Por um ano, Arthur despontou como um sonho bom ao Grêmio. O garoto que surgiu como uma alternativa no elenco precisou de poucas partidas para mostrar do que era capaz. Para não sentir o peso de uma Copa Libertadores e, transformado em eixo principal da equipe, conduzir os tricolores à maior de suas ambições. Os sonhos no futebol brasileiro, todavia, costumam durar pouco. Infelizmente, acabam quando uma proposta mais vantajosa da Europa bate à porta. Uma pena a quem gostaria de apreciar um pouco mais a classe do prodígio por aqui. Melhor ao Barcelona, que encontrou um jogador que pode se casar muito bem com o estilo do clube e faz a sua aposta, incorporando o goiano já a partir da temporada 2018/19.

A venda de Arthur ao Barcelona ocupou os noticiários ao longo dos últimos meses. As atuações na conquista da Libertadores já eram suficientes para convencer qualquer um sobre os predicados do meio-campista. Sua volta após lesão e o início estrondoso no Campeonato Brasileiro referendaram estas capacidades ainda mais. Então, o negócio se oficializou nesta segunda. Os blaugranas pagarão ao Grêmio €31 milhões, com mais €9 milhões possíveis a partir de variáveis. O contrato é válido pelas próximas seis temporadas e sua cláusula de rescisão é avaliada em €400 milhões. Investimento alto, mas, a princípio, muito bem feito.

Trazido do Goiás ainda na adolescência, Arthur teve passagens pelas seleções de base depois de chegar a Porto Alegre, mas sua ascensão no Grêmio ocorreu de maneira mais vagarosa. Ganhou suas primeiras chances a partir de 2015, mas foi com Renato Portaluppi que realmente viu sua história se transformar com a camisa tricolor. O meio-campista demonstrou um senso de oportunidade imenso, mostrando o seu melhor nos primeiros minutos que ganhou em campo na Libertadores.

De início, Arthur foi utilizado como meia central, mas o dinamismo valeu para que tomasse a posição como volante. Um jogador moderno, com sua capacidade na marcação, mas destaque principalmente pelo controle do que ocorre ao seu redor. A maneira como conduz o jogo e faz muitos entrarem em seu ritmo é algo raro. Além do mais, seus passes cirúrgicos e as fintas em espaços curtos servem para quebrar marcações ferrenhas. Foi o protagonista que fez as engrenagens funcionarem na Libertadores, especialmente pelo primeiro tempo de manual que viveu na final contra o Lanús na Argentina, conduzindo os gremistas ao título. Teve muita influência no meio-campo, seja sem a bola, marcando forte a saída dos adversários, ou com ela, mandando prender e soltar. Movimentou-se, alternou o ritmo de jogo, compareceu ao ataque. Parecia tirar os adversários para tourear, em mudanças de direção que abriam clarões. Noite de gala, que exibiu o melhor do prodígio, apesar da lesão que o tirou no segundo tempo.

A contusão, aliás, custou sua participação no Mundial de Clubes, assim como no início da temporada do Grêmio. Mas bastou o retorno de Arthur para que os tricolores voltassem a apresentar o seu melhor. O jovem não sentiu a falta de ritmo, com senhoras apresentações na fase de grupos da Libertadores 2018 e também nas rodadas iniciais do Brasileirão. A certeza dos gremistas de que tinham um craque em eclosão, entretanto, era o tempo suficiente para que o Barcelona agilizasse o negócio para tirá-lo ao Camp Nou.

Ainda esperava-se que Arthur pudesse continuar no Grêmio por mais alguns meses, até o início de 2019, concluindo o Brasileiro e a busca pelo tetra da Libertadores. As saídas de Andrés Iniesta e Paulinho, contudo, aumentaram as demandas dos blaugranas sobre novos nomes ao seu meio-campo. E que a diretoria tricolor pudesse bolar uma estratégia para manter um jogador tão fundamental em seu elenco, pensando nos títulos que podem vir ainda em 2018, o Barça ativou uma cláusula de incorporação imediata para contar com o novato. Desde já, poderá se integrar ao time de Ernesto Valverde.

