Clube a clube, este é o Guia Trivela da Premier League 2018/19

A liga mais rica. A mais veloz. Com jogos imprevisíveis e um grupo grande de times que se candidatam ao título. A Premier League entra em sua temporada 2018/19 nesta sexta-feira, mais uma vez com a promessa de ser um campeonato imperdível: a briga pelo título tende a ser mais quente, clubes grandes como Arsenal e Chelsea passam por mudanças importantes, e o meio da tabela investiu bastante para alcançar o grupo de elite. Sem falar nos promovidos Fulham e Wolverhampton que decidiram chegar à primeira divisão fazendo bastante barulho. Clube a clube, analisamos a temporada passada, as movimentações de mercado e as projeções do próximo Campeonato Inglês. 

Arsenal

Unai Emery, do Arsenal (Foto: Getty Images)

Cidade: Londres
Estádio: Emirates (60.000 pessoas)
Técnico: Unai Emery
Posição em 2017/18:
Projeção: Briga pela Champions
Principais contratações: Lucas Torreira (Sampdoria), Bernd Leno (Bayer Leverkusen), Sokratis (Borussia Dortmund), Stephan Lichtsteiner (Juventus)
Principais saídas: Jack Wilshere (West Ham), Santi Cazorla (Villarreal), Per Mertesacker (aposentou)

Com todo o respeito que sua história merece, Arséne Wenger foi embora alguns anos depois do que deveria. O trabalho que o seu sucessor precisa fazer começa com atraso. Desde que foi vice-campeão do Leicester, o Arsenal emendou dois anos fora dos quatro primeiros colocados, e a próxima temporada será a segunda seguida sem Champions League, o que significa menos dinheiro e prestígio. A comparação com a sucessão de Alex Ferguson é inescapável, pelo tempo de casa que ele e Wenger acumularam antes de pedirem seus bonés. Unai Emery tem mais capacidade que David Moyes, inegavelmente, e, ao contrário do colega escocês, não assume o atual campeão da Inglaterra. Logo, há menos expectativas e mais espaço para melhoras. Por outro lado, um time que acabou de ganhar o título é obviamente um ponto de partida melhor do que o sexto colocado da última Premier League.

Será estranho para o torcedor, mesmo o que passou a odiá-lo, não ver Wenger no banco de reservas. Emery merece um voto de confiança. Seus bons trabalhos em Valencia e Sevilla não foram miragens, embora a ambição do Paris Saint-Germain fosse maior que a sua estatura. Se os seus antecedentes de sucessos consistiram em exceder expectativas, o casamento funcionar para o Arsenal, que tem um time bom, mas, na comparação com outros da liga inglesa, terá dificuldades para voltar ao grupo dos quatro primeiros. No contexto atual, parece disputar o posto de quinta força com o Chelsea.

Pela primeira vez em muito tempo, o mercado do Arsenal correu sem grandes dramas, talvez influência da nova estrutura do clube, com o treinador mais focado nos assuntos de campo e diretores conduzindo as transferências. Os nomes são interessantes. Bernd Leno brigará com Petr Cech pela camisa 1. Sokratis e Lichtsteiner acrescentam experiência e um pouco mais de sangue para uma defesa criticada por lapsos de concentração e por ser meio mole. Lucas Torreira pinta como um talento para o futuro, mas já capaz de fazer uma boa dupla de volantes com Granit Xhaka, aliviando o fardo ao volante suíço, um dos mais talentosos colecionadores de cartões amarelos da Inglaterra.

A força do Arsenal começa nesses dois jogadores. Emery pode optar por Aaron Ramsey ao lado de um deles ou mais avançado. O ataque conta com quatro jogadores qualificados, para três posições, ou mesmo para todas, caso o espanhol utilize o 4-2-3-1. Mesut Özil tem alguns pontos a provar depois de uma Copa do Mundo em que foi muito criticado, dentro e fora de campo, e Alexandre Lacazette oscilou de desempenho em seu primeiro ano em Londres. Será a primeira temporada completa de Henrikh Mkhitaryan e Pierre-Emerick Aubameyang. O meia armênio também não foi constante, mas o gabonês rapidamente virou a principal esperança de gols do time, já com 10 em 13 partidas da Premier League.

Bournemouth 

Eddie Howe, do Bournemouth (Foto: Getty Images)

Cidade: Bournemouth
Estádio: Vitality Stadium (11.360 pessoas)
Técnico: Eddie Howe
Posição em 2017/18: 12º
Projeção: Brigar contra o rebaixamento
Principais contratações: Jefferson Lerma (Leganés), Diego Rico (Leganés), David Brooks (Sheffield United)
Principais saídas: Benik Afobe (Wolverhampton), Lewis Grabban (Nottingham Forest), Max Gradel (Toulouse)

O Bournemouth prepara-se para a sua quarta temporada na Premier League, com uma característica peculiar para clubes pequenos que alcançam tanta longevidade na elite: não é time de se defender e, na realidade, nem sabe fazer isso direito. Em três anos, sofreu 195 gols no Campeonato Inglês, média de 65 por edição. Mas compensa com um bom ataque e, principalmente, com a capacidade de resistir até o fim e arrancar resultados nos últimos minutos, uma das marcas do excelente trabalho de Eddie Howe, que assumiu o clube na terceira divisão, em 2012, e comandou uma ascensão meteórica desde então.

Pelo estilo, pela força de vontade e pela juventude do elenco, que reflete os 40 anos do seu treinador, o Bournemouth tem sido um dos mais agradáveis participantes da Premier League. Nas últimas duas temporadas, mal sofreu riscos de rebaixamentos, com direito à nona colocação, em 2016/17. A campanha passada começou mal, com quatro derrotas seguidas, mas o time se recuperou e, no fim, não terminou entre os dez primeiros pela segunda vez consecutiva apenas no saldo de gols.

A missão é o crescimento sustentável. O Bournemouth gasta pouco, uma média de aproximadamente € 40 milhões por janela desde que subiu. O atual mercado seguiu o mesmo padrão, um pouco acima, graças à contratação do meia Jefferson Lerma, do Levante, por € 28 milhões. Ele atuou nas quatro partidas da seleção colombiana na Copa do Mundo, duas como titular. Além dele, vieram apenas o lateral Diego Rico, do Leganés, e o jovem meia-atacante David Brooks, reserva do Sheffield United, na última Championship.

Brooks é um perfil recorrente nos reforços do clube: jovem, inglês e das divisões inferiores da pirâmide. Apostas como Lewis Cook, que chegou do Leeds United, em 2016, e aos 21 anos é uma das principais esperanças para o futuro. Foi campeão mundial sub-20 e já estreou na seleção principal da Inglaterra. Após começar a última temporada ao lado de Eddie Howe, no banco de reservas, Cook ganhou a posição na segunda metade e espera estourar na próxima Premier League.

