Desde que Alex deixou o Cruzeiro da tríplice coroa em 2004, pouca gente se deu ao trabalho de acompanhar o desenvolvimento de sua carreira na Turquia. Poucas torcidas no mundo são tão fanáticas como a turca. E o meio-campista do Fenerbahçe é hoje o maior ídolo do futebol do país.

Foi o grande nome do título nacional conquistado na última temporada, responsável por 24 dos 77 gols do time na Süper Lig, a primeira divisão turca. A temporada 2005/6 começou de forma mais infernal ainda: ele é um dos principais jogadores da Liga dos Campeões, com três gols em dois jogos, e autor de cinco gols e duas assistências nos primeiros oito jogos do campeonato turco.

Tudo isso tem um motivo: ele quer jogar a Copa do Mundo de 2006. “O Parreira já me conhece, sabe do meu potencial, como posso ajudar e que tenho condições de participar”, afirmou Alex, nesta entrevista exclusiva à Trivela, às vésperas de seu retorno à Seleção Brasileira pelas eliminatórias.

Apesar de estar ansioso com a chance de jogar seu primeiro Mundial, o meio-campista diz estar calmo e não planejar seu futuro em função da competição: “Já planejei muito meu futuro e as coisas não aconteceram”, comentou, referindo-se diretamente a sua ausência na lista de Felipão em 2002.

Na entrevista, concedida de Curitiba, na véspera de sua apresentação à Seleção, Alex falou também sobre o Fenerbahçe, o clube mais rico da Turquia.

Confira a entrevista

Você já jogou clássicos em São Paulo pelo Palmeiras e em Minas Gerais pelo Cruzeiro. Como é disputar um na Turquia?
É diferente porque eu não tenho o mesmo envolvimento que eu tinha no Brasil, onde eu acompanhava a imprensa e o que o torcedor estava sentindo. Lá é um pouco diferente, porque não entendo a língua e não consigo acompanhar o trabalho da imprensa. Dentro de campo a diferença é que no Brasil tem jogo. Lá eles colocam como fator primordial brigar, lutar e muitas vezes não sai futebol.

A pressão é a mesma lá?
É muito grande. Para muita gente o futebol é mais importante que a família, o pai e a mãe… Isso torcedor e dirigentes.

Como é jogar fora de casa em estádios como do Galatasaray ou do Besiktas?
O do Galatasaray é mais tranqüilo. Ele é pequeno e as arquibancadas mais distantes do gramado. No do Besiktas é muito complicado. Cabe muita gente e o pessoal vê o jogo em cima. Foi uma das maiores pressões que já tive contra mim.

E a torcida?
A do Besiktas é muito mal-educada. Te atacam coisas, mas não que vão te machucar. Além disso, te agridem, te xingam… Mas para mim isso não faz a menor diferença, porque não entendo nada que eles falam (risos).

Você já fala alguma coisa de turco?
Falo sim. Dá para se virar, mas não posso dizer que sou fluente. (Neste momento da entrevista, o repórter arrisca as duas únicas palavras que sabe em turco e Alex responde com palavras desconhecidas.)

O Fenerbahçe é um clube rico, mais até que o Galatasaray. Porque o time tem tanta dificuldade para ir bem na Europa comparado com eles?
Para mim isso é um mistério. Estou no meu segundo ano no clube e ele me parece muito mais organizado e ter muito mais dinheiro. A diferença é aquele time do Galatasaray com Taffarel e os romenos. Fora isso, a participação deles é pior que a nossa.

Para muita gente a Turquia foi uma surpresa na última Copa do Mundo, quando terminaram na terceira colocação. Agora, no Mundial Sub-17, foram mais uma vez semifinalistas. Eles ainda devem ser considerados zebras?
Sim, porque ainda falta muita coisa pra eles. O que os diferencia para outros países é que na base eles trabalham muito mal, mas estão levando treinadores de fora – holandeses, alemães –, que vão ajudar o futebol turco. Eles têm até bons jogadores, mas em geral chegam às equipes de cima mal trabalhados.

Dos jogadores que você conhece – seja do Fenerbahçe ou dos adversários – quem você destacaria?
Gosto de um jogador do Besiktas chamado Tümer Metin e de um do Trabzonspor que se chama Fatih Tekke.

O que aconteceu com o Rüstü Reçber, que foi o goleiro da Turquia na Copa do Mundo e hoje não é mais titular?
Ele demorou muito na negociação dele com o Barcelona e quando ele voltou o Volkan estava agarrando bem e não deu chances para ele voltar. Não teve nem como o treinador mudar.

