Um estádio com obras iniciadas em 2006, previstas para terminar em 2008, será sede da Copa do Mundo de 2018. Mas ainda não está pronto. A Arena Zenit, em São Petersburgo, está em obras há 11 anos, com um orçamento muito maior do que o inicial. Pesam acusações graves sobre a obra. Além do óbvio atraso, há alegações de corrupção. O pior veio nesta semana, em uma denúncia da revista norueguesa Josimar (sim, há uma revista de futebol com o nome do lateral brasileiro que brilhou na Copa de 1986): o uso de trabalho escravo de norte-coreanos, além de péssimas condições de trabalho para os trabalhadores imigrantes – que representam cerca de 50% da mão de obra dos estádios da Copa, segundo o próprio Comitê Organizador Local da Copa 2018.

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Vamos ao contexto. A Arena Zenit, em São Petersburgo, é vista como um passo importante para o Zenit. Campeão em 1984, ainda na época da União Soviética, o time só voltou a ser uma potência no país a partir de 2005. Foi quando a Gazprom, gigante do gás natural, passou a ter o controle acionário do clube. Desde então, foram quatro títulos do Campeonato Russo, além da Copa da Uefa em 2007/08.

O estádio que o time usa é o Petrovsky, com capacidade para 21.500 pessoas, construído em 1924. Foi reformado quatro vezes, sendo a última delas em 1994. O estádio não atende ao que o Zenit quer ser, então o projeto do novo estádio foi iniciado em 2006. A ideia era ter a nova casa pronta em 2008, mas a obra atrasou. O orçamento inicial de US$ 220 milhões explodiu para US$ 1,5 bilhão. Terá capacidade para 68,134 pessoas na Copa do Mundo de 2018, da qual será uma das sedes.

O aumento do custo do estádio não é por acaso. O estádio de US$ 1,5 bilhão poderia custar um terço desse valor, ou até menos que isso, segundo Dimitry Sukharev, da organização anti-corrupção da Transparência Internacional. Isso seria possível com padrões internacionais de controle de qualidade. A explicação, para ele, para o custo aumentar tanto é um só: corrupção. E mais que isso: o fato das descrições dos projetos terem sido escritas depois de serem feitas. Uma forma eficaz de fazer as contas baterem e dar um destino ao dinheiro que sumiu.

“Eu diria que 80% da nossa mão de obra consistia de trabalhadores imigrantes enquanto eu estive aqui. Alguns tinham contratos de trabalho e foram pagos conforme prometido. Mas eu ouço que muitos dos trabalhos não foram sequer pagos. Muitos contratantes desonestos estiveram envolvidos. Eu faço parte do negócio de construção há 20 anos e nunca vi algo mais caótico que a Arena Zenit”, diz o gerente de projeto, não identificado, ouvido pela Josimar.

No dia 11 de fevereiro, a Zenit Arena foi aberta, em um evento para 10 mil pessoas com música, dança e até um urso. Sim, um urso. Então o estádio está pronto? Não, ainda não está. “Mesmo o estádio não estando pronto, Putin exigiu que fosse aberto”, afirmou Sergey Kagermazov, repórter que trabalhou disfarçado e falou com a revista Josimar. Segundo ele, quatro trabalhadores morreram entre agosto e dezembro de 2016. A causa? Cair no concreto e eletrocutados.

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Construtoras e as “doações” de trabalho como presentes à cidade
Construção do estádio de São Petersburgo, do Zenit (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)

Construção do estádio de São Petersburgo, do Zenit (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)

Com os atrasos grandes na obra, no verão europeu de 2016 o vice-governador de São Petersburgo, Igor Albin, que também é um ex-ministro de Vladimir Putin, tirou a Transstroj como principal construtora da obra. Então, Albin encorajou que empresas de construção trabalhassem até o fim do ano de graça em troca de futuras obras e menos inspeções, de acordo com um gerente de projeto ouvido pela Josimar. Neste momento, faltava um ano para a Copa das Confederações, da qual o estádio será sede, e a obra já está oito anos atrasada.

Uma das empresas que atendeu ao chamado de Albin foi a Dalpiterstroj, uma empresa especializada em construir grandes apartamentos completos na região. No final de agosto, a empresa levou 60 trabalhadores norte-coreanos para trabalhar na Arena Zenit. Fizeram trabalhos de acabamento no estádio. Segundo o gerente de projeto ouvido pela Josimar, o trabalho feito pela empresa vale milhões de rublos (a moeda russa) e foi feito de graça como “um presente para a nossa linda e grande cidade”.