Brighton 

Alireza, do Brighton (Foto: Getty Images)

Cidade: Brighton
Estádio: Amex Stadium (30.000 pessoas)
Técnico: Chris Hughton
Posição em 2017/18: 15º colocado
Projeção: Brigar contra o rebaixamento
Principais contratações: Alireza Jahanbakhsh (AZ Alkmaar), Yves Bissouma (Lille), Bernardo (RB Leipzig), Martín Montoya (Valencia), Florin Andone (Deportivo La Coruña), David Button (Fulham)
Principais saídas: Sam Baldock (Reading), Connor Goldson (Rangers), Jamie Murphy (Rangers), Tim Krul (Norwich), Steve Sdiwell (sem clube)

Para um clube centenário que disputou apenas sua quinta temporada na elite do Campeonato Inglês, garantir a permanência na Premier League a duas partidas do final foi um grande feito. Com os pés no chão, a diretoria não se desesperou com a sequência que abrigou uma única vitória em 14 rodadas entre novembro e fim de janeiro. Manteve Chris Hughton, terceiro treinador mais longevo entre as equipes da elite ao lado de Pochettino, no comando desde 2014, e conquistou seu objetivo com um gostinho especial: logo após a vitória por 1 a 0 sobre o Manchester United. Mesmo perdendo os duelos restantes, para Manchester City e Liverpool, a colocação final foi o 15º lugar, a sete pontos de distância do abatedouro. Teve até uma certa folga em termos de pontuação.

Mas o objetivo do Brighton segue sendo o mesmo: sobreviver e, com o passar do tempo, se consolidar na Premier League. Buscando estabilidade, o contrato de Hughton foi renovado por mais três temporadas no último mês de maio. A filosofia de mercado é encontrar bons negócios onde poucos estão procurando. Foi assim com Mathew Ryan, que era reserva do Valencia e foi emprestado ao Genk antes de desembarcar no Amex Stadium e defender as metas do time em todas as 38 rodadas da Premier League. Ou José Izquierdo, do Club Brugge, Davy Pröpper, do PSV, e Pascal Gross, do Ingolstadt. Não foram caros – o colombiano, a € 15 milhões, foi o que mais exigiu investimento desses – e desempenharam papéis importantes na última temporada.

O recrutamento seguiu na mesma linha. Inclusive o total de gastos, perto de € 70 milhões. As novas apostas são o lateral brasileiro Bernardo, do RB Leipzig, o lateral espanhol Montoya, ex-Valencia, o jovem meia Yves Bissouma, do Lille, e os atacantes Florin Andone, do Deportivo La Coruña, e Percy Tau, do sul-africano Mamelodi Sundowns. O grande negócio foi a chegada do iraniano Alireza Jahanbakhsh, artilheiro do último Campeonato Holandês e contratação mais cara da história do Brighton (€ 19 milhões). Junto com Jürgen Locadia, outro oriundo da Eredivisie que chegou em janeiro e ainda tenta se aclimatar à Inglaterra, a missão de Alireza é aliviar o fardo do veterano Glenn Murray, principal e quase único responsável pelos gols na temporada passada. Ele fez 12 dos 34 que o time marcou na primeira divisão inglesa, o que dá mais de um terço. Em seguida, vieram Gross, com sete, e Izquierdo, com cinco.

Burnley

Sean Dyche, do Burnley (Foto: Getty Images)

Cidade: Burnley
Estádio: Turf Moor (22.000 pessoas)
Técnico: Sean Dyche
Posição em 2017/18:
Projeção: Meio de tabela
Principais contratações: Ben Gibson (Middlesbrough), Matej Vydra (Derby County), Joe Hart (Manchester City)
Principais saídas: Dean Marney (Fleetwood Town), Chris Long (Fleetwood Town), Tom Anderson (Doncaster Rovers), Scott Arfield (Rangers)

Antes do Leicester modificar as referências de tempo e espaço da Premier League com o título de 2015/16, o que o Burnley fez na última temporada seria considerado o melhor que um clube fora do grupo dos seis mais ricos da Inglaterra poderia fazer. Ainda é porque o tipo de milagre alcançado por Claudio Ranieri e companhia acontece uma vez a cada cem anos, mas serve para o técnico Sean Dyche, o mais longevo da elite ao lado de Eddie Howe, no cargo desde 2012, adotar o discurso de que “tudo é possível” quando é questionado sobre qual será o próximo passo do seu time. Realisticamente, porém, a evolução seria ficar exatamente onde está.

O Burnley foi um clube estável de primeira divisão entre os anos cinquenta e sessenta, com direito a um título inglês no período, mas passou muito tempo nas divisões de acesso. Está prestes a disputar a quarta edição da Premier League em cinco temporadas com um crescimento estável: na primeira dessas, foi imediatamente rebaixado; na segunda, foi 16º colocado e se manteve; na terceira, pulou para a sétima posição, na prática o líder do resto da tabela, atrás apenas dos dois clubes de Manchester, Tottenham, Liverpool, Chelsea e Arsenal. Chegou a frequentar a zona de classificação da Champions League, esteve vários momentos à frente dos Gunners, venceu em Stamford Bridge e recebeu, como um merecido prêmio, vaga na próxima Liga Europa. O quanto a caminhada continental durará ainda é incerto: os ingleses passaram pelo Aberdeen e enfrentam o Istambul Basaksehir na próxima fase. Ainda haverá outra antes da fase de grupos.

Continuar ou não na Liga Europa é uma variável importante para a temporada porque Dyche gosta de trabalhar com elencos curtos e é famoso por usar o mesmo time titular o máximo de vezes possível. O Burnley teve dificuldades para contratar reforços. Levou apenas Ben Gibson, do Middlesbrough, um zagueiro para repor a saída de Michael Keane, um ano atrás, e Matej Vydra, atacante de muitos gols na Championship, mas que nunca brilhou na elite. Além disso, Joe Hart foi chamado para cobrir a posição de goleiro porque Nick Pope perderá as primeiras rodadas por causa de uma lesão, e Tom Heaton também passa por problemas físicos. São três arqueiros de seleção inglesa no mesmo elenco.

Dyche alega que está à frente de um clube financeiramente estável, mas incapaz de competir com as taxas de transferências e pedidas salariais da atualidade. Caso tenha que dividir as atenções com uma competição europeia, o desempenho na Premier League pode sofrer, e graças ao fechamento precoce da janela inglesa, quando o Burnley souber quantas partidas continentais terá que disputar até o fim do ano, não poderá mais contratar jogadores.

Seu estilo, porém, favorece uma boa campanha de mata-mata. A defesa sofreu apenas 39 gols na última Premier League, a sexta melhor marca da liga. Se o ataque foi o sexto pior, os tentos apareceram na hora certa para que o Burnley fosse o único clube além dos seis primeiros a somar mais de 50 pontos. A organização faz com que Dyche seja o técnico inglês mais prestigiado do momento, especulado em clubes como Leicester e Everton, além de nome frequente em discussões sobre o futuro da seleção inglesa. Por enquanto, ele fica no Turf Moor, depois de renovar contrato até 2022, no último mês de janeiro.

Cardiff City

Neil Warnock, do Cardiff CIty (Foto: Getty Images)

Cidade: Cardiff
Estádio: Cardiff City Stadium (33.300 pessoas)
Técnico: Neil Warnock
Posição em 2017/18: 2º na Championship
Projeção: Brigar contra o rebaixamento
Principais contratações: Josh Murphy (Norwich), Bobby Reid (Bristol City), Alex Smithies (Queens Park Rangers), Greg Cunningham (Preston North End)
Principais saídas: Ben Wilson (Bradford City), Matty Kennedy (St. Johnstone), Greg Halford (sem clube), Lee Camp (Birmingham)

Folclórico, bom de entrevista e briguento, Neil Warnock é uma lenda das divisões inferiores da Inglaterra. Sua experiência e tempo de estrada rivalizam apenas com Roy Hodgson entre os técnicos da próxima Premier League. Ao comandar o Cardiff City na improvável caminhada rumo à elite, o veterano de 70 anos conquistou o acesso pela oitava vez na carreira, que começou em 1980. Recorde no futebol inglês. O problema é o passo seguinte. Em duas das outras três vezes em que colocou um time na primeira divisão (Notts County e Sheffield United), o retorno foi imediato. Apenas o Queens Park Rangers se salvou, mas depois da sua demissão, em janeiro de 2012. O desafio com a equipe galesa não será menor.