O Volkan hoje é também titular da seleção. Ele é tão bom assim?
Acho ele muito bom goleiro, mas começou a jogar agora. Ele é novo ainda, tem 22 anos e vai crescer muito. O curioso é que os dois são do Fenerbahçe e vão para a seleção. O Volkan jogou pela seleção no período em que o Rustu estava machucado. A grande dúvida hoje é saber quem o Fatih Terim, o técnico da seleção, vai pôr para jogar, porque os dois foram chamados para o amistoso contra a Alemanha (8/outubro).

Seu contrato com o Fenerbahçe termina em 2007. Você pretende continuar na Turquia até lá ou quer seguir a carreira em outro país da Europa?
Não sei. Já planejei muito o meu futuro e as coisas não aconteceram. Vou levando no dia a dia. Se eu realmente ficar lá até 2007, aí vejo o que vou fazer.

Você está numa fase boa, foi campeão na última temporada e é o destaque no início da atual. Ninguém tentou te levar para algum outro país?
Na última janela de transferência chegaram algumas, mas nenhuma delas era boa para mim ou para o clube. Alguns clubes da Espanha, uns da Alemanha e uns de Portugal chegaram a mandar propostas, mas quando tomaram conhecimento dos valores das multas rescisórias desistiram na hora.

O Christoph Daum é tido na Alemanha como um dos melhores técnicos do país, mas ele teve problemas com envolvimento com drogas e desde 2000 nunca voltou. Como é trabalhar com ele?
Gosto muito dele. Ele tem uma maneira diferente de trabalhar em comparação ao que eu estava acostumado no Brasil, mas considero ele um bom treinador.

No que ele difere dos brasileiros?
Os treinos são completamente diferentes. No Brasil os treinadores gritam muito, chamam muito a atenção. Ele observa mais e chama a atenção apenas em alguns momentos.

Qual a influência dele na sua contratação?
Total. Antes de assinar com o Fenerbahçe, houve quase oito meses de negociação. Nesse período, falei com ele umas quatro ou cinco vezes.

Você é o grande astro do time hoje. Há algum tipo de tratamento especial para você por parte dele?
O tratamento é igual a todos. Ele tem pouca ligação com os atletas. Temos contato apenas dentro de campo, bem profissional mesmo.

Pelo seu desempenho, fica a impressão de que o esquema dele é montado em sua função. Isso acontece?
Não, não. Muito pelo contrário. Ele monta o esquema e os jogadores se encaixam nele. Ele tem dois esquemas: um com duas linhas de quatro homens e outro com quatro zagueiros e três homens de meio, comigo fazendo o papel de ligação entre meio-campo e ataque. Ele não trabalha em função de um jogador.

Sua função chega a ser parecida com aquilo que você fazia nos tempos de Palmeiras ou de Cruzeiro?
É exatamente a mesma.

E você tem algum tipo de obrigação defensiva?
As mesmas que eu tinha no Brasil: acompanhar o volante, fechar o meio quando possível. Mas nada exagerado.

O Fenerbahçe caiu no grupo considerado o mais difícil da Liga dos Campeões, ao lado de Milan, PSV e Schalke. Depois de duas rodadas, com uma vitória e uma derrota, como você vê as chances do seu time passar de fase?
Temos totais condições. São equipes fortes, é verdade, mas mostramos que temos condições de jogar de igual para igual e passar.

O elenco do Fenerbahçe é muito jovem. Você acha que isso pode de alguma maneira prejudicar as pretensões do time na LC?
Pode sim. E o elenco não só é jovem, como também reduzido. Temos poucos jogadores. Às vezes não temos nem dois times para treinar quando tem alguém contundido.

Como vocês fazem nesse caso?
Não fazemos, vamos com o que tem. O clube acha que isso está bom e não dá para ser diferente. Agora com tantos jogos – e a Copa da Turquia ainda aumentou o número de jogos – fica prejudicial.

Na entrevista que deu para o Guia Trivela da Liga dos Campeões, o Kaká comentou que um dos pontos positivos do Fenerbahçe é o estádio de vocês. Ele disse que jogar lá a pressão é muito grande. É isso mesmo?
É absurdo o que os caras fazem lá dentro. Cabem 60 mil pessoas e a gritaria dura os noventa minutos. Isso dá uma força muito grande para o nosso time.