Segundo o empregado na obra, se as empresas não atendessem ao chamado do vice-governador, não receberiam mais nenhuma obra do governo (isso soa familiar em tempos de Lava-Jato, executivos de construtoras investigados e políticos pedindo doações para a cidade) e teriam inspeções rigorosas. Até por isso, outra empresa, Seven Suns, também apareceu no estádio para, digamos assim, colaborar com a obra. Levou 50 trabalhadores norte-coreanos.

Segundo o gerente de projetos, um intermediário ofereceu 100 trabalhadores norte-coreanos que estariam preparados para trabalhar dia e noite até o fim do ano. O preço era seis milhões de rublos (pouco mais de US$ 106 mil), sendo que quatro milhões (cerca de US$ 71 mil) seriam pagos ao governo norte-coreano e outros dois milhões (US$ 35 mil) seriam distribuídos entre a empresa e os trabalhadores. Os trabalhadores receberiam o pagamento de 600 rublos por dia (US$ 10). O gerente de projeto recusou a oferta porque já tinha trabalhadores suficientes.

O gerente de projeto entrevistado pela Josimar contra as condições que ele vê os trabalhadores norte-coreanos: trabalham dia e noite e dormem em um container, dentro da obra, em uma área cercada de cercas. Em novembro, foi noticiada a morte de um trabalhador norte-coreano do estádio. A polícia russa alegou que foi um ataque cardíaco. O gerente de projeto diz que a causa da morte – desta e das outras – foi outra. Fontes consultadas pela revista Josimar disseram que diversas organizações internacionais entraram em contato com a Fifa e expressaram suas preocupações depois da notícia da morte do trabalhador sul-coreano. A Fifa prometeu investigar. Não houve qualquer resposta depois disso.

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Trabalho escravo financiando programa nuclear?
Construção do estádio de São Petersburgo, do Zenit (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)

Construção do estádio de São Petersburgo, do Zenit (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)

O uso de trabalho norte-coreano é muito controverso em toda comunidade internacional. Algumas organizações humanitárias descrevem os norte-coreanos como escravos e reféns. Do que é pago para estes trabalhadores, cerca de 90% é tirado deles. Eles ficam sob vigilância 24 horas por dia, tanto no trabalho quanto nos containers que dormem. Alguns dos trabalhadores deixam a Coreia do Norte com contratos de trabalho de 10 anos e são explorados por seus empregadores e pelo regime norte-coreano.

É justamente o regime da Coreia do Norte o motivo de tantos trabalhadores do país serem mandados para outros lugares. Eles geram receita para o governo. Como há um boicote internacional à Coreia do Norte pelo frequente teste de armas nucleares, o governo norte-coreano fica com cada vez menos fontes de recursos. Trabalhadores fora do país ajudam a fazer entrar dinheiro no país. Segundo as Nações Unidas, este tipo de serviço gera até US$ 2 bilhões por ano à Coreia do Norte e é uma das principais receitas do governo norte-coreano.

Um dinheiro que organizações de direitos humanos denunciam que é usado para o programa de armas nucleares. Marzuki Darusman, ex-investigador especial das Nações Unidas na Coreia do Norte até 2016, descreve os trabalhadores da Coreia do Norte fora do país como escravos. Organizações humanitárias trabalham para que os países que usam a força de trabalho norte-coreana sejam responsáveis por essas violações de direitos humanos – além, evidentemente, da Coreia do Norte, que não reconhece as Nações Unidas.

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Condições subhumanas

Os relatos são assustadores. Os passaportes dos trabalhadores ao retidos por seus empregadores (prática, aliás, muito usada também no Oriente Médio). Eles sabem que, se reclamarem, haverá consequências tanto para eles quanto para as suas famílias, na Coreia do Norte. Por isso organizações de direitos humanos os descrevem como reféns. Esta é a principal diferença entre os trabalhadores imigrantes na Rússia, muitos deles de ex-repúblicas soviéticas, como Uzbequistão, Belarus, Moldova, Ucrânia e Quirguistão. Suas famílias não estão sob um governo ditatorial, sob ameaça, caso o trabalhador fuja.

