Foram 19 rodadas, trocas na liderança e jogos surpreendentemente bons. Times que se reconstruíram e bom futebol, mesmo com times se desmanchando no meio do torneio. O Campeonato Brasileiro de 2015 teve um primeiro turno para nos animar. Ainda que não seja o campeonato de nível técnico mais alto do mundo, tem mostrado times interessantes de se assistir, com propostas de futebol atraente. São muitos os times que se enquadram nesta descrição: Atlético Mineiro, Grêmio, Fluminense, Palmeiras, Sport, São Paulo e Atlético Paranaense. Mesmo quando os times não são naturalmente ofensivos, como é o caso do líder Corinthians, o time mostra uma capacidade de jogo coletivo que é notável. E, até por isso, temos vistos muitos grandes jogos. Nem as péssimas arbitragens, que tem interferido nos resultados dos jogos, tira o brilho de um campeonato que é o melhor dos últimos anos pelo futebol apresentado.

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Os oito primeiros colocados conseguiram fazer bons jogos e demonstraram um futebol que merece ser elogiado. Mesmo alguns times da parte de baixo da tabela conseguiram fazer jogos interessantes e emocionantes. Mesmo quando não é tecnicamente brilhante, os jogos são emocionante e empolgantes. Para ficar em uma semana, Grêmio e Atlético Mineiro fizeram um jogaço. Estes dois, aliás, estão entre os times que mais fazem bons jogos. Basta lembrar o Atlético Mineiro contra o Sport e contra o São Paulo. Estes dois também têm feito excelentes jogos, como o Atlético Paranaense e Sport na Arena da Baixada, ou o São Paulo e Corinthians no Morumbi. Neste domingo, vimos um Palmeiras 4×2 Flamengo que foi excelente para se ver jogar, mesmo no calor das 11h da manhã.

O que explica esses bons jogos? Há vários fatores, mas dá para destacar alguns. Por exemplo, os times sendo armados de forma mais ousada. Levir Culpi, do vice-líder Atlético Mineiro, é um dos que melhor exemplifica isso. O Galo tem o melhor ataque do campeonato, com 33 gols marcados e um futebol sempre agressivo no ataque, que tenta se impor e corre riscos. Não por acaso, é o time com mais finalizações certas (111) e tem no seu meio-campo o jogador com maior número de passes certos, Rafael Carioca, com 1038. Os volantes normalmente são os líderes em passes certos, pela posição que ocupam e por fazerem muito mais passes curtos. Mesmo assim, é de se elogiar.

O mesmo pode se dizer de técnicos como Juan Carlos Osorio, no São Paulo, Eduardo Baptista, no Sport, Milton Mendes, no Atlético Paranaense, Marcelo Oliveira, no Palmeiras, e Roger Machado, no Grêmio. Todos eles com mentalidade de tentar um jogo, cada um à sua maneira. Mesmo Tite, que não tem um time ofensivo, consegue fazer um time que, ao seu modo, consegue ser bastante competitivo. Destes todos, é o técnico que corre menos riscos, mas é um estilo de futebol que também tem funcionado para o caso específico do Corinthians, em que o ataque não é forte.

O Brasil tem uma mentalidade absurda de troca de técnicos, tanto que já foram 16 trocas de comando em 19 rodadas. Praticamente uma por semana. Mesmo assim, muitos dos técnicos estão se arriscando com formações ousadas, tentando algo diferente. Conversando aqui na redação da Trivela, surgiu uma ideia, de Ubiratan Leal, que faz todo sentido: é o efeito do 7 a 1. Aquela derrota, acachapante como foi, traumática, nos colocou em cheque. Sabemos que o Brasil está atrás em termos táticos e, em alguns aspectos, até em termos técnicos. Talvez por isso haja mais paciência com Juan Carlos Osorio no São Paulo, que joga bem, mas por vezes não ganha, ou acaba goleado, como foi contra o Palmeiras, ou toma uma traulitada, como na última rodada, contra o Goiás, no Morumbi. É o que permite que Eduardo Baptista continue no cargo no Sport, mesmo sem conseguir uma vitória em seis rodadas. Porque o futebol, em campo, é bom. Não podemos analisar apenas os resultados e o futebol de muitos desses times entre os oito primeiros está sendo interessante e satisfatório. Mesmo times que não conseguem regularidade, como Santos e Flamengo, conseguem fazer ótimas apresentações. O Santos é um time ofensivo, mesmo estando lá na metade de baixo da tabela. É algo a se valorizar.

O fato de termos grandes jogos no Campeonato Brasileiro é um motivo a se comemorar. Os dirigentes fazem tudo que podem para não ter um campeonato forte. Não temos uma organização boa, não respeitamos datas-Fifa, temos um calendário avassalador para o físico dos jogadores, os dirigentes gastam dinheiro do que os clubes têm e fica tudo por isso mesmo. Ainda tem a malfadada janela de transferências que termina aqui dentro antes de terminar lá fora, a estúpida regra dos sete jogos para poder se transferir, além do problema com preços dos ingressos em tantos estádios. Mesmo assim, vemos um campeonato melhor em campo. E que a torcida está comparecendo mais.

O Brasileirão de 2015 tem 17.256 pessoas por partida, com 39% de ocupação dos estádios. Pensando em grandes ligas do mundo, ainda é pouco, mas comparando com o próprio Campeonato Brasileiro de anos anteriores, é a melhor média desde 2009, quando terminou com 17.807 – muito em função da arrancada do Flamengo naquele ano, culminando no título rubro-negro. Antes disso, só em 1999 houve uma média de público superior a 17 mil pessoas por jogo (17.018 naquele ano). Indo mais para trás, só em 1987 o Brasileirão teve uma média maior, com 20.877 pessoas por partida. As pessoas estarem indo mais ao estádio é um indício que o campeonato está um pouco melhor. Não é o único, nem pode ser, mas é um sinal que alguma coisa melhorou.

Temos problemas ainda sérios. A arbitragem tem interferido demais no andamento dos jogos com os cartões por reclamação sendo dados de forma excessiva e principalmente com muitos erros de arbitragem por falta de critério. As interpretações sobre mão na bola e bola na mão estão variando rodada a rodada, algo que vai tirando a credibilidade do próprio campeonato. É, talvez, o problema mais grave a ser resolvido imediatamente, pensando neste segundo turno. Porque em campo, os times tem tentado algo melhor, mais interessante. E isso é um ótimo sinal.