Durante a Copa América de 1999, o Tostão escreveu uma coluna para a Folha de S.Paulo em que ele comentava que você precisava participar mais do jogo. Para ele, você tinha talento, mas era facilmente marcado. Você acha que melhorou nesse aspecto?
Muito. Eu era menino naquela época. Tinha 20, 21 anos. Aprendi muito de lá para cá. Minha movimentação é completamente diferente. Com a idade comecei a encontrar espaços que quando menino eu não conseguia.

Qual o pior tipo de marcador para você?
Para mim, aquele que é leal e vai sempre na bola. Não tem nada pior.

Quem foi o melhor marcador que você já enfrentou?
O Fabinho, que jogava no Corinthians. Era muito difícil se livrar dele.

E na Europa, em que você joga contra times como o Milan?
Aqui só tem bons jogadores. Mas é diferente, porque a gente não joga tantas vezes contra todos eles. O Fabinho não, joguei contra ele várias vezes.

O Parreira tem dado preferência nas convocações a jogadores polivalentes, que sabem tanto realizar funções ofensivas e defensivas. É o caso do Kaká, do Emerson, do Zé Roberto e do Ricardinho. Aqui no Brasil, a impressão que fica é que você se dá melhor quando não tem a obrigação de marcar. Você acha que por isso perdeu espaço na Seleção Brasileira?
Acho que não. Cada um tem uma característica, mas eu discordo muito disso que dizem que o Kaká e o Ricardinho marcam muito melhor do que eu. Em termos de composição de espaço faço a mesma coisa que eles.

Você consegue ver o motivo para o Parreira não te chamar com mais freqüência?
Vejo isso como opção técnica. Ele tem vários bons jogadores à disposição, entre os quais estou incluso, e ele faz as opções que ele acha que deve fazer.

Na sua opinião, seria possível você formar um trio de meio-campo junto com Ronaldinho e Kaká?
Seria! Precisaríamos de tempo para treinar. Independente do nome dos jogadores, dá para jogar em qualquer esquema.

Mesmo num esquema tão para a frente?
Sim, pois com jogadores ofensivos você obriga o outro time a te marcar. Se os eles tiveram uma disposição de se recompor na hora que for necessário, não vejo problema.

O fato de o campeonato turco não passar no Brasil prejudica você na Seleção?
Um pouco. Não tem a imagem, não mostra nosso trabalho. Tem um peso contra sim.

Para você, o desempenho na LC tem uma importância maior por conta dessa possibilidade de exposição?
Tem um peso bem maior do que para os outros.

O Parreira já treinou o próprio Fenerbahçe e sabe dessas dificuldades de visibilidade. Desde que chegou aí, você já conversou alguma vez com ele?
Conversei muito com ele, com o Moracy e com o Jairo Leal (auxiliar do treinador) antes de assinar contrato. Eles me avisaram para eu me preparar porque seria muito difícil jogar lá, mas que podia ir tranqüilo, pois trata-se de um campeonato competitivo e estariam acompanhando.

E você sabe se o Parreira mantém contato com alguém aí para saber como você está?
Não sei se com a comissão técnica, mas tem dois ou três dirigentes aqui da época dele que dizem estar sempre em contato com ele. Só é difícil saber se é verdade, se é mentira ou se estão falando isso só pra me agradar.

Em outras entrevistas, você comentou ter ficado bastante decepcionado com o Luiz Felipe Scolari por não ter sido chamado para a Copa de 2002 e disse há pouco não fazer mais planos para o futuro. Desde o Mundial, você voltou a conversar com ele?
Não, nunca mais. Não tive essa oportunidade. Ele foi para Portugal e nunca mais nos encontramos.

Ficou algum tipo de mágoa?
Hoje não mais. Já faz mais de três anos, mas na época da Copa do Mundo sim.

Como você vê suas chances de ir à Alemanha?
Eu diria que tenho 50% de chances. O Parreira já me conhece, sabe do meu potencial, como posso ajudar e que tenho condições de participar. É uma opinião do técnico e da comissão dele. Eu, particularmente, me considero em totais condições de estar no grupo.

Desta vez, se não for chamado, você acha que vai ficar tão decepcionado como em 2002?
Não sei. É difícil prever o sentimento, mas é diferente da outra. Aquela vez eu me dava como certo. Desta ainda tenho minhas dúvidas. O treinador é outro e não trabalhou comigo muito tempo. Se eu não for terei um sentimento de perda de novo, mas em intensidade diferente. Se o Parreira convocar para a Copa do Mundo e eu não estiver na lista, vou encarar como uma opção técnica. Por talento ou por qualidade, não me considero abaixo de nenhum dos outros jogadores.

Fotos: Agência CBF