Um figurão é pego cometendo crime do colarinho branco, é ameaçado de ser indicado com sentenças consecutivas que o levarão a passar o resto da vida na prisão. Sabendo que ele tem informações e acesso a outros tubarões que cometem crimes, a justiça oferece a ele um acordo para colaborar com informações e atuando como espião para coletar provas, em troca de uma pena mais leve. Poderia ser o roteiro de um Law & Order ou um outro seriado ou filme policial, um roteiro, aliás, bem comum, não por acaso: 90% dos indiciados nos Estados Unidos são condenados e a grande maioria aceita se declarar culpado para colaborar com a justiça e ter penas mais leves. Foi assim que o maior escândalo da história da Fifa começou, justamente em Nova York, onde se passa o seriado Law & Order.

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O americano Chuck Blazer, ex-secretário-geral da Concacaf (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe) e ex-membro do Comitê Executivo da Fifa, é a figura central do caso. Ele aceitou coletar provas contra outros dirigentes da Fifa depois de ser indiciado por 10 crimes, incluindo suborno, lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Tudo isso poderia levar a 75 anos de prisão para o dirigente, que tem 70 anos. Chuck Blazer se declarou culpado dos crimes em 2013, em documento relevado pelas autoridades americanas no dia 3 de junho. Mas a sua colaboração com as autoridades é anterior, segundo revelou documento divulgado pela justiça nesta segunda-feira.

O acordo data de 2011, segundo já tinha revelado o jornal New York Daily News em novembro. Para não ir para a cadeia e passar o resto da vida lá, Blazer aceitou “providenciar informações verdadeiras, completas e precisas” aos promotores e “participar de atividades disfarçado de acordo com as instruções específicas dos agentes da justiça”. Além disso, Blazer ainda concordou em testemunhar em futuros julgamentos de seus ex-colegas de Fifa e devolver mais de US$ 11 milhões em impostos que ele sonegou.

Segundo o jornal, a atuação de Blazer como espião incluiu conversas com altos dirigentes da Fifa durante a Olimpíada de Londres em 2012, quando ele usava microfones escondidos para gravar suas conversas com dirigentes do alto escalão da Fifa. Segundo o documento revelado pela justiça americana, foram 19 reuniões que Blazer participou com microfones, em troca de imunidade parcial, sendo a primeira com data de 29 de dezembro de 2011.

Blazer é acusado de receber suborno e propina por diversas atividades ilegais, que vão desde receber para votar em determinado país como sedes das Copas de 1998 e 2010; venda ilegal de ingressos para as Copas de 1994 e 2002; e venda de direitos de TV e marketing para diversas edições da Copa Ouro. Vale lembrar que Blazer foi secretário-geral da Concacaf de 1990 a 2011. Entre 1997 e 2013, ele também foi membro do Comitê Executivo da Fifa. Sua colaboração como espião, conversando com dirigentes da entidade e coletando provas teria se estendido por quase dois anos.

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Isso significa que muita gente precisa estar com a barba de molho. Como parte do Comitê Executivo, ele fez parte da polêmica eleição de dezembro de 2010, quando Rússia e Catar foram escolhidos para sediar as Copas de 2018 e 2022, respectivamente. Os Estados Unidos, país de Blazer, eram concorrentes do Catar pela sede da Copa do Mundo de 2022 e eram fortes candidatos, junto à Austrália.

Blazer defendeu a candidatura americana e disse estar preocupado com as altas temperaturas que teriam que enfrentar no país do Oriente Médio. “Eu ainda sinto que o calor é um obstáculo que eles não irão superar no tempo que esperamos que eles consigam”, afirmou o dirigente logo depois da eleição. Um dos questionamentos levantados na época foi o valor gasto pela candidatura do Catar, com centenas de milhões de dólares gastos no projeto. “O Catar levou a um outro nível”, afirmou Blazer. “A questão realmente é como criar um nível de concorrência comum para os candidatos”. O Catar recebeu 14 dos 22 votos para ser a sede da Copa de 2022. O presidente da candidatura do Catar, Mohammed bin Hamad Al-Thani, membro da família real catariana, anunciou a vitória meia hora antes do envelope ser aberto por Joseph Blatter em Zurique. Para Blazer, foi um sinal que eles estavam tão confiantes dos seus votos que anunciaram antes mesmo do anúncio oficial.

Como vimos, a escolha do Catar para sede da Copa de 2022 gerou uma imensa gama de problemas para a Fifa. As denúncias foram desde a compra de votos – com Mohammed bin Hammam, ex-presidente da AFC (Confederação de Futebol da Ásia) como um articulador importante banido por corrupção quando quis se candidatar à presidência da Fifa, meses depois da escolha do Catar, seu país, como sede da Copa. Chuck Blazer, aliás, foi um dos que ajudou a derrubar Bin Hammam, que tentou comprar votos no Caribe, intermediado por Jack Warner, então presidente da Concacaf. Isso foi em 2011, justamente o ano que Blazer começou a colaborar com a justiça americana.

Como era de se esperar, aquele dia 27 de maio foi só o primeiro capítulo de uma longa saga de denúncias que ainda virão contra a Fifa. Apertem os cintos.

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