A nota de otimismo é que Warnock já superou bastante as expectativas. Ele estava praticamente aposentado, depois de exercer o que na prática foram meros bicos nos clubes pelos quais passou desde a saída do Leeds, em 2013. Alguns meses no Crystal Palace, interino no QPR e treinador tampão no Rotherham United. Quando chegou a Gales, o Cardiff City estava na 23ª posição, a vice-lanterna da Championship. Terminou aquela temporada no meio da tabela. Na seguinte, não era favorito para o acesso, mas o alcançou mesmo assim, atropelando todo mundo com oito vitórias seguidas entre fevereiro e março – sequência positiva similar a um unicórnio na equilibrada segunda divisão inglesa.

O estilo de jogo foi rudimentar, típico do treinador inglês da velha guarda: bolas longas, entradas duras, muita correria e defesa forte, liderada pela dupla de zaga Sean Morrison e Sol Bamba, que Warnock considera melhor que Virgil Van Dijk, o zagueiro mais caro da história. A principal fonte de talento vem do Canadá: o meia Junior Hoilett, de 28 anos, marcou nove gols e deu 11 assistências na campanha do acesso. Foi o mesmo número de tento que anotou o centroavante da equipe, Kenneth Zohore, em 36 rodadas. O mercado não fez muito para melhorar as perspectivas. Foram contratados apenas jogadores da Championship. A principal esperança é Bobby Reid, que era meia e se redescobriu como atacante na temporada passada. Marcou 21 vezes pelo Bristol City, inclusive um no Manchester City, e tinha um dos gifs de gols mais legais do seu time.

Juntos, os quatro reforços do Cardiff City somam 11 partidas de Premier League em suas carreiras. Nove são de Josh Murphy, ex-Norwich, e todas elas aconteceram em um passado longínquo. Com um elenco que nem deveria ter subido, contratações de segunda mão e um treinador que nunca teve sucesso na elite, não espanta que o clube seja o principal favorito das casas de aposta para ser rebaixado. E se nada de bom acontecer em campo, pelo menos podemos esperar algumas tretas. Não foi um eufemismo chamar Warnock de briguento: ele tem uma invejável disposição para trocar farpas, inclusive com Pep Guardiola, Rafa Benítez e Mark Hughes, com os quais ele se reencontrará na Premier League.

Chelsea

Jorginho, do Chelsea (Foto: Getty Images)

Cidade: Londres
Estádio: Stamford Bridge (41.631 pessoas)
Técnico: Maurizio Sarri
Posição em 2017/18:
Projeção: Brigar por Champions League
Principais contratações: Jorginho (Napoli), Kepa Arrizabalaga (Athletic Bilbao), Mateo Kovacic (Real Madrid)
Principais saídas: Thibaut Courtois (Real Madrid), Mario Pasalic (Atalanta), Eduardo (Vitesse), Kennedy (Newcastle)

Maurizio Sarri precisa de tempo. A missão que já seria difícil o bastante de modificar drasticamente o estilo de jogo do Chelsea ficou um pouco mais complicada pela pré-temporada conturbada pela qual o clube passou. Todos sabiam que Antonio Conte seria demitido desde o fim da última Premier League, mas o italiano chegou a se reapresentar e comandar alguns treinos antes de receber a notificação oficial. Durante uma boa parte dos últimos meses, Sarri se viu na delicada posição de ainda ter contrato para treinar o Napoli, embora o treinador de fato fosse Carlo Ancelotti. O dono Roman Abramovich teve problemas com seu visto e se refugiou em Israel. Caso você ainda não esteja convencido, Thibaut Courtois foi embora, e o Real Madrid projetará uma sombra sobre Stamford Bridge até o último dia de agosto, decidindo se vale a pena ou não contratar Eden Hazard.

Logo, Sarri precisa de paciência, mas a última vez que Abramovich teve paciência deve ter sido quando fez sua fortuna com empresas de petróleo e gás durante o governo de Boris Yeltsin no seu país natal. A sua fama no futebol é de demitir treinadores por prazer. Mas seria uma contradição contratar o treinador italiano, que construiu sua reputação com um Napoli que jogava bem o futebol e brigou ponto a ponto com a Juventus pelo título italiano, e não conceder pelo menos alguns meses de carta branca para que ele implemente a sua visão.

O que Sarri fará demanda algum tempo e terá percalços no meio do caminho. O estilo dos dois treinadores que o antecederam, os pragmatismos de José Mourinho e Antonio Conte, são diametralmente opostos à vontade do italiano de ganhar entretendo. Basta pegar como exemplo a primeira temporada de Guardiola na Inglaterra. O espanhol tentou introduzir um estilo semelhante, também muito particular, e teve problemas. Na segunda campanha, conquistou a Premier League com 100 pontos. Não quer dizer que acontecerá o mesmo com o Chelsea, mas precisamos esperar um pouco para ver o que Sarri pode fazer.

A chegada de Jorginho adianta o processo. O meia brasileiro tem o DNA do jogo de Sarri completamente absorvido e será responsável por traduzi-lo para os seus companheiros dentro de campo. Orientar o que deve ser feito, do toque de bola no campo de defesa para atrair a pressão à troca de passes rápida para pegar o adversário desprevenido. Será titular absoluto do meio-campo, acompanhado de N’Golo Kanté, que embora não tenha as características preferidas do treinador, é bom demais para ser preterido. E provavelmente Kovacic, contratado do Real Madrid no negócio de Courtois.

O goleiro do Athletic Bilbao, Kepa Arrrizabalaga, assume as metas dos Blues. A grande incógnita do time está no ataque. Álvaro Morata passa por uma fase pavorosa, e Olivier Giroud não se encaixa necessariamente nesta nova maneira de jogar, nem é tão bom quanto Kanté para isso ser ignorado. Hazard, pela esquerda, e Willian, pela direita, serão jogadores importantes. Com um mercado discreto, a grande cartada de Abramovich para voltar à Champions League são as ideias de Sarri e o quão rápido elas serão desenvolvidas para colocar o Chelsea entre os quatro primeiros.

Crystal Palace

Zaha, do Crystal Palace (Foto: Getty Images)

Cidade: Londres
Estádio: Selhurst Park (25.456 pessoas)
Técnico: Roy Hodgson
Posição em 2017/18: 11º
Projeção: Brigar contra o rebaixamento
Principais contratações: Cheikhou Kouyaté (West Ham), Vicente Guaita (Getafe), Max Meyer (Schalke 04)
Principais saídas: Damien Delaney (Cork City), Yohan Cabaye (Al Nasr), Jaroslaw Jach (Rizespor), Cheong-yong Lee (sem clube), Diego Cavalieri (sem clube), Bakary Sako (sem clube), Ruben Loftus-Cheek (fim de empréstimo), Timothy Fosu-Mensah (fim de empréstimo)

O Guardian faz uma análise detalhada das finanças dos clubes da Premier League. Pelos papéis entregues pelo Crystal Palace referentes à temporada 2016/17, o gasto com salários representa 78% do seu faturamento. O ideal é que esse número seja mais próximo de 30%, embora poucos times ingleses sejam idealistas. Essa porcentagem pode estar maior no momento porque foi calculada antes da chegada definitiva de Mamadou Sakho, da última renovação de contrato da estrela da companhia, Wilfried Zaha, e da contratação do alemão Max Meyer, com vencimentos exorbitantes. Paralelamente à renovação do Selhurst Park, a mensagem para o técnico Roy Hodgson foi clara: não há dinheiro.

