O histórico de confrontos entre Real Madrid e Juventus na Liga dos Campeões guarda grandes episódios. O duelo desta temporada será o nono desde 1995/96 – incluindo neste caminho duas finais, ambas vencidas pelo Real Madrid, e outros quatro encontros em fases anteriores dos mata-matas, todos estes favoráveis à Juventus. Mas há também um passado mais antigo, no velho modelo da competição continental. Em 1986/87, os merengues superaram os bianconeri nas oitavas de final, graças a um triunfo nos pênaltis. O episódio mais notável desta época, todavia, aconteceu 25 anos antes. No primeiro Juve x Real da história dos torneios da Uefa, os gigantes fizeram um embate intenso em emoções e em confusões, que merece a lembrança.

Tanto Real Madrid quanto Juventus poderiam ser colocados na lista de favoritos ao título da Copa dos Campeões de 1961/62. Os merengues seguiam com um elenco estreladíssimo, pentacampeão continental até 1960, embora na campanha anterior tivesse caído para o Barcelona. De qualquer maneira, seguia como uma potência incontestável, até por iniciar em 1960/61 o penta do Campeonato Espanhol – ainda hoje a maior sequência da Liga, só igualada pelos próprios madridistas nos anos 1980. A Velha Senhora, enquanto isso, vinha do bicampeonato italiano, superando times não menos fantásticos de Milan e Inter. Além do mais, contava com o melhor jogador da Europa naquele momento, Omar Sívori, ganhador da Bola de Ouro em 1961.

Nas etapas anteriores da Champions 1961/62, Real Madrid e Juventus sustentaram sua força. Os espanhóis não tomaram conhecimento do húngaro Vasas na primeira fase, antes de trucidarem o dinamarquês B1913 com um placar agregado de 12 a 0 nas oitavas. Já os bianconeri passaram um pouco mais de dificuldades no primeiro desafio, em classificação apertada contra o Panathinaikos, mas comprovaram sua força ao amassarem o Partizan, anotando 2 a 1 em Belgrado e 5 a 0 em Turim. Então, os dois candidatos à taça se cruzaram nas quartas de final.

Até parecia que o Real Madrid não teria problemas para eliminar a Juventus. Dentro do Estádio Comunale de Turim, diante de 66 mil torcedores, o time de Miguel Múñoz foi mais competente. Soube anular as armas ofensivas da Velha Senhora e assinalou o triunfo aos 24 do segundo tempo. Alfredo Di Stéfano chutou forte da entrada da área e garantiu o 1 a 0 no placar. Enquanto isso, Sívori foi a grande decepção. Anulado por Pachín, só quis arrumar confusão. Brigou com o brasileiro Canário e chegou mesmo a dar uma cabeçada no marcador espanhol, em agressão que passou batida pelo árbitro.

A confiança do Real Madrid era imensa para o reencontro no Chamartín. Afinal, nunca os merengues haviam perdido em casa um jogo de Champions até então. Nunca até aquela noite, na qual a Juventus conseguiu dar o troco. Pachín fez falta e os espanhóis não conseguiram travar o meio-campo desta vez. Melhor para Sívori, que justificou sua fama ao tocar na saída do goleiro Araquistáin e determinar o triunfo por 1 a 0 aos 39 do primeiro tempo. O regulamento da época, porém, não previa prorrogação ou pênaltis para esta situação. Os dois times voltariam a se encontrar uma semana depois, em jogo extra marcado para o Parc des Princes – um estádio neutro.

Peça a peça, o Real Madrid era mais forte, especialmente do meio para frente. Naquela noite em Paris, o meio-campo foi composto por Santamaría e Pachín. Já a linha ofensiva magnífica contava com o quinteto formado por Tejada, Del Sol, Di Stéfano, Puskás e Gento. A Juventus, por sua vez, confiava principalmente na imponência de John Charles, jogando mais recuado para combater os craques madridistas. Na frente, Sívori carregava uma qualidade digna de ser temida por qualquer time no mundo. E ainda haviam nomes como Roberto Anzolin, Gianfranco Leoncini, Benito Sarti, Giancarlo Bercellino e Gino Stacchini, que formaram a espinha dorsal bianconera ao longo da década de 1960.

Quando a bola rolou, porém, o Real Madrid não demorou a sair em vantagem. Precisou de míseros 40 segundos para balançar as redes pela primeira vez. Em excelente trama coletiva, os merengues botaram a zaga adversária na roda e Di Stéfano serviu Felo, que não perdoou. Para piorar a situação da Velha Senhora, John Charles se lesionou logo aos 15 minutos, e precisou permanecer em campo, numa época na qual as substituições não eram permitidas. Ao menos os italianos conseguiram recobrar o prejuízo antes do intervalo. Sívori arrancou da intermediária e tocou com categoria para deixar tudo igual.

Apesar do preparo físico superior da Juventus, que conseguia impor a intensidade da partida, os veteranos do Real Madrid fizeram a diferença no segundo tempo. O segundo gol saiu aos 20 minutos, a partir de uma falta sofrida por Di Stéfano. Puskás cobrou no capricho e Del Sol completou dentro da área. A Juve não desistia e tinha suas melhores oportunidades concentradas em Sívori, que desperdiçou um lance claríssimo na marca do pênalti, batendo para fora. Por fim, os espanhóis arremataram a vitória por 3 a 1 aos 38. Di Stéfano encontrou Puskás na área e este, puxando a marcação, deu um passe perfeito para que Tejada marcasse. Já nos instantes derradeiros, a nota negativa ficou para Sívori, tentando marcar com a mão e dando uma entrada duríssima em Pachín, que passou minutos caído em campo, mesmo depois do apito final. O Bola de Ouro não preponderou contra as lendas madridistas.

O Real Madrid voltaria à final da Copa dos Campeões naquela temporada. Não teve problemas nas semifinais, vencendo os dois jogos contra o Standard de Liège. Já na decisão, melhor para o Benfica, em partida épica. O garoto Eusébio despontou para o mundo naquela noite em Amsterdã, assegurando a virada por 5 a 3. Os merengues precisariam esperar mais quatro anos para voltar a erguer a Orelhuda, com Paco Gento sendo o único remanescente da era dourada. E, depois, mais 28, na memorável final de 1998 contra a própria Juventus.