 para a Argentina custou o seu lugar, substituído pelo santista Silas nos dois últimos compromissos. O Brasil terminou com o modesto quarto lugar e a taça terminou nas mãos da anfitriã Bolívia.

A participação ruim no Sul-Americano não manchou o moral de Marcial. Primeiro, participou de uma excursão com a seleção principal à Europa, reserva de Gylmar na ocasião. Depois, às vésperas de completar 22 anos, o goleiro era especulado por grandes de Rio de Janeiro e São Paulo. O Corinthians fez uma oferta suntuosa ao Atlético, que não pôde negar. Entretanto, Marcial desejava a transferência de seu curso de medicina para a Universidade de São Paulo e o negócio emperrou. O Flamengo veio com uma proposta inferior, mas que ainda assim era a maior transação do futebol mineiro até então. Relutante, o arqueiro pediu um salário que avaliou impossível de ser pago, mas os dirigentes aceitaram. Assim, teve que trancar o curso de medicina e seguiu à Gávea. Apesar da curta passagem pelo Galo, com apenas 37 partidas acumuladas na equipe principal, foi incluído pela revista Placar na lista de 50 maiores ídolos do clube no Século XX.

Marcial chegou com o rótulo de grande reforço ao Flamengo e, depois de estrear em um amistoso contra o Ferroviário, disputou seu primeiro jogo oficial em setembro de 1963, desbancando o titular da posição, Mauro. Justamente um Fla-Flu. Ajudou os rubro-negros a segurarem o 0 a 0, na rodada final do primeiro turno do Campeonato Carioca. No entanto, seria outro clássico que marcaria a sua carreira. O camisa 1 foi um dos protagonistas na caminhada invicta no segundo turno até o reencontro com o Fluminense, em 15 de dezembro de 1963. O Fla sustentava um ponto de vantagem na liderança e, em confronto direto pela taça, dependia apenas do empate para botar a faixa no peito. Poderia reconquistar o estadual após um jejum de oito anos.

Aquele jogo seria histórico de qualquer maneira. As bilheterias do Maracanã registraram a entrada de 194.603 pessoas, sendo 177.020 pagantes. É o terceiro maior público da história do futebol, o maior em um confronto de clube. Cerca de 20% da população do Estado da Guanabara estava nas arquibancadas. Treinado por Flávio Costa, o Flamengo segurava bravamente o zero no placar, que dava o título. Até que, já aos quarenta e tantos do segundo tempo, Escurinho saiu de frente para o gol. Tinha apenas Marcial à sua frente. Tentou encobrir o arqueiro, naquele que poderia ser um gol genial. Terminou como uma das defesas mais celebradas da história rubro-negra.

Como descreveu o próprio Marcial, em entrevista ao Globo Esporte, concedida em 2012: “Houve um lance decisivo com o Escurinho. Ele tentou me encobrir, mas abortei a saída. Eu fui e voltei. Seria gol. Lembro de ver a torcida do Fluminense, lá do outro lado, já pulando para comemorar. Mas usei a inteligência. Percebi que ele ia jogar por cima, e aí voltei. A bola era marrom. Não dava para ver com tanta nitidez. Quando ela subiu, a torcida do Fluminense gritou. Mas eu agarrei. Daí peguei a bola e mostrei para a torcida do Flamengo. Você se sentia abafado. Era muita gente. Era gente se jogando uma por cima da outra”.

Ou como escreveu Nelson Rodrigues, em sua crônica publicada n’O Globo: “Mesmo que eu fosse um Drácula, teria de ser tocado por essa alegria que ensopa, que encharca, que inunda a cidade. Eu não sei se o time do Flamengo, como time, mereceu o título. Mas a imensa, a patética, a abnegada torcida rubro-negra merece muito mais. Cabe então a pergunta: – quem será o personagem da semana de um abnegado Fla-Flu tão dramático para nós? Um nome me parece obrigatório: – Marcial. E nessa escolha, está dito tudo. Quando o goleiro é a figura mais importante de um time, sabemos que o adversário jogou melhor. Castilho teve muito menos trabalho. Claro que eu não incluo, entre os méritos de Marcial, o gol que Escurinho não fez. Tão pouco falo na bomba que o mesmo Escurinho enfiou na trave. Assim mesmo Marcial andou fazendo intervenções decisivas, catando bolas quase perdidas”.

Herói de uma conquista maiúscula do Flamengo, Marcial continuou como titular no gol do clube ao longo de 1964, embora não tenha participado da excursão à Europa naquele ano. Problema maior aconteceu justamente na reta final da temporada. Ia fazendo grandes defesas na decisão do Campeonato Carioca, contra o Botafogo, mas errou no lance que garantiu a vitória por 1 a 0 aos alvinegros, rompendo o sonho do bicampeonato. Além disso, com uma lesão no cotovelo, encarou o Santos no primeiro jogo da Taça Brasil quatro dias depois e engoliu a goleada por 4 a 1. Operado, sequer atuou na partida de volta.

Marcial ainda faria mais algumas partidas pelo Flamengo em 1965, até entrar em declínio e ser substituído por Franz. Também entrou em rota de colisão com os dirigentes, voz ativa na briga pelas luvas dos jogadores. Despediu-se do clube com 93 jogos disputados e uma defesa memorável.

O interesse do Corinthians se renovou diante da falta de espaço na Gávea. E os alvinegros completariam o seu desejo de anos antes, ao contratarem o Marcial. No Parque São Jorge, o camisa 1 recuperou o seu melhor. E representaria a Seleção em uma última oportunidade, durante um amistoso contra o Arsenal em Highbury no qual os corintianos vestiram a camisa amarela. De qualquer forma, eram tempos difíceis ao clube paulista. O jejum no estadual já passava de uma década. Mesmo com Rivellino despontando no elenco, andava difícil quebrar o tabu.

Marcial, ao menos, não saiu de mãos abanando com o Corinthians. Em 1966, ele conquistou o Torneio Rio-São Paulo dividido também com Botafogo, Santos e Vasco. Permaneceu como titular até 1967, quando passou a disputar seu lugar com Barbosinha. Naquele ano, seu grande feito foi ajudar a botar água no chope do São Paulo na última rodada do Paulistão, segurando o empate por 1 a 1 que ajudou o Santos. E embora continuasse jogando com frequência, resolveu abandonar o futebol em fevereiro de 1968, aos 26 anos.

Durante as negociações pela renovação de seu contrato, o presidente Wadih Helu tentou segurá-lo, mas a pedida salarial do arqueiro era altíssima. Marcial deixava expresso o seu desejo de deixar o clube. “Para mim, o diploma de médico é mais importante. Só muito dinheiro compensaria uma espera mais prolongada”, apontou na época. Diante do interesse do Atlético Mineiro, até suspeitou-se que poderia ser uma manobra do jogador, mas de fato ele voltou à sala de aula na UFMG após cinco anos de ausência.

Marcial formou-se em 1972. Casou-se em Belo Horizonte e começou a trabalhar como médico na cidade de Pitangui, antes de retornar à capital, como anestesista em um hospital universitário. A volta ao Atlético se deu apenas como um apaixonado, que frequentava as arquibancadas do Mineirão com os filhos e até o fim da vida seguia se reunindo com os amigos para assistir aos jogos do clube. Dedicação que vale a adoração e o respeito neste adeus.