A rivalidade entre Fiorentina e Juventus se explica bastante pelo mercado de transferências. A temporada de 1981/82 fez a rixa explodir, com os violetas acusando um “roubo” favorável à Juve na última rodada, permitindo que os bianconeri os ultrapassassem na tabela e ficassem com o Scudetto. Mas nada supera a traumática saída de Roberto Baggio, um tanto quanto contra a sua vontade, rumo a Velha Senhora – e logo após a derrota da Viola para a Juve na final da Copa da Uefa. A venda causou revolta nas ruas de Florença e, até hoje, é ressentida pelos torcedores. Sentimento negativo que, de certa forma, voltou à tona por conta de Federico Bernardeschi. O jovem está muito distante de ser um Baggio, mas cometeu o “sacrilégio” de trocar Florença por Turim. A traição não foi perdoada no Artemio Franchi, ressoando em vaias e perseguição ao ponta, em seu retorno ao estádio. Pois a resposta de Bernardeschi veio na bola, ferindo o coração dos antigos fãs nesta sexta, na difícil vitória juventina por 2 a 0 pela Serie A.

Bernardeschi foi o principal talento que se firmou na Fiorentina durante as últimas temporadas. Tinha qualidade para fazer os torcedores sonharem, mas também para buscar patamares mais altos em sua carreira. Entretanto, decidiu escolher nesta temporada o caminho que menos apetecia aos violetas. Pouco importam os €40 milhões que entraram nos cofres de Florença – engordando a conta de outra diretoria acusada de destruir as ambições do clube, aliás. O ponta optou pela Juve e não seria perdoado por isso. Não à toa, a insatisfação nesta sexta começou desde o aquecimento, com sonoras vaias ao jovem. E a cada vez que ele pegava na bola, a partir do apito inicial, os xingamentos ecoavam.

Titular da Juventus, Bernardeschi era um protagonista óbvio no time escalado por Maximiliano Allegri. E a Velha Senhora, precisando da vitória para assumir a liderança, não demorou a mandar no jogo. Dominava a posse de bola, o que não significava chances tão claras aos bianconeri, especialmente diante da pressão dos anfitriões na marcação. As melhores chances do primeiro tempo foram da Fiorentina, inclusive a mais polêmica. Aos 18 minutos, aconteceu o lance mais discutido da partida, em que o árbitro assinalou pênalti após toque no braço de Giorgio Chiellini. Contudo, depois de três minutos de conferência no VAR, a penalidade foi anulada por impedimento – em marcação ainda assim discutível, pela disputa de bola entre Alex Sandro e Giovanni Simeone que originou a jogada.

Fato é que a Fiorentina conseguia ser mais agressiva quando partia ao ataque e ficou a um triz de comemorar. Aos 37, após fintar a marcação, Gil Dias chutou forte e esbarrou na trave. Antes do intervalo, Simeone ainda daria um susto em Gianluigi Buffon, celebrando seu 500° jogo pela Juventus na Serie A. Até aquele momento, porém, o confronto não permitia festa. Exceção feita a uma cobrança de falta de Miralem Pjanic que Marco Sportiello socou para fora, a Velha Senhora tinha sido pouco contundente.

A sorte da Juventus começou a mudar apenas no segundo tempo. Os primeiros minutos contaram com a iniciativa da Fiorentina, com Federico Chiesa incomodando. Mas aos 11, Bernardeschi aparecia para mudar a história da partida. Primeiro, o camisa 33 sofreu falta na entrada da área. E ele mesmo partiu para a cobrança. Não bateu tão bem assim na bola, mirando o canto do goleiro, mas contou com a colaboração de Sportiello, que estava mal posicionado e não se recuperou a tempo. Mesmo vaiado, o jovem não se furtou a comemorar contra o ex-clube.

Tentando recuperar o prejuízo, a Fiorentina se manteve no ataque. Chegou a acumular 70% de posse de bola e buscava o gol, mas encontrava dificuldades para conseguir superar a marcação muito bem postada da Juventus. Na melhor chance, Cyril Théréau exigiu grande defesa de Buffon com o pé. Mesmo as alterações de Stefano Pioli não surtiram tanto efeito e, com o tempo, os violetas perderam a intensidade. Assim, a Juve matou o jogo aos 40. Lançamento de Chiellini para Gonzalo Higuaín, que ganhou da marcação na corrida e bateu cruzado para vencer Sportiello. O resultado era sacramentado ali.

O ranço e a vontade não serviram de nada à Fiorentina, que permanece em sua campanha mediana na Serie A, ocupando o 11° lugar. Já a Juventus, mesmo distante de apresentar seu melhor futebol, conseguiu o resultado. Com os três pontos, chega aos 62, dois a mais que o Napoli. Assume a primeira colocação e aguarda os celestes entrarem em campo neste sábado, quando recebem a Lazio no San Paolo. Tranquilidade pertinente para os juventinos se concentrarem no duelo contra o Tottenham pela Liga dos Campeões. A partida de ida acontece na próxima terça, em Turim.