Além da chegada de Meyer, sem taxa de transferência, mas com alto fardo salarial, o Crystal Palace contratou apenas Cheikhou Kouyaté, do West Ham, por € 11 milhões, o goleiro Vicente Guaita, do Getafe, e Jordan Ayew, emprestado pelo Swansea. São bons nomes: Kouyaté repõe a saída de Yohan Cabaye, que saiu para o Al Nasr, dos Emirados Árabes; Meyer reforça o setor de criatividade, já bem abastecido por Zaha e Andros Townsend; Ayew vira uma opção para o ataque, junto ou no lugar de Christian Benteke; e Guaita briga com Wayne Hennessey pela primeira camisa. Contudo, servem mais para estancar a sangria do que para reforçar o time porque, além da saída de Cabaye, que jogou 31 vezes na última Premier Legue, ainda foram embora Ruben Loftus-Cheek (24 jogos) e Timothy Fosu-Mensah (21). Estavam emprestados e retornaram para seus respectivos clubes, Chelsea e Manchester United.

O principal reforço foi conseguir mais uma vez manter o seu principal jogador. Zaha voltou a ser assediado por clubes do patamar de cima da tabela, como Everton, Tottenham e Chelsea, mas acabou ficando. Ele é essencial para as pretensões dos londrinos. Na última temporada, o Palace somou zero (isso mesmo: nenhum) pontos nas nove partidas em que ele não esteve em campo. Ciente da situação, Hodgson sabe que, apesar de o seu clube se preparar para a sexta temporada seguida na elite, a missão continua sendo apenas a sobrevivência.

Principalmente porque, na última vez em que o Palace tentou dar um passo maior do que as pernas, os resultados foram catastróficos. Frank de Boer foi a busca por um futebol mais vistoso, aproveitando que o elenco tem qualidade em comparação com os colegas de meio da tabela. O holandês foi demitido após quatro rodadas sem vitória e sem marcar gol. Essa sequência horrível seria estendida para sete jogos, antes de Hodgson colocar a casa em ordem e comandar uma boa recuperação que fez o time terminar em 11º lugar. O ideal seria, na Premier League que começa na sexta-feira, não passar tantos sustos.

Everton

Richarlison, do Everton (Foto: Getty Images)

Cidade: Liverpool
Estádio: Goodison Park (39.595 pessoas)
Técnico: Marco Silva
Posição em 2017/18:
Projeção: Briga por Liga Europa
Principais contratações: Richarlison (Watford), Yerri Mina (Barcelona), Lucas Digne (Barcelona), André Gomes (Barcelona), Bernard (Shakhtar Donetsk)
Principais saídas: Davy Klaassen (Werder Bremen), Ramiro Funes Mori (Villarreal) Kevin Mirallas (Fiorentina), Henry Onyekuru (Galatasaray), Wayne Rooney (DC United), Ashley Williams (Stoke City)

Os dias de pindaíba terminaram. A situação atual é muito diferente da época em que David Moyes só podia gastar o que arrecadasse com a venda de jogadores. A chegada do dono Farhad Moshiri fez com que o Everton sonhasse com o passo à frente, depois de muitos anos de estabilidade na parte de cima da tabela, mas olhando a festa dos maiores clubes do país do lado de fora. O dinheiro, no entanto, ainda não se transformou em um time forte, o que os Toffees esperam finalmente alcançar com duas contratações: o treinador Marco Silva e o diretor de futebol Marcel Brands.

Para um clube que historicamente troca muito pouco de técnico, o fato de Silva ser o terceiro em dois anos indica que algo está errado. A escolha de Sam Allardyce para ser o intermediário entre Ronald Koeman e o português também: seu estilo mais rústico e antiquado nada tem a ver com o de seus colegas. É impossível que um mesmo elenco tenha características compatíveis com duas filosofias tão distintas. O Everton tentou contratar Silva na temporada passada, mas o Watford foi irredutível. Voltou-se para a experiência de Big Sam, que conseguiu erguer o time na tabela. No entanto, o estilo de jogo modorrento que implantou gerou diversas críticas da torcida e valeu sua demissão.

Quando teve, enfim, a oportunidade de contratar o homem que queria, não a desperdiçou. A questão é se ele é o nome correto. Embora tenha demonstrado qualidade em vários momentos da carreira, Silva também tem um histórico de problemas e de trabalhos curtos. Estabilidade seria novidade na carreira de um treinador que não ficou mais de um em nenhum dos seus últimos quatro clubes. De qualquer maneira, tem um perfil mais parecido com o de Koeman e potencial para se tornar um grande treinador da Premier League.

Para auxiliá-lo, a diretoria trouxe o diretor de futebol Marcel Brands, do PSV, pelo qual supervisionou a conquista de três títulos holandeses nas últimas quatro temporadas. Ele também trabalhou na conquista de Louis van Gaal com o AZ Alkmaar. Em Eindhoven, descobriu jogadores como Kevin Strootman, Wijnaldum, Dries Mertens e Hirving Lozano. A sua principal missão é injetar um pouco de coerência na política de mercado do Everton. A janela anterior foi desconexa, com muitos jogadores para a mesma posição (Sigurdsson, Klaassen, Rooney) e nenhum substituto para Romelu Lukaku.

A primeira ação de Brands foi aliviar a folha de pagamento. Apesar de ter sido o artilheiro do Everton na Premier League, Wayne Rooney foi dispensado. Klaassen saiu para o Werder Bremen, por metade do preço que havia sido contratado. Ashley Williams foi emprestado ao Stoke City. Com mais espaço no elenco, o clube recorreu a apostas e jogadores mais jovens do que consolidados. O principal foi Richarlison, que brilhou com Marco Silva no Watford. Outro brasileiro que chegou foi Bernard, ao fim do seu contrato com o Shakhtar Donetsk. Os Toffees também acreditam que podem revitalizar a carreira de André Gomes, que não foi bem no Barcelona.

A defesa acabou sendo a principal preocupação. Com Williams e Ramiro Funes Mori negociados, Silva não quer se ver obrigado a utilizar o veterano Phil Jagielka vezes demais. Para acompanhar Michael Keane, trouxe Yerri Mina, um dos destaques da Copa do Mundo, e acertou o empréstimo de Kurt Zouma. Lucas Digne foi outro jogador contratado pelo Barcelona, para preparar a sucessão do ídolo Leighton Baines na lateral esquerda. O ataque, porém, segue sendo um gargalo. Tirando Rooney, os três atacantes mais goleadores do time no último Campeonato Inglês foram Oumar Niasse, Cenk Tosun e Dominic Calvert-Lewin. Juntos, fizeram apenas 17 gols.

