Foram cinco gols na Copa do Mundo de 2010. E mais cinco na seguinte. Aos 25 anos, Thomas Müller colocou-se em sétimo lugar na lista dos maiores artilheiros da história do Mundial. É o jogador em atividade com mais tentos marcados nessa competição, e o papo era mais sobre quando ultrapassaria o recorde do compatriota Miroslav Klose (16) do que se isso aconteceria. Após duas partidas na Rússia, o papo, agora, tem que ser outro: Müller tem que ir para o banco de reservas.

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O atacante chegou ao torneio em má fase. Não foi a sua pior temporada com a camisa do Bayern de Munique, mas chegou perto. Fez apenas oito gols na Bundesliga, contra cinco na edição de 2016/17 e muito longe das dezenas que juntou sob o comando de Pep Guardiola. Mas não dava para ignorar o seu histórico no campeonato que a Alemanha estava prestes a disputar. Müller é um leão de Copa do Mundo. Não apenas foi convocado, como disputou os 90 minutos nas duas primeiras partidas da atual campeã.

A fase do jogador, no entanto, está braba mesmo. Müller foi muito mal no primeiro jogo e pior ainda no segundo, contra a Suécia. Errou jogadas fáceis, deu cruzamentos totalmente tortos. Soltou apenas dois chutes a gol e o mesmo número de passes para finalização. Aberto pelo lado direito, não dá velocidade, não entra na área, não é um perigo. Limita-se a tabelar com Kimmich e aguarda o lateral direito definir as jogadas, com um cruzamento ou um passe para trás.

O posicionamento ideal de Müller é um grande mistério. Não tem dinâmica para ser um jogador de movimentação, nem passe para a armação (Guardiola tentou colocá-lo de meio-campo central, sem grande sucesso). Nem funciona como centroavante isolado dentro da área. Seus melhores momentos são criando espaços ou atacando-os, o que funcionava bem no Bayern de Munique treinado pelo espanhol, cujo principal dogma é tocar a bola de maneira agressiva para abrir a defesa adversária.

Com a camisa da seleção alemã, Müller foi centroavante nas quatro primeiras partidas da Copa do Mundo do Brasil e se deslocou à ponta direita, quando Miroslav Klose virou titular. Foi nessa segunda posição que atuou durante o Mundial de 2010. A questão é que, quando as engrenagens da Alemanha estão funcionando, e Müller está em boa fase, os espaços aparecem e o atacante consegue definir. Quando nenhuma dessas afirmações são verdadeiras, Müller contribui muito pouco. Ou, em termos mais brandos, há jogadores que poderiam contribuir mais.

O problema é que Löw não pensou direito nisso quando convocou a sua equipe. As alternativas para Müller são jogadores mais acostumados ao outro lado do campo, como Julian Draxler, Marco Reus e Julian Brandt. Todos podem substituir Müller, mas seriam improvisações. Uma alternativa poderia ser adiantar Joshua Kimmich, mas o treinador abriria mão do ótimo apoio do lateral direito chegando por trás, um dos poucos pontos positivos do ataque alemão na Rússia. A melhor opção, acredito, seria Mesut Özil cortando para o meio, puxando a bola para a sua perna esquerda e abrindo o corredor para Kimmich.

Müller é um grande jogador em má fase técnica. E, em uma combinação das suas características peculiares com a dificuldade que todas as seleções estão enfrentando para furar defesas neste Mundial, também não ajuda muito taticamente. Löw precisa mudar. Precisando vencer a Coreia do Sul a qualquer custo para avançar às oitavas de final, a Alemanha pode pagar se insistir com Müller.