Como uma engenharia de obra pronta, depois do que aconteceu na Copa do Mundo de 2018, a ausência de Arthur na seleção brasileira foi ainda mais sentida. Faltou um jogador que oferecesse as suas características na faixa central do time de Tite, até por conta das lesões de Fred e Renato Augusto, que atrapalharam bastante o setor. Às vésperas de completar 22 anos, o garoto ainda tem características a desenvolver. Pode não ter sentido o peso da responsabilidade desde que ascendeu no Grêmio, mas é um talento a crescer em níveis de exigência maiores. Neste contexto, a mudança para a Espanha pode auxiliar Tite (se for mesmo o técnico) a vê-lo de outra maneira para o novo ciclo da Seleção. Ao menos uma maneira de tratar positivamente a partida de um jovem craque que certamente deslumbraria um pouco mais se ficasse no Brasileirão.

No Camp Nou, Arthur tende a ser utilizado pelo time a partir das primeiras semanas. O Barcelona deve trazer reforços para a faixa central, com os rumores apontando à possível chegada de Adrien Rabiot. Ainda assim, considerando a escassez no setor (inclusive entre opções pouco confiáveis que ficaram) e a maratona de competições, dá para o goiano servir ao menos como um reserva frequente. Entre o que se prega como estilo de jogo ideal dos blaugranas, embora não seja totalmente praticado por Ernesto Valverde, o jovem possui características essenciais para se encaixar. É um talento que, afinal, possui quebras de ritmos e passes que lembram os momentos mais marcantes do Barça.

Em Porto Alegre, fica desde já o lamento e a saudade. Na última semana, Arthur havia concedido uma coletiva de imprensa já se despedindo do clube, mas apontando que sua saída é um até logo. Segundo suas palavras, pessoalmente ele não teve interferência alguma na saída imediata, algo tratado diretamente entre os clubes, embora o Mundo Deportivo aponte que seus representantes teriam aberto mão de um milhão de euros para facilitar a transação. Fato é que a emoção do jovem ao tratar de sua saída não se esconde, perceptível na coletiva final.

“Queria agradecer a todos que torceram por mim e sempre compareceram na Arena. É um dos lugares onde mais gosto de estar, vestindo a camisa do Grêmio. O Grêmio me proporcionou muitas alegrias, é uma vida no clube, serei eternamente grato a dirigentes, funcionários, torcedores, todos. Vai ser bom para todos. E dizer um até logo, não um adeus. Mas sim um até logo. Realmente estou realizando um sonho, como realizei em vestir a camisa do Grêmio. Só tenho que agradecer. E dizer um até logo. Não será o final da minha trajetória no Grêmio, eu vou voltar. São sete anos, fico feliz de sair pela porta da frente, fico orgulhoso e feliz pela forma que tudo ocorreu, sem nada no escuro, tudo transparente. As portas estarão sempre abertas, tenho certeza”, apontou.

Arthur entra para uma lista cada vez mais longa de jogadores do futebol brasileiro que saem como projetos de ídolos, mas sem tempo suficiente para tomar de vez o coração de seus torcedores. Xodós efêmeros como Gabriel Jesus ou Vinícius Júnior, com a diferença que o meio-campista do Grêmio deixou uma memória inegavelmente duradoura, por aquilo que aconteceu na decisão da Libertadores. Vai embora com 70 jogos, seis gols, um punhado de lances encantadores, uma dose de magia, a maior das taças. O suficiente para ser adorado, mas não para preencher uma lacuna que quase todas as torcidas brasileiras compartilham.

Arthur é o sonho completo dos tricolores, pelo título que a promessa tornou real, e incompleto, por aquilo que ainda poderia realizar. A esta altura, adeus consumado e passagens compradas rumo à Catalunha, só resta aos gremistas torcerem. Torcerem para que Arthur se prove como o craque que conheceram desde cedo e que, um dia, volte como um grato filho pródigo, por aquilo que viveu na Arena. Em tempos de esperanças perdidas desde cedo no futebol brasileiro, é o ápice que muitas vezes resta neste grande hiato de ídolos aos nossos clubes – os que surgem cedo e os que voltam tarde.