Fulham

Sessegnon, do Fulham (Foto: Getty Images)

Cidade: Londres
Estádio: Craven Cottage (25.700 pessoas)
Técnico: Slavisa Jokanovic
Posição em 2017/18: 3º na Championship
Projeção: Meio de tabela
Principais contratações: Jean Michaël Seri (Nice), Aleksandar Mitrovic (Newcastle), Alfie Mawson (Swansea), Fabri (Besiktas), André Schürrle (Borussia Dortmund), Calum Chambers (Arsenal), André Zambo Anguissa (Olympique Marseille), Sergio Rico (Sevilla), Luciano Vietto (Atlético de Madrid), Timothy Fosu-Mensah (Manchester United), Joe Bryan (Bristol City)
Principais saídas: David Button (Brighton), George Williams (Forest Green), Ryan Fredericks (West Ham), Tayo Edun (Ipswich)

A maneira como o Fulham conseguiu o acesso pode esconder o que este time pode fazer no seu retorno à Premier League. Tradicionalmente, o clube que chega à elite por meio dos playoffs é o principal favorito para ser rebaixado, mas seria um erro aplicar esta análise aos londrinos. O terceiro lugar na Championship foi um pouco circunstancial, fruto de um começo ruim de temporada. No entanto, entre a época do Natal e a penúltima rodada, foram 23 partidas de invencibilidade na segunda divisão, com um futebol de troca de passes, posse de bola e vitórias amplas. No último desafio, a equipe foi batida pelo Birmingham e acabou ficando a dois pontos do segundo lugar, ocupado pelo Cardiff City. Mas derrotou o Aston Villa, em Wembley, para encerrar o calvário de quatro anos brigando para subir.

Alguns números são interessantes. O Fulham foi o que mais trocou passes curtos na segunda divisão e o que mais marcou com bola rolando. Apenas 13 dos seus 79 gols saíram em cobranças de falta ou de pênalti. É um time que tenta jogar porque é assim que o seu treinador, o sérvio Slavisa Jokanovic, pensa futebol. É o segundo acesso à Premier League que ele consegue. Bicampeão nacional pelo Partizan, assumiu um Watford em crise – foi o quarto treinador em 37 dias – no começo da temporada 2014/15 e conseguiu alcançar o objetivo. Mas foi substituído por Quique Sánchez Flores antes de ter a oportunidade de se testar contra os melhores times da Inglaterra.

Desta vez, ninguém tira Jokanovic do banco de reservas do Fulham. Seu trabalho fez com que alguns jogadores crescessem. Aleksandar Mitrovic, por exemplo, sofria para desenvolver o seu potencial no Newcastle. Em seis meses emprestado aos londrinos, marcou 12 gols em 17 rodadas da Championship e foi contratado em definitivo. Tom Cairney nunca havia conseguido brilhar no Hull City e no Blackburn quando chegou a Craven Cottage, em 2015. Atualmente, é o capitão e o epicentro da troca de passes do Fulham. Ele próprio se descreve como o “David Silva dos pobres”.

Ninguém brilhou mais do que Ryan Sessegnon. Agora ele já tem 18 anos, mas, durante a temporada passada, ainda adolescente, foi uma ameaça constante em nova posição. O lateral esquerdo de origem foi adiantado para o lado esquerdo do meio-campo criativo e marcou 15 vezes em 46 partidas. Foi eleito o melhor jogador da Championship e tem tanta moral que provavelmente Andre Schürrle, campeão do mundo e uma das boas contratações desta janela, deve ter que atuar pelo lado direito do ataque para não incomodar o moleque.

Este é o pulo do gato. O Fulham já subiu com uma equipe arrumadinha. Mas ainda se reforçou bem no mercado de transferências, sem poupar gastos. Além de trazer Schürrle, por empréstimo de dois anos do Borussia Dortmund, e confirmar Mitrovic, ainda contratou o meia Jean Michaël Seri, do Nice. O francês de 26 anos, especulado em clubes como Barcelona e Chelsea, tem potência física e combina com o estilo de jogo de Jovanovic. Os defensores Alfie Mawson, ex-Swansea, e Calum Chambers, ex-Arsenal, reforçam a defesa, com experiência conjunta de 159 partidas de Premier League.

Não satisfeito, o clube londrino fez mais cinco negócios no fechamento da janela: o bom goleiro Sergio Rico, que se junta a Fabri na briga pela titularidade e deve vencê-la; o volante André Zambo Anguissa, do Olympique Marseille, que acabou sendo o jogador mais caro do mercado do Fulham, a € 33 milhões; Joe Bryan, lateral esquerdo ofensivo do Bristol City; Timothy Fosu-Mensah, emprestado pelo Manchester United para ser mais uma opção para a zaga; e Luciano Vietto, do Atlético de Madrid, como alternativa a Mitrovic.

Pode dar tudo errado, já vimos isso acontecer. Principalmente porque o Fulham contratou um time inteiro – dez novos jogadores, considerando que Mitrovic já fazia parte do elenco – e sempre é necessário um tempo para adaptá-los e afinar o entrosamento. Mas os londrinos parecem ter ambições além de apenas se manter na elite.

Huddersfield

David Wagner, do Huddersfield (Foto: Getty Images)

Cidade: Huddersfield
Estádio: The John Smith’s Stadium (24.426 pessoas)
Técnico: David Wagner
Posição em 2017/18: 16º
Projeção: Brigar contra o rebaixamento
Principais contratações: Terence Kongolo (Monaco), Adama Diakhaby (Monaco), Radaman Sobhi (Stoke City), Florent Hadergjonaj (Ingolstadt), Juninho Bacuna (Groningen), Jonas Lössl (Mainz), Erik Durm (Borussia Dortmund), Ben Hamer (Leicester), Isaac Mbenza (Toulouse)
Principais saídas: Tom Ince (Stoke City), Robert Green (Chelsea), Michael Hefele (Nottingham Forest)

David Wagner tinha a possibilidade de ganhar uma promoção dentro da Premier League, em clubes mais ricos, como o Leicester, mas preferiu dar uma amostra de fidelidade ao Huddersfield com um novo contrato de três anos, assinado em maio. Não poderia haver notícia melhor para o clube que pretende emplacar a terceira temporada na elite seguida, o que não acontece desde a década de cinquenta. Wagner é o coração e a alma do projeto, e sem ele, os Terriers ficariam perdidos na missão de mais uma vez evitar o rebaixamento.

Porque, com ele, já foi muito difícil. Wagner precisou ajustar o estilo de pressão no campo ofensivo que deu certo na campanha do acesso para não ser um saco de pancadas da Premier League. Com baixo orçamento, entre os menores da liga, sabiamente preferiu defender mais recuado e apostar em marcação dura e espírito de equipe. Foi suficiente para ficar quatro pontos acima da zona do rebaixamento, com empates na sequência contra Manchester City e Chelsea.

A principal missão é repetir o feito com um pouco mais de folga e um pouco mais de classe. Porque ao mesmo tempo em que conseguiu ficar dez partidas sem ser vazado (oitava marca da liga ao lado de outros quatro clubes) também terminou 21 das 38 rodadas sem colocar uma bola dentro das redes do adversário. A dificuldade de criação do Huddersfield foi tocante durante a temporada e se refletiu no pior ataque da liga (28 gols junto com o Stoke City) e na terceira menor média de chutes a gol (9,5 por partida).

