Algumas das melhores histórias do futebol inglês são contadas em Blackburn. O extinto Blackburn Olympic se tornou o primeiro clube do norte da Inglaterra a conquistar a Copa da Inglaterra, e o primeiro formado por operários, em tempos dominados por aristocratas e estudantes de Londres. Em 1883, seu triunfo significou um rumo irreversível ao profissionalismo. Mais de um século depois, seria a vez do Blackburn Rovers impactar. Bicampeão nacional na primeira metade da década de 1910 e talvez um dos mais prejudicados pela Primeira Guerra Mundial, voltou ao topo em 1995. O título de um dono apaixonado e de um time forte, que se aproveitou da reorganização das forças na Premier League para ascender. Muito mudou nos últimos 23 anos, as gestões recentes não foram bem feitas. E se parece impossível hoje que a façanha se repita, o acesso na League One já vale a comemoração.

Quando foi rebaixado na Premier League em 2011/12, o Blackburn vinha de 11 temporadas consecutivas na elite. Era um time de meio de tabela, satisfeito quando escapava da queda com sobras, exultante quando se aproximava da briga pelas copas europeias. O declínio desta década, porém, vem em uma fórmula parecida à de outros clubes tradicionais na Inglaterra: chegada de novos donos, decisões questionáveis, mudanças de técnicos à rodo, protestos dos torcedores. Os gastos mal feitos nas janelas de transferências atrapalharam mais ainda, criando uma espiral financeira. Na Championship, os Rovers viraram um mero figurante, sequer passando da oitava colocação nestes anos, sem disputar os playoffs. E na temporada anterior, um duro golpe com a queda à League One.

Ao menos o clube soube lidar bem com a retomada. Como costumeiro, voltar da terceira para a segunda divisão, dada a diferença financeira dos times, não é tão difícil assim. E igual a outro rebaixado, o Wigan, o Blackburn não teve problemas em sua campanha na League One. Depois de um início mais inconstante, os Rovers chegaram à segunda colocação na virada dos turnos e não saíram mais. Sofreram uma mísera derrota desde 14 de outubro, assinalando a arrancada. Nas últimas semanas, aguardava-se a festa e ela veio com duas rodadas de antecedência, após a vitória sobre o Peterborough nesta terça-feira.

O escolhido para assumir o time em 2017 foi Tony Mowbray, técnico com experiências positivas à frente do West Brom e do Hibernian, mas que vinha em baixa na carreira. E embora o entra-e-sai do elenco tenha sido enorme nos últimos meses, o Blackburn ainda manteve uma espinha dorsal tarimbada. Na defesa, o capitão Charlie Mulgrew é a liderança. O meio-campo conta com Corry Evans, de temporadas frequentes na elite. Já no ataque, Danny Graham acumulou gols com facilidade. Destaque também para Amar’i Bell e Bradley Dack, novatos que apareceram na seleção da temporada da League One, o segundo eleito o melhor jogador do campeonato. Ambos contratados sem grandes custos, apresentando um novo perfil do clube, buscando alternativas no mercado além de apenas torrar dinheiro.

Importante também foi a maneira como o Blackburn voltou a se aproximar de sua torcida, durante a campanha na League One. As relações sempre foram turbulentas com o Venky’s, grupo indiano que assumiu o controle em 2010. Os torcedores organizaram protestos e boicotes, diante da falta de consistência da gestão, principalmente no aspecto financeiro – com débitos batendo a casa dos £100 milhões. A chegada de Tony Mowbray, ao menos, auxiliou a juntar os cacos. Apesar do distanciamento dos dirigentes, que recusaram uma proposta de administração conjunta com empresários locais e mantém o silêncio há mais de um ano, a energia transmitida pelo comandante cativou as arquibancadas. O comandante adaptou um time que soube jogar a League One e pegou embalo. Os questionamentos à presidência continuam, mas com alguém que lhes dê motivos a esperanças.

Os planos, por ora, são modestos. Passar longe do sofrimento na próxima temporada na Championship já seria satisfatório – considerando que virar ioiô também não é dos eventos mais raros. No entanto, o Blackburn possui uma uma base de apoio capaz de fazê-los sonhar mais, apesar dos pesares na direção. Resta saber como será esta remontagem para a segunda divisão, um ponto importante dentro desta realidade mais modesta em Ewood Park. O momento, de qualquer forma, é de comemorar. E os Rovers fizeram por merecer tal celebração.