O aumento no número de estrangeiros que podem figurar em cada clube da Arábia Saudita causou um impacto direto no Brasileirão. Com o dinheiro jorrando e o governo local vendo uma oportunidade de aumentar sua visibilidade através do esporte, os brasileiros se tornaram os preferidos de diversas equipes, sobretudo as coadjuvantes do Campeonato Saudita. São nada menos que 41 tupiniquins na temporada que se iniciará nesta quinta – 27% a mais que na temporada passada e 30% do total de estrangeiros na liga. Fábio Carille, levado ao ascendente Al-Wehda, é o único técnico. Já o recorde de brasileiros está no Al-Battin, com cinco atletas entre os oito extracomunitários – entre eles Baraka. De qualquer forma, em meio às apostas, dá para dizer que o nível do torneio sobe como um todo. Afinal, os sauditas também surfaram na Copa do Mundo e levaram jogadores relevantes aos seus principais clubes.

Os times sauditas investiram €120 milhões em reforços nesta janela de transferências. É o sétimo maior valor do planeta, atrás apenas das cinco grandes ligas da Europa e da Championship. Na temporada passada, por exemplo, este valor não passou dos €38,7 milhões, que já havia sido o recorde anterior. Seria preciso somar as despesas dos clubes nos cinco anos anteriores para se equiparar ao que aconteceu em 2018/19. Príncipe herdeiro do país, Mohammed bin Salman vem realizando uma série de modernizações e possui um plano de diversificar a economia saudita até 2030. O esporte está incluído entre suas metas, sobretudo o futebol. Clubes se tornaram privatizados para receber o financiamento do estado e, através da companhia nacional de petróleo, parte de suas fontes de riqueza serão redirecionadas ao desenvolvimento do Campeonato Saudita.

“Nos últimos quatro ou cinco anos, a Arábia Saudita começou a confrontar a realidade do futuro indo além do petróleo. Decidiu-se investir no esporte. Os sauditas observaram como, por meio do esporte, o Catar subiu para uma posição política global que simplesmente nunca se imaginou e pretende traçar o mesmo caminho”, aponta Simon Chadwick, da Universidade de Salford, ao Inews. Se a Copa do Mundo de 2022 é um impulso aos catarianos, assim como o Paris Saint-Germain, enquanto os emiratenses se elevam pelo Manchester City e por diversos patrocínios, os sauditas miram uma estratégia mais particular através de seu campeonato e mesmo do Mundial de Clubes, que deve passar por uma reformulação em breve.

Quatro clubes lideram os investimentos: Al Ahli, Al Ittihad e Al Nassr, três dos grandes do país, e o Al Wehda, de Meca, que tenta fazer a cidade sagrada também se tornar um polo esportivo. Já o Al Hilal, grande potência nacional e clube com maior projeção continental, não gastou tanto em contratações. Em compensação, mantém uma folha salarial altíssima e aproveitou as oportunidades de mercado para trazer jogadores renomados ao seu elenco. Atual bicampeão nacional, o clube de Riade permanece como forte candidato à taça.

O jogador mais destacado do Al-Hilal neste novo momento é Bafétimbi Gomis. O centroavante vem de uma excelente temporada no Campeonato Turco, sobrando na artilharia da competição. Chega por €6 milhões. Da Europa, também vêm o zagueiro Alberto Botía e o ponta André Carrillo, emprestado pelo Benfica após ser o melhor jogador peruano na Copa do Mundo. Olho também em Omar Abdulrahman, meia emiratense famoso por sua qualidade técnica e por sua cabeleira, que chega do Al-Ain. Juntam-se a um elenco que ainda conta com o meio-campista brasileiro Carlos Eduardo, ex-Nice; o atacante sírio Omar Kharbin, eleito o jogador asiático do ano em 2017; e o goleiro omani Ali Al-Habsi, de longa experiência no futebol inglês. No banco de reservas, o comando é de Jorge Jesus, levado após a saída conturbada do Sporting.