Conseguindo manter seus principais jogadores, a tendência é que o Huddersfield, se mantiver a mentalidade certa, consiga dar um passo à frente, pelo menos em termos de desempenho. A janela serviu para manter alguns atletas importantes que passaram a última temporada emprestados ao clube: o goleiro Jonas Lössl, o lateral direito Florent Hadergjonaj e o defensor Terence Kongolo foram contratados em definitivo. A defesa ganhou ainda os reforços de Erik Durm, ex-Borussia Dortmund, e Juninho Bacuna, ex-Groningen. São muitos jogadores que atuam em mais de uma posição na linha defensiva, e se Wagner encontrar a formação ideal, pode se sentir confortável para soltar o seu time no ataque um pouco mais.

O principal gargalo foi o ataque. Os centroavantes Steve Mounié e Laurente Depoitre não são craques e ainda receberam poucas bolas em boas condições de finalização. Marcaram apenas sete e seis gols, respectivamente. O Huddersfield tentou reforçar o fornecimento, com as chegadas de Adam Diakhaby, do Monaco, Radaman Sobhi, do Stoke City, e Isaac Mbenza, do Toulouse. Bons nomes, mas que talvez não sejam suficientes para a revolução que o setor ofensivo dos Terriers precisa.

Leicester

Claude Puel, do Leicester (Foto: Getty Images)

Cidade: Leicester
Estádio: King Power Stadium (32.273 pessoas)
Técnico: Claude Puel
Posição em 2017/18:
Projeção: Meio de tabela
Principais contratações: James Maddison (Norwich), Ricardo Pereira (Porto), Danny Ward (Liverpool), Rachid Ghezzal (Monaco), Jonny Evans (West Brom)
Principais saídas: Riyad Mahrez (Manchester City), Ahmed Musa (Al-Nassr), Ben Hamer (Huddersfield), Robert Huth (sem clube), Aleksandar Dragovic (fim de empréstimo)

O inacreditável título inglês de 2015/16 ficou para trás, e se era necessário algo simbólico para marcar a ruptura, a saída de Riyad Mahrez para o Manchester City cumpre esse papel. Pouco a pouco, outros jogadores da equipe campeã vão sendo substituídos, e o Leicester transita para um estilo de jogo diferente. No processo, a lua de mel com a torcida também chegou ao fim, e a última temporada já foi tomada por vaias e reclamações. O principal alvo foi Claude Puel, contratado no começo da Premier League para substituir Craig Shakespeare, interino de Claudio Ranieri, e efetivo de vida curta.

O francês alcança resultados, mas nem sempre a maneira como chega a eles é muito bonita. No Southampton, havia sido criticado pelas táticas excessivamente defensivas, apesar do oitavo lugar. No Leicester, a história é parecida. A confortável nona colocação deveria ser satisfatória para um clube dos recursos das Raposas, mas houve muitas atuações fracas e sequências desesperadoras, como uma vitória em 12 rodadas a partir de dezembro e um fim de Campeonato Inglês também muito ruim. Houve especulações de que poderia ser substituído, e Marco Silva interessava. Puel acabou ficando, mas começa a temporada pressionado e entre os mais cotados para ser o primeiro técnico demitido da liga inglesa.

E o problema nem está sendo excesso de cautela porque foram 60 gols sofridos na campanha, quinta pior defesa da Premier League. É mais crise de identidade. Puel está tentando transformar o estilo de jogo característico do Leicester, de contra-ataque e aversão à bola, responsável por aquela conquista, em outro um pouco mais diferente. A posse de bola já subiu da casa dos 44% para 48%, e o total de passes médios por partida, de 350 para 400. O processo naturalmente terá percalços, principalmente porque o próprio Puel se identificaria mais com a filosofia antiga do que a nova.

Se a ideia é que o time seja mais criativo, a perda de Mahrez será bastante sentida, mas também era esperada, o que não torna mais fácil a missão de compensar a ausência de um dos melhores meias da Premier League nos últimos anos. O Leicester aposta que o segredo é o sangue argelino: trouxe Rachid Ghezzal, do Monaco, para reforçar o setor. No 4-2-3-1 favorito de Puel, ele pode atuar pela direita, com Marc Albrighton ou o jovem Demarai Gray pela esquerda, e outro reforço pelo meio. James Maddison chegou do Norwich com muita promessa, depois de 14 gols e sete assistências na última Championship.

O clube também tentou costurar a colcha de retalhos que foi a defesa na última temporada. Com as saídas do veterano Robert Huth, outro titular na conquista da Premier League que se foi, e o retorno de Aleksandar Dragovic para o Bayer Leverkusen, o setor passou por uma pequena revolução. O líder é Harry Maguire, que resistiu às abordagens do Manchester United e volta da Copa do Mundo cheio de moral. Jonny Evans foi contratado por apenas £ 3 milhões do West Brom, que meses antes recusou proposta seis vezes maior do Manchester City. Ainda chegaram os jovens Filip Benkovic e Caglar Söyüncü (pois é, três tremas) para serem desenvolvidos. O capitão Wes Morgan, 34 anos, fica cada vez mais relegado ao papel de coadjuvante e mentor da garotada. Ricardo Pereira foi uma boa ideia para a lateral direita, e o novinho Ben Chilwell tende a crescer na esquerda. Kasper Schmeichel ainda é o goleiro titular, mas ganhou a concorrência de Danny Ward, contratado do Liverpool.

Liverpool 

Mohamed Salah, do Liverpool (Foto: Getty Images)

Cidade: Liverpool
Estádio: Anfield Road (53.394 pessoas)
Técnico: Jürgen Klopp
Posição em 2017/18:
Projeção: Brigar pelo título
Principais contratações: Fabinho (Monaco), Naby Keita (RB Leipzig), Xherdan Shaqiri (Stoke City), Alisson (Roma)
Principais saídas: Danny Ward (Leicester), Jon Flanagan (Rangers), Emre Can (Juventus), Ben Woodburn (Sheffield United), Danny Ings (Southampton)

Em três anos, Jürgen Klopp conseguiu construir uma equipe que atua no seu estilo preferido, montar um ataque que, se não for o mais letal da Europa, está entre os melhores, chegar a três finais e assegurar duas temporadas seguidas de Champions League. São grandes feitos, mas o Liverpool precisa dar o passo seguinte: conquistar títulos. Eles escaparam na Liga Europa, na Copa da Liga Inglesa e na principal competição europeia de clubes. Para o alemão manter o prestígio em alta com a torcida vermelha, não podem escapar por muito mais tempo. Principalmente o da Premier League, que os Reds não conquistam desde 1990.

As perspectivas são boas para esta temporada. O time não perdeu as suas principais peças, apenas Emre Can, nem há uma possibilidade real de isso acontecer em um futuro próximo. Mohamed Salah e Roberto Firmino renovaram seus contratos, e Sadio Mané deve fazer o mesmo. E os reforços vieram. Klopp comandou a janela de transferências mais gastadora da sua carreira, ignorando que um dia disse que se aposentaria se o futebol se resumisse a contratar jogadores de € 100 milhões, e buscou os jogadores que o Liverpool precisava para se candidatar genuinamente ao título da Premier League.

Começando pelo começo: as arquibancadas de Anfield finalmente não precisam mais se preocupar com o goleiro. O Liverpool tornou Alisson o jogador mais caro da posição na história – marca que foi rapidamente quebrada por Kepa Arrizabalaga, do Chelsea -, depois que Loris Karius acrescentou falhas na pré-temporada às que cometeu em Kiev, na final da Champions League. O goleiro brasileiro ainda não está entre os melhores do mundo, mas mostrou na última temporada pela Roma que não demorará muito para chegar lá. A saída de Emre Can foi muito bem suprida por Fabinho, e Naby Keita é um meio-campista dinâmico, completo e talhado à mão para o estilo de Klopp.