Uma advogada que trabalha com casos de direitos humanos, Olga Tseitlina, atendeu a um cliente norte-coreano em 2016 que descreveu a rotina. E o relato é estarrecedor. Ele serviu 10 anos no exército do país, antes de ser mandado para trabalhar fora. No exército, apanhava de superiores. Um tratamento similar ao que ele recebia no local de trabalho, fora do país. Recebia US$ 5 por mês, o resto ia para o governo norte-coreano. Trabalhava em uma madeireira em uma floresta da Sibéria, sem dia de folga, com longas jornadas de trabalho. Davam a ele uma maça, um ovo e um pouco de arroz durante o dia. Nada mais.

No acampamento onde moravam os trabalhadores, muitos estavam sem água corrente e sem a possibilidade de sequer tomar banho. O corpo do norte-coreano tinha diversas mordidas de insetos. Piolhos eram comuns. Depois de trabalhar por três anos nestas condições, o trabalhador atendido pela advogada Tseitlina fez o que grande parte dos trabalhadores norte-coreanos fora do país fazem: fugiu. Mas teve que enfrentar a ameaça de deportação e, ao contrário da maioria, conseguiu ficar na Rússia, mas vive sob constante medo.

Esta é uma situação muito comum. O Kremlin faz pressão sobre as organizações que ajudam trabalhadores imigrantes. Em 2013, havia 10 organizações como essa. Atualmente, apenas três. Uma delas é a Cruz Vermelha, que não dá informações e nem entrevistas, mesmo solicitada pela Josimar. A estimativa é que 30 mil trabalhadores norte-coreanos trabalhem na Rússia e ao menos 100 mil tenham sido exportados como força de trabalho para países como China e Oriente Médio, além da Rússia.

As acusações de trabalho escravo não são uma novidade quando falamos de obras da Copa do Mundo. As obras para a Copa de 2022, no Catar, frequentemente são acusadas de usarem trabalho escravo, especialmente de pessoas do leste da Ásia, que chegam em condições muito parecidas com as da Coreia do Norte, com passaporte apreendido e em condições de moradia sub-humanas, sob constante vigilância e jornada de trabalho dia e noite.

São cerca de 110 trabalhadores norte-coreanos que passaram pela obra da Arena Zenit. Entre agosto e dezembro, quatro mortes. O Comitê Organizador Local da Copa 2018 diz que lamenta profundamente as mortes. O COL também não confirmou a presença de norte-coreanos nas obras do estádio de São Petersburgo, além de negar as más condições de trabalho alegadas, usando duas inspeções feitas por organizações de direitos dos trabalhadores como prova.

O COL também afirmou que tem ciência que “alguns poucos trabalhadores norte-coreanos” trabalharam nas obras do estádio de São Petersburgo e que eles fizeram “apenas trabalhos de acabamento por um curto período de tempo”. Ainda disse que cerca de 50% dos trabalhadores nas obras dos estádios da Copa são imigrantes e que para a entidade e a Fifa o respeito aos direitos humanos dos trabalhadores, independente da nacionalidade, é “muito importante”.

Não esperávamos nada diferente em relação à postura das autoridades russas. É difícil esperar também que a Fifa, que é cúmplice de tudo que temos visto no Catar e na Rússia, faça algo a respeito, mesmo que seja vistoriando de forma efetiva. Restam as organizações internacionais de direitos humanos, como a Cruz Vermelha e Anistia internacional, que podem fazer mais barulho e cobranças públicas para, no mínimo, constranger os organizadores.

É impossível ver tudo isso e não lembrar do que disse Jérôme Valcke, ex-secretário-geral da Fifa na época dos preparativos para a Copa do Mundo de 2014, quando tinha problemas com o governo brasileiro. “Vou dizer algo que é maluco, mas menos democracia às vezes é melhor para se organizar uma Copa do Mundo. Quando você tem um chefe de estado forte, que pode decidir, assim como Putin poderá ser em 2018, é mais fácil para nós organizadores do que um país como a Alemanha, onde você precisa negociar em diferentes níveis”, disse Valcke, em abril 2013. Simbólico. Passados quatro anos, Valcke caiu e foi banido do futebol por alegações de corrupção.

O triste é pensar que a Copa do Mundo, um dos maiores e mais fantásticos acontecimentos do esporte, é construída pelos braços de trabalhadores escravos. Isso é inaceitável e essas denúncias devem ser vistas e apuradas com seriedade por todas as autoridades envolvidas. Mas é Putin, não é? Não podemos esperar que algo vá ser feito.

Vale ler a reportagem da revista Josimar, em inglês.