* Parte do texto foi publicada originalmente no nosso Guia da Copa, em 7 de junho.

Cristiano Ronaldo tinha 19 anos em 2004. O aclamado prodígio encerrou sua primeira temporada com o Manchester United naquele ano, enquanto amargou o vice-campeonato da Eurocopa com a seleção portuguesa. Sete anos mais jovem, Alireza Beiranvand vivia uma realidade bastante diferente em Teerã. Mais ou menos na mesma época, o adolescente fugiu de casa. Saiu do interior do país com uma passagem só de ida para a capital. Seu intuito? Virar jogador de futebol. Sem conhecer ninguém na metrópole, chegou a dormir na rua, até ganhar a primeira oportunidade. E pouco mais de uma década depois, eis que o iraniano estava tão próximo do craque, num estádio ultramoderno, em plena Copa do Mundo. A 11 metros de distância, Cr7 encheu o pé. Beiranvand se agigantou. Aquele menino, que não tinha um teto para morar, defendeu o pênalti de um dos melhores da história. Manteve as esperanças de seu país e de tantas outras pessoas ao redor do mundo que simpatizaram com a jornada do Irã no Mundial. O sacrifício inegavelmente valeu a pena.

A história fantástica de Beiranvand começa em seu seio familiar. Afinal, essa é parte fundamental para entender sua trajetória. Ele nasceu em Sarab-e Yas, um vilarejo de pouco mais de mil habitantes, próximo à fronteira com o Iraque. Não ficaria muito por ali. Afinal, seus pais são nômades. Passavam de canto em canto a cada dia, sempre procurando grama verde para alimentar as ovelhas da família, origem da subsistência. Filho mais velho, Alireza ajudava no trabalho. A rotina seguiu assim até os 12 anos, quando os Beiranvand retornaram a Sarab-e Yas e estabeleceram moradia.

Nesta época, Alireza passou a tratar o futebol de maneira mais séria, treinando em uma equipe local. O então atacante foi para o gol e mostrou talento. O problema era enfrentar a objeção do pai, que não achava que o esporte daria futuro ao primogênito. “Meu pai não gostava de futebol e me pedia para trabalhar. Ele até mesmo rasgou minhas roupas e minhas luvas. Joguei com as mãos desprotegidas várias vezes”, contou o arqueiro, em entrevista ao Guardian. Foi quando ele decidiu fugir de casa e partir para Teerã, em busca de uma oportunidade. Com a ajuda de um parente, pegou um ônibus à capital e tentou a sorte.

Alireza estava sem dinheiro. Tão sem dinheiro que dormiu nas ruas de Teerã. Tão sem dinheiro que resolveu passar a noite na porta de um clube local, cujo técnico havia conhecido no ônibus, mas havia lhe dito que só poderia treinar se pagasse uma mensalidade. Quando acordou, na calçada fria, o adolescente estava rodeado de moedas. Imaginaram que ele fosse mendigo e, bem, o dinheiro lhe rendeu um café da manhã saboroso que não degustava há dias. Mas a maior prova de solidariedade veio, enfim, com a chance de poder mostrar o seu talento nesta equipe, o Vahdat. Não seria simples.

Durante os primeiros dias, Beiranvand dormiu na casa de um colega. Depois, o pai de outro companheiro arranjou o emprego em uma tecelagem, onde poderia passar as noites. Depois, começaria a suar num lava-jato, enquanto vivia em um quartinho no CT. Sua envergadura, aliás, o tornava bastante eficiente para lavar SUV’s. Certo dia, percebeu que o rosto do cliente não lhe era estranho. O jovem limpava o automóvel de Ali Daei, maior artilheiro da história do futebol de seleções e, claro, lenda da seleção iraniana. Os colegas de trabalho insistiram para o goleiro conversar com o ídolo e pedir ajuda em sua carreira, mas ele preferiu manter o silêncio. “Eu sabia que, se falasse com Daei, certamente ele poderia me ajudar. Mas eu estava envergonhado em falar com ele e contar sobre a minha situação”, revelou. Deixou a oportunidade passar. O centroavante, logo após se aposentar, se tornou um dos treinadores mais aclamados do futebol local.