O mercado do Liverpool não ganha nota dez porque a reposição para o trio de ataque ainda pode ficar curta. Alex Oxlade-Chamberlain, utilizado como meia em Anfield, mas atacante de origem, ficará fora da temporada, lesionado. A chegada de Xherdan Shaqiri melhora as coisas, mas as opções são apenas ele um Daniel Sturridge que pareceu rejuvenescido na pré-temporada e um Adam Lallana que mesmo em grande forma física oscila demais de desempenho. A transferência abortada de Nabil Fekir, capaz de jogar tanto no ataque quanto no meio-campo, pode eventualmente fazer falta.

A defesa, até segunda ordem, não é mais um problema. A chegada de Virgil Van Dijk fez com que todos crescessem de produção, inclusive Dejan Loven, que teve ótimos seis meses antes de brilhar na Copa do Mundo. Alexander-Arnold e Andy Robertson têm vitalidade de sobra pelas laterais. O Liverpool teve a quarta melhor defesa da última Premier League e, tendo sofrido apenas dez gols, o segundo sistema defensivo mais sólido como mandante.

Em nível de futebol, apresenta-se como o time que pode brigar com o Manchester City pelo título. Afinal, conseguiu vencê-lo três vezes na temporada passada, quando o time de Guardiola encantou e bateu recordes. O problema é a consistência. Por jogar sempre que pode a 200 quilômetros por hora, os jogadores têm dificuldades para manter a intensidade em todas as partidas e muitas vezes relaxam em duelos menos importantes, o que causa tropeços que times campeões não podem ter. Com mais opções de elenco, Klopp pode administrar melhor esse problema e talvez conquistar de vez a torcida com o tão esperado 19º título inglês.

Manchester City

Mahrez, do Manchester City (Foto: Getty Images)

Cidade: Manchester
Estádio: Etihad Stadium (55.017 pessoas)
Técnico: Pep Guardiola
Posição em 2017/18:
Projeção: Brigar pelo título
Principais contratações: Riyad Mahrez (Leicester)
Principais saídas: Yaya Touré (sem clube), Joe Hart (Burnley), Angus Gunn (Southampton)

O Manchester City batalha contra a história. Desde 2008/09, ninguém consegue defender o título da Premier League. Além disso, o próprio clube enfrentou quedas de rendimento na sequência de suas mais recentes conquistas. Com praticamente o mesmo time à disposição, a melhor aposta é recorrer à insaciável obsessão de Pep Guardiola por troféus para motivar os jogadores a tentarem superar uma campanha que é mais ou menos insuperável: 100 pontos, 32 vitórias, 106 gols marcados, quase todos os recordes quebrados.

A sorte de Guardiola, ou justamente a sua estratégia, é que o elenco do City tem jogadores com fome. São poucos os que já podem ficar satisfeitos com suas carreiras. Eles também querem glórias maiores, mas precisarão lidar com o relaxamento natural que aparece depois de um título tão fantástico e com o conhecimento que seus adversários adquiriram. O Liverpool, por exemplo, conseguiu derrotá-los três vezes, na Premier League e nas quartas de final da Champions League, indicando o caminho para outros pretendentes atrevidos.

Guardiola já cavou fundo nos bolsos dos donos do clube para reformular o elenco. O momento do projeto é outro: continuidade e alguns retoques. Riyad Mahrez chegou do Leicester para se tornar mais uma opção ofensiva e permitir uma rotação mais qualificada dos jogadores. O gás pareceu curto na reta final da última temporada. Sem Yaya Touré, o espanhol também buscou um reserva para Fernandinho. Chegou a estar próximo de acertar com Jorginho, mas o brasileiro decidiu se reencontrar com Maurizio Sarri no Chelsea. A Federação Inglesa negou o visto de trabalho para o brasileiro Douglas Luiz, e ninguém foi contratado no fechamento da janela.

Isso significa que o Manchester City irá para a primeira metade da temporada com pouca cobertura para a posição, na qual o titular tem 33 anos. Guardiola pode usar Gündogan ou aproveitar a experiência que Kevin de Bruyne teve na Copa do Mundo atuando mais recuado. Ou recorrer às categorias de base, o que ele já mostrou não ter medo de fazer. Mas é um problema menor dentro do esquema mais amplo das coisas. Com muito talento à disposição, uma equipe letrada na filosofia do seu treinador e jovens que ainda podem melhorar, o Manchester City destaca-se como o principal favorito ao título.

Manchester United

José Mourinho, do Manchester United (Photo by Bryn Lennon/Getty Images)

Cidade: Manchester
Estádio: Old Trafford (74.994 pessoas)
Técnico: José Mourinho
Posição em 2017/18:
Projeção: Brigar por Champions League
Principais contratações: Fred (Shakhtar Donetsk), Diogo Dalot (Porto), Lee Grant (Stoke City)
Principais saídas: Daley Blind (Ajax), Sam Johnstone (West Brom), Timothy Fosu Mensah (Fulham), Michael Carrick (aposentado)

José Mourinho não aproveitou o sol do verão europeu para relaxar. Preferiu que ele iluminasse as suas reclamações. E foram muitas. Praticamente todas. Em linhas gerais: outros clubes gastaram demais, o seu gastou de menos, Paul Pogba e Anthony Martial não estão comprometidos, a Copa do Mundo atrapalhou a sua preparação, com muitos jogadores apresentando-se com atraso, e sobrou até para o torneio amistoso que disputou nos Estados Unidos. Entrando na sua terceira temporada no Manchester United, período em que seus trabalhos têm o histórico de degringolar, os sinais são preocupantes.

O cerne da questão está nas visões distintas que Mourinho e o executivo Ed Woodward nutrem em relação a como o time deve ser montado. O treinador busca soluções imediatas, e o dirigente quer uma visão mais estratégica para preparar o futuro. Por isso, a lista de cinco nomes que Mourinho entregou para o pessoal que tem as chaves do cofre foi recebida com ressalvas. O melhor exemplo foi a busca por zagueiros. O Guardian traz um panorama detalhado: nenhum chegou porque Woodward considerou que os preços eram caros demais para a qualidade dos jogadores ou que os caras não eram bons mesmo.

A questão em torno de Anthony Martial também é simbólica. Alvo de críticas de Mourinho, não apenas nesta pré-temporada por tirar uma licença paternidade pelo nascimento do seu filho e demorar para voltar, o francês seria dispensado, se a decisão fosse do português. No entanto, identificando potencial em um jogador ainda muito jovem, Woodward não quer abrir mão tão facilmente de uma promessa que pode vingar daqui a alguns anos. Resultado dessa história toda: o Manchester United contratou apenas Fred e o lateral Diogo Dalot.

A temporada passada, analisada apenas em fatos, foi uma evolução porque os Red Devils conseguiram terminar a Premier League em segundo lugar. Mas os 19 pontos que os separaram do campeão Manchester City dão a medida do quão distantes os times estiveram e, ao que tudo indica, ainda estão. Mourinho acredita que o caminho tem que ser encurtado por meio de contratações. Desde que o português chegou a Old Trafford, foram investidos € 390 milhões líquidos (compras menos vendas). No período, apenas o City tem números maiores: € 490 milhões. Usando o argumento de Mourinho, e se fixando apenas em reforços e gastos, alguém acredita que um jogador de € 100 milhões ou dois de € 50 milhões resolvem a situação?

