A Alemanha possui um histórico espetacular em Copas do Mundo. Apenas uma vez caiu na primeira fase: em 1938, época na qual o torneio era disputado apenas em mata-matas. A “anexação futebolística” da Áustria não deu certo e o Nationalelf acabou eliminado no jogo extra contra a Suíça, nas oitavas de final. Já quando a fase de grupos foi implementada, a partir de 1950, os alemães nunca caíram antes das quartas (ou, no regulamento singular de 1978, na segunda fase de grupos). Desde 1954, são quatro títulos, quatro vices, quatro campanhas até as semifinais e quatro classificações entre o quinto e o oitavo lugar. Não quer dizer, entretanto, que os germânicos são imbatíveis. As derrotas na primeira fase são comuns, mais do que as oito finais alcançadas possam sugerir. Por isso mesmo, ainda que a derrota ao México seja um baque e também um aviso, está distante de representar o fim do mundo.

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Em suas 18 Copas anteriores, a Alemanha terminou invicta em apenas duas: quando conquistou o tri em 1990 e no tetra de 2014. Em todas as outras, engoliu entre uma e duas derrotas ao longo da campanha. E cinco destas derrotas aconteceram justamente na fase de grupos – sem contar ainda o revés aos mexicanos em Moscou. O Brasil, em comparação, tem três derrotas em fases de grupos, duas em 1966 e outra em 1998. Aliás, apenas duas vezes os alemães terminaram a primeira etapa do Mundial com 100% de aproveitamento: em 1970, quando atropelaram Peru, Bulgária e Marrocos; e em 2006, diante de sua torcida, superando Costa Rica, Polônia e Equador.

A primeira derrota da Alemanha em fase de grupos é a mais emblemática. Em 1954, o sorteio não foi nada generoso com os alemães ocidentais, que não eram cabeças de chave e precisaram enfrentar a Hungria. Então, aconteceu a célebre goleada dos Mágicos Magiares por 8 a 3, com quatro gols do artilheiro Sándor Kocsis, além de dois de Nándor Hidegkuti, um de Ferenc Puskás e um de Jószef Tóth. Vale dizer, entretanto, que o técnico Sepp Herberger não escalou todos os seus titulares na partida da Basileia. Naquele Mundial, os grupos tinham quatro equipes, mas cada time enfrentava apenas dois de seus três concorrentes. Além disso, não existia critério de desempate. Mesmo com saldo de gols e “goal average” inferiores aos da Turquia, a Alemanha Ocidental ganhou o direito de disputar um jogo extra e, pela segunda vez na competição, goleou os turcos. Assegurou seu lugar nas quartas de final. Passou por Iugoslávia e Áustria nos mata-matas, até que o Milagre de Berna se concretizasse no reencontro com a Hungria, na emblemática virada por 3 a 2.

Seriam 20 anos para a Alemanha Ocidental perder novamente na fase de grupos. Outro ano de título, outro resultado famoso. Anfitriões, os alemães ocidentais já estavam matematicamente classificados após duas rodadas, ao vencerem Austrália e Chile. O terceiro jogo previa o “clássico” com os vizinhos da Alemanha Oriental. Helmut Schön escalou sua equipe principal, com mudanças pontuais do meio para frente. Ainda assim, os alemães orientais venceram por 1 a 0, graças ao gol famoso de Jürgen Sparwasser aos 32 do segundo tempo. O lance decisivo aconteceu a partir de um contra-ataque, com o atacante recebendo um lançamento no meio de três defensores ocidentais e dando uma finta antes de vencer Sepp Maier. Entretanto, há suspeitas que os donos da casa “facilitaram” o resultado para ficar na segunda colocação, fugindo assim de Brasil e Holanda no quadrangular semifinal. Terminaram com a taça, apesar das dificuldades encontradas no duelo com a Polônia.

Em 1978, a Alemanha Ocidental não perdeu na fase de grupos, mas decepcionou com o empate ante a Tunísia e sofreu a pá de cal no quadrangular semifinal, ao sucumbir à Áustria por 3 a 2, em resultado histórico aos vizinhos. Vexame mesmo aconteceu em 1982. Os alemães ocidentais estrearam contra a novata Argélia e perderam por 2 a 1. Rabah Madjer abriu o placar às Raposas do Deserto e Karl-Heinz Rummenigge empatou. No entanto, Lakhdar Belloumi retomou a vantagem logo em seguida, garantindo a façanha em Gijón. O Nationalelf se recuperou ao golear o Chile por 4 a 1, mas a classificação só saiu de maneira controversa, na rodada final.