Principal rival do Al-Hilal, o Al-Ittihad tenta se aproximar. Os aurinegros fizeram sua limpa no Brasil, buscando Valdívia, Thiago Carleto e Jonas, mas não são os principais reforços. A maior contratação é Romarinho, já aclimatado à vida no Oriente Médio, após grandes momentos com a camisa do Al-Jazira. Também levaram o veterano Karim El-Ahmadi, que estava no Feyenoord e disputou a Copa do Mundo com o Marrocos. Outra novidade é Aleksandar Pesic, artilheiro e melhor jogador do último Campeonato Sérvio, vestindo a camisa do Estrela Vermelha. O técnico é o experiente Ramón Díaz, de momentos marcantes à frente do River Plate.

Os maiores gastos vieram do Al-Nassr, e fica fácil entender o porquê. São quatro estrangeiros que disputaram a Copa do Mundo, dois deles se destacando em seleções africanas. Ahmed Musa não deu certo no Leicester, mas veio em alta após o bom retorno ao CSKA Moscou e pela atuação enorme contra a Islândia no Mundial. É o mais caro dos reforços do país, custando €16,5 milhões. Já Nordin Amrabat estava nos planos do Watford, após empréstimo ao Leganés e excelente participação na Copa, mas os ingleses não recusaram os €8,5 milhões oferecidos pelo marroquino. Além dos dois, ainda vieram o goleiro Brad Jones e o zagueiro Christian Ramos. Já entre os brasileiros, Petros e Giuliano custaram juntos €15,5 milhões. O mais caro foi o meia-atacante do Fenerbahçe, brilhando ao atuar como homem de referência, após uma boa passagem pelo Zenit. Bruno Uvini já compunha o elenco anteriormente.

E pelo Al-Ahli, dois novos jogadores são os principais responsáveis por elevarem os gastos. Souza chega do Fenerbahçe com o moral elevado pelas boas temporadas no clube. Já o cabo-verdiano Djaniny arrebentava no Santos Laguna, até se render à proposta dos sauditas. Há ainda os veteranos José Manuel Jurado e Abdallah Said, que vêm sem custos para rechear o meio-campo. Serão comandados pelo argentino Pablo Guede, que chamou a atenção dos árabes ao se destacar à frente do Colo-Colo, contratado após classificar os chilenos para os mata-matas da Copa Libertadores.

Por fim, o Al-Wehda precisou praticamente montar uma nova equipe, após subir da segunda divisão. Há vários novos jogadores sauditas, embora Fábio Carille tenha concentrado suas vagas a estrangeiros para atletas que saíram do Brasileirão. O meio-campo ganha Romulo Otero, Marcos Guilherme, Anselmo e Régis, além do turco Emre Çolak, que estava no Deportivo de La Coruña. Na defesa, Renato Chaves dá mais consistência. Já o ataque ganha a presença do centroavante Fernandão, que viveu bons momentos no Fenerbahçe.

No mais, as opções são modestas. Outra força local, o Al-Shabab não causou tanto impacto, mas trouxe Arthur Caíque e Luiz Antônio, além dos romenos Constantin Budescu e Valerica Gaman – certamente um pedido do treinador Marius Sumudica. Apodi chega ao Ohod e será interessante saber como se dará o seu rendimento ao ser treinado por Chiqui Arce. E dentre os gringos que já estavam pelas Arábias, menção honrosa ao Al-Ettifaq, que possui o goleiro argelino Raïs M’Bolhi e o centroavante tunisiano Fakhreddine Ben Youssef, que se destacaram nas Copas de 2014 e 2018, respectivamente. O único brasileiro a usar a braçadeira de capitão na liga é o baixinho Élton José, que um dia já foi visto como grande promessa no Corinthians. Há mais de uma década perambulando por clubes do Oriente Médio, com alguns retornos esporádicos ao Brasil, o meia defende o Al-Qadisiyah.

Ainda não dá para prever qual será o impacto imediato da fortuna despejada sobre o Campeonato Saudita, seja em termos de competitividade ou de visibilidade. No entanto, é possível prever um nível interessante da liga dentro do contexto asiático. Os estrangeiros levados não são tão qualificados quanto aqueles que atuam no Campeonato Chinês, mas a capacidade técnica dos atletas sauditas costuma ser bem maior. E um desdobramento possível está na própria Liga dos Campeões da Ásia. Depois do desempenho ruim nesta temporada, sem nenhum classificado às quartas de final, é de se imaginar que os representantes do país voltem mais fortes para 2019. Será uma maneira de mostrar serviço. Al-Hilal, Al-Ahli e Al-Nassr estão previamente classificados.