Há falhas no elenco do United, principalmente nas laterais, onde Antonio Valencia e Ashley Young esticam suas carreiras por pura necessidade, mas o problema do Manchester United é desempenho. Mourinho ainda não foi capaz de tirar o melhor dos jogadores qualificados que já tem. Uma equipe que conta, do meio para frente, com Nemanja Matic, Paul Pogba, agora Fred, Alexis Sánchez, Jesse Lingaard ou Marcus Rashford ou Martial e Romelu Lukaku pode jogar mais. Um zagueiro de alto nível seria útil, mas foi o próprio Mourinho quem contratou Eric Bailly e Victor Lindelöf. Por que não desenvolvê-los?

A síndrome da terceira temporada paira por cima de Mourinho. No entanto, diferente dos seus trabalhos no Real Madrid e no Chelsea (duas vezes), quando as rusgas surgiram de desgastes de relacionamento, desta vez há, além deles, problemas reais, e o português começa a Premier League com menos moral do que naquelas passagens porque ainda não conquistou nenhum título de grande importância no Manchester United. A Liga Europa foi bacana, mas o objetivo do maior campeão inglês de todos os tempos é voltar a reinar sobre a ilha. E, para isso acontecer, Mourinho terá que encontrar soluções no campo e na bola.

Newcastle

Rafa Benítez, do Newcastle (Foto: Getty Images)

Cidade: Newcastle
Estádio: St. James Park (52.490 pessoas)
Técnico: Rafa Benítez
Posição em 2017/18: 10º na Championship
Projeção: Meio de tabela
Principais contratações: Yoshinori Muto (Mainz), Fabian Schär (Deportivo La Coruña), Martin Dubravka (Sparta Praga), Ki Sung-yong (Swansea), Kennedy (Chelsea), Salomon Rondón (West Brom), Federico Fernández (Swansea)
Principais saídas: Mikel Merino (Real Sociedad), Aleksandar Mitrovic (Fulham), Chancel Mbemba (Porto), Dwight Gayle (West Brom)

A melhor notícia da última temporada do Newcastle é que Mike Ashley finalmente se mostrou disposto a vender o clube. Como a caminhada na Premier League não foi nada ruim, isso dá a medida do quão irritados estão os torcedores com o homem que dá as cartas no St. James Park desde 2007. As acusações são de que ele explora os Magpies para aumentar as vendas da sua loja de material esportivos e não investe na equipe. A primeira até pode ser mentira, mas contestar a segunda exige brigar com os fatos: apesar da inflação cavalar do mercado de transferências nos últimos anos, em nenhum lugar mais do que na Inglaterra, a contratação mais cara do Newcastle ainda é Michael Owen, trazido por € 25 milhões, em 2005.

Considerando que, apenas na atual janela, até o Bournemouth superou essa marca, o potencial do Newcastle, com rica tradição e torcedores apaixonados, não está sendo nutrido. É a fonte de frustração de Rafa Benítez. O campeão europeu aceitou o desafio para reabilitar a carreira, depois de fracassar no Real Madrid. Continuou, mesmo com o rebaixamento, imaginando que o clube uma hora dará o salto que pode dar. Não se sabe por quanto tempo ele ainda terá paciência. Seu contrato tem apenas mais um ano de duração e a pré-temporada já foi um período de lamentos e indiretas públicas por causa da firmeza com que Ashley mantém sua carteira fechada, ao mesmo tempo em que esfria as tratativas para passar os Magpies adiante.

Questionado se receberia mais reforços após sofrer uma goleada por 4 a 0 do Braga, em amistoso, respondeu: “Eu não tenho ideia. Os torcedores têm que ficar preocupados, nós estamos preocupados. Eu estou realmente preocupado”. A última notícia que o torcedor quer receber é a da saída de Benítez porque foi graças a ele que o time superou suas possibilidades na última Premier League. Longe de ser brilhante, mas organizado e com as estratégias certas para partidas específicas, o Newcastle conseguiu ficar na parte de cima da tabela na temporada em que retornou à elite, um feito raro na Inglaterra. No entanto, sem grandes investimentos em reforços, a próxima campanha deve ser igualmente difícil e desafiadora para o clube.

Sem grana, Benítez teve que ser criativo. Primeiro, manteve o goleiro Martin Dubravka no seu elenco, que havia sido cedido temporariamente pelo Sparta Praga, em janeiro, e foi titular no segundo semestre da temporada. Também renovou o empréstimo de Kennedy, outro que desembarcou no norte da Inglaterra no meio do caminho e causou boa impressão. O dinheiro da venda de Aleksandar Mitrovic para o Fulham serviu para comprar o atacante Yoshinori Muto, do Mainz. Trocou atacantes com o West Brom: Dwight Gayle por Salomon Rondón. Fabian Schär, a € 3 milhões, foi uma incrível pechincha. O bom e experiente volante Ki Sung-yong, do Swansea, chegou sem custos. No dia do fechamento da janela, conseguiu arrancar dos galeses o zagueiro Federico Fernández, com quem trabalhou no Napoli. Eles vão ajudar, mas o Newcastle ainda dependerá da capacidade do seu treinador para alçar voos mais altos na Premier League.

Southampton

Mark Hughes, do Southampton (Foto: Getty Images)

Cidade: Southampton
Estádio: St. Mary’s Stadium (32.384 pessoas)
Técnico: Mark Hughes
Posição em 2017/18: 17º
Projeção: Briga contra o rebaixamento
Principais contratações: Jannik Vestergaard (Borussia Monchengladbach), Mohamed Elyounoussi (Basel), Angus Gunn (Manchester City), Stuart Armstrong (Celtic), Danny Ings (Liverpool)
Principais saídas: Dusan Tadic (Ajax), Florin Gardos (Craiova), Jordy Clasie (Feyenoord), Sofiane Boufal (Celta de Vigo), Guido Carrillo (Leganés)

Visitar o St. Mary’s Stadium já foi um dos desafios mais difíceis da Premier League, mas, se você disser isso para um torcedor do Southampton hoje em dia, são grandes as chances de ele rir da sua cara. Os Saints ganharam quatro jogos em casa na última temporada da liga inglesa. E seis na anterior. A gradativa evolução do clube desde que subiu da segunda divisão, seis anos atrás, encontrou um teto em 2015/16, com o sexto lugar sob o comando de Ronald Koeman. Seria difícil ir além, mas a queda foi meio brusca: oitavo, com um time enfadonho comandado por Claude Puel, e 17º, a três pontos da zona de rebaixamento, com Mauricio Pellegrino e Mark Hughes.

A diretoria até que teve bastante paciência com Pellegrino. Demitiu-o apenas em março, a oito rodadas do fim da Premier League, a um ponto e uma posição acima da zona de rebaixamento. O técnico havia conseguido apenas uma vitória nas últimas 17 partidas do Campeonato Inglês e realmente alguma coisa precisava mudar. Mark Hughes, que já havia contribuído para o rebaixamento do Stoke City naquela mesma temporada, foi chamado e conseguiu reverter a situação. Perdeu os três primeiros duelos, empatou com Leicester