Em 2008, após um ano no Vahdat, Alireza chamou a atenção do Naft Teerã. Tinha 16 anos e se juntou à base de um dos clubes mais importantes do país. Ainda assim, conciliava a sua luta diária. A nova equipe não lhe oferecia mais o quartinho no CT e ele precisou encontrar um novo lugar para dormir. Ganhou emprego em uma pizzaria, onde passava a noite após o expediente. Todavia, o goleiro não falou sobre a jornada dupla ao seu técnico na base do Naft. Certo dia, justamente o comandante chegou à pizzaria. O jovem tentou se esconder e não atendê-lo, mas o patrão o obrigou. Humilhado, deixou o emprego dias depois. Por um tempo, viraria gari, varrendo as ruas de Teerã.

A carreira de Beiranvand quase naufragou quando já começava a se destacar na base do Naft Teerã. Chegou a ser dispensado pelo clube, ao descobrirem que tinha se lesionado enquanto jogava com uma equipe amadora. Entretanto, logo o clube voltou atrás, reintegrado ao elenco sub-23. Quando o sonho poderia escapar de suas mãos, a carreira do goleiro deslanchou. A partir de 2011, aos 19 anos, Alireza se consolidou. Virou titular no clube e passou a ser convocado às seleções de base. Já em 2015, foi chamado por Carlos Queiroz à seleção principal pela primeira vez. Transferiu-se ao Persepolis, um dos maiores clubes do país, em 2016. Ficou nove jogos sem tomar gols nas Eliminatórias para a Copa de 2018 e acabou incluído pela Fifa na lista de melhores goleiros do mundo em 2017.

Aos 25 anos, Alireza Beiranvand viveu o ápice de seus sacrifícios na Copa do Mundo. “Eu sofri muitas dificuldades para fazer meus sonhos se realizarem, mas não tenho intenção de esquecer tudo o que passei. Isso me tornou a pessoa que sou agora”, apontou. Durante a estreia, contra Marrocos, o camisa 1 teve papel fundamental. Realizou uma boa defesa em meio à pressão do primeiro tempo e buscou uma bola no cantinho para possibilitar a vitória no segundo. Contra a Espanha, voltaria a se destacar. Estava muito seguro nas saídas pelo alto e também espalmou uma bola difícil, embora tenha ficado vendido no chute que ricocheteou em Diego Costa. Então, veio o compromisso final diante de Portugal.

Beiranvand estava inseguro durante o início da partida em Samara. Até defendeu um chute de Cristiano Ronaldo, mas soltou bolas fáceis, errou saídas pelo alto. Chegou a se desentender com Saeid Ezatolahi em lance no qual se trombaram, iniciando uma discussão. Mas, se não pôde evitar o golaço de trivela de Ricardo Quaresma, logo recobrou a sua confiança. E eis que veio o encontro com Cristiano Ronaldo, que também possui a sua história de superação, mas já era um exemplo quando o garoto nômade deixou sua casa para arriscar a sorte em Teerã. Os 11 metros que separam goleiro e atacante são suficientes para aproximar caminhos tão distintos. Desta vez, com a vibração do iraniano, que sequer deu rebote. Manteve o Irã vivo no jogo.

Durante os minutos finais, Beiranvand ainda foi importante para impulsionar o ataque do Irã. Os braços que pastorearam ovelhas, costuraram vestidos, lavaram carros, varreram ruas e, numa das principais diversões da infância, brincavam de atirar pedras o mais longe possível, passou a lançar a bola rumo à intermediária portuguesa. Alguns contragolpes nasceram assim, mas não frutificaram. Ao apito final, como outros de seus companheiros, desabou no gramado, prostrado. Reergueu-se para aplaudir a torcida.

Beiranvand é um goleiro com suas qualidade e suas limitações. Os deslizes eram preocupações antes da Copa do Mundo e se repetiram no torneio, embora não tenham custado gols ao Irã. Pelo contrário, o arqueiro termina como um dos destaques dos persas. E se sua carreira não evoluir muito além do Persepolis, o Mundial já valeu por tudo. É o torneio que pode levar anônimos ao estrelato. Que apresenta histórias além das que estamos acostumadas a ouvir. Que nos mostra quão gigante pode ser um herói como Beiranvand.