Após dez minutos de pressão, Horst Hrubesch abriu o placar para a Alemanha contra a Áustria. Diante da vitória da Argélia no dia anterior, o resultado já era suficiente para garantir o avanço de alemães ocidentais e austríacos. Então, os dois times passaram a atuar desinteressadamente, para que o placar se mantivesse e festejassem juntos. O evidente arranjo foi amplamente criticado pelos comentaristas, inclusive nos dois países, e a torcida espanhola vaiou nas arquibancadas. Dirigentes argelinos entraram com um protesto na Fifa, mas, como as regras não tinham sido tecnicamente quebradas, a entidade não realizou qualquer investigação. Em compensação, depois disso, os jogos da rodada final da fase de grupos passaram a acontecer simultaneamente, para evitar tais combinações. A Alemanha Ocidental acabaria com o vice em 1982, derrotada pela Itália na final. Já em 2014, o reencontro entre alemães e argelinos nas oitavas de final ganhou certa conotação de revanche pela chamada “Desgraça de Gijón”.

Quatro anos depois, a quarta derrota da Alemanha na fase de grupos aconteceu em 1986. Cabeça de chave, o time treinado por Franz Beckenbauer caiu no “grupo da morte” daquela edição do Mundial. Empatou com o Uruguai, venceu a Escócia e, na rodada final, perdeu para a Dinamarca por 2 a 0. Jesper Olsen e John Eriksen anotaram os gols ao time de Sepp Piontek. Com três pontos, o Nationalelf avançou na segunda colocação. E não pode reclamar da sorte, batendo Marrocos e México nas etapas seguintes, até superar a favorita França na semifinal, antes de sucumbir à Argentina na final.

Por fim, a derrota mais recente está fresca na cabeça de muita gente. Aconteceu em 2010. A Alemanha estreou com vitória sobre a Austrália, mas perdeu para a Sérvia em seu segundo compromisso. Milan Jovanovic anotou o gol do triunfo por 1 a 0, aos 38 do primeiro tempo. Na segunda etapa, Lukas Podolski poderia ter garantido o empate, em pênalti que acabou defendido pelo goleiro Vladimir Stojkovic. Mesut Özil anotou o gol que garantiu não só a classificação, como também a primeira colocação na rodada final, ante Gana. Enquanto isso, os sérvios acabaram na lanterna, ao sofrerem a segunda derrota no torneio, para os australianos. Combinação de resultados que evitou um possível desastre, caso o time de Joachim Löw no máximo empatasse com os ganeses e os balcânicos vencessem. Na sequência do torneio, eliminaram Inglaterra e Argentina, até a queda nas semifinais.

E vale lembrar que, mesmo não sendo derrotas, há outros tropeços notáveis à Alemanha nas campanhas invictas. Em 1990, na terceira rodada da fase de grupos, os futuros tricampeões cederam a igualdade à Colômbia nos acréscimos do segundo tempo. Freddy Rincón anotou o gol simbólico aos Cafeteros, determinando o empate por 1 a 1. Já em 2014, houve o suado empate contra a Gana, que chegou a virar o placar no segundo tempo. Miroslav Klose saiu do banco e buscou o 2 a 2, no tento em que alcançou Ronaldo na artilharia histórica do torneio. Isso sem contar o empate no tempo normal ante a Argélia nas oitavas, em classificação só definida na prorrogação.

Já na Eurocopa, o retrospecto da Alemanha é bem distante do que faz na Copa do Mundo. São três eliminações na fase de grupos em 12 participações. A primeira queda precoce aconteceu em 1984, após empate com Portugal e derrota para a Espanha. Em 2000, enorme decepção aos campeões da edição anterior, lanternas na chave que também tinha Portugal, Romênia e Inglaterra. Por fim, o repeteco veio em 2004, em grupo dominado por República Tcheca e Holanda, mas no qual os alemães sequer passaram do 0 a 0 contra a Letônia. Em partes, foi o “susto” que impulsionou a mudança nas bases de investimento do esporte local.

O retrospecto, é claro, não entra em campo. E a Alemanha tem óbvios problemas a se resolver antes dos compromissos decisivos pelo Grupo F, contra Suécia e Coreia do Sul. O encontro com os suecos joga um peso imenso sobre a lentidão da defesa na recomposição e, principalmente, no potencial do ataque para quebrar as linhas de marcação adversária, o que não se viu contra o México. Mais do que repetir a história, El Tri pode ter começado a escrever uma nova história. Resta saber qual será a postura de Löw a corrigir as carências e recuperar o moral do time – o que, por exemplo, fez com êxito em 2014, mas não parece ter um ambiente tão favorável desta vez.