Um jogo não pode ser disputado em um determinado dia e horário por motivos de segurança. Você já ouviu esse argumento sendo usado antes? Já ouvimos tantas vezes que estamos até cansados. Cansamos também  de dizer que esse é um tipo de desculpa vazia usada por dirigentes quando lhes convém, por razões que desconfiamos ter a ver com qualquer coisa, menos segurança. Neste domingo, gravações que revelaram a forma como Julio Grondona comandava a AFA (Asociación del Fútbol Argentino) mostraram um exemplo de como fazer a mudança de jogos se escondendo, covardemente, atrás da polícia. Mais do que isso, mostraram uma relação muito próxima entre Don Julio e Alejandro Burzaco, poderoso empresário, preso na Itália pelo escândalo Fifagate. Mais do que um empresário ou executivo de uma grande empresa de marketing esportivo, Burzaco atuava como um dirigente informal da AFA. Um poder que sabemos que sabemos que existia, mas não tínhamos visto na prática.

LEIA TAMBÉM: Grondona diz que botou as mãos em jogos de Santos e Corinthians na Libertadores. O que aconteceu neles?

Não sabe quem é Alejandro Burzaco? Ele é ex-executivo da Torneos y Competencias, uma das empresas de marketing esportivo mais influentes da América do Sul, dona de direitos importantes dos principais torneios do continente, sendo o principal deles a Copa Libertadores, mas também outros como Copa América. É também uma peça-chave do Fútbol Para Todos. Ele foi um dos que tiveram a prisão decretada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e seu nome constava nos que sairiam presos do hotel de Zurique, onde estava hospedado no dia 27 de maio, em ação do FBI. Ele escapou da prisão naquele dia, fugiu para a Itália, país do qual tem cidadania. Se entregou à polícia italiana depois que a Interpol emitiu alerta mundial sobre a sua prisão. Explicamos como a sua prisão pode abrir a caixa preta da Libertadores na TV.

As gravações reveladas pelo canal argentino América neste domingo, chamadas de “As escutas da máfia do futebol argentino” trazem uma conversa de 5 de junho de 2013, envolvendo Julio Grondona, então presidente da AFA, Alejandro Burzaco, executivo da TyC, e Raúl Steinberg, chefe de imprensa da AFA. O diálogo mostra como será feita a mudança de horário de um jogo. Os interesses são escondidos por trás de uma covarde razão de segurança.

LEIA TAMBÉM: Entenda por que os Estados Unidos foram responsáveis pela prisão de dirigentes da Fifa

O diálogo trata da 17ª rodada do Torneio Final na temporada 2012/13. Primeiro, Grondona fala com Steinberg, pergunta se há algum problema com as partidas. O chefe de imprensa fala sobre San Lorenzo e Argentinos Juniors, jogo que seria disputado no fim de semana, mas os dirigentes queriam que o jogo fosse na segunda-feira. O San Lorenzo não queria. Grondona fala para usarem essa carta sobre a segurança e depois passa o telefone para Burzaco, o que mostra a proximidade enorme do principal cartola argentino com o principal executivo da TyC – e do Fútbol Para Todos.

Alejandro Burzaco: Raúl?

Steinberg: Sim, Ale…

Alejandro Burzaco: Aqui está o que você precisa para começar é que a segurança não dê segurança para sábado ou domingo, que não seja uma decisão da AFA, que não seja uma decisão tua.

Steinberg: Correto.

Alejandro Burzaco: E que passe para segunda-feira.

Steinberg: Sim, sim, com uma nota por motivos de segurança.

Alejandro Burzaco: Claro, mas que não caia nada como algo de Julio, nem da AFA, nem nada…

Steinberg: Não, está claro, está claro.

Alejandro Burzaco: E depois a Copa Argentina passará para quinta-feira.

Steinberg: Sim, sim, sim, ou a outra semana depois vemos.

Alejandro Burzaco: Ou a outra semana.

Steinberg: Sim, sim, tudo certo.

Alejandro Burzaco: Mas não deixemos rastro, porque fizemos tudo e depois…

Steinberg: Não, não, está claro, tem que haver uma nota do órgão de segurança onde você perguntar…

Alejandro Burzaco: Que diga que…

Steinberg: Ou seja, que obrigue, não que peça, que obrigue.

Alejandro Burzaco: Que diga que não pode fazer.

Steinberg: Exatamente… Sim, senhor.

Alejandro Burzaco: Tudo certo?

Steinberg: Tudo certo.

LEIA TAMBÉM: A pedido do FBI, Polícia Federal visita empresa argentina que controla Libertadores

O jogo acabou sendo disputado na segunda-feira, apesar dos protestos do San Lorenzo. Os motivos? Segurança. Isso sem consultar qualquer órgão de segurança, antes mesmo de falar com a polícia, os dirigentes decidiram que o jogo não seria disputado pelo San Lorenzo em seu estádio no fim de semana. Seria na segunda. Por razões de segurança inventadas.

O poder de Burzaco fica claro nesse episódio. Mostra que os interesses do empresário eram alinhados com Grondona. O Fifagate já tem mostrado isso, com as vendas dos direitos de TV de diversos campeonatos, além das relações e favores políticos que sabemos que acontece. Este é só um dos episódios. São diversas gravações que mostram como Grondona operava. Sua ação parece mesmo a de um personagem de filme. Ou de quadrinhos. Lembra o Rei do Crime, personagem da Marvel que ganhou destaque na série Demolidor. Torcemos para que o final seja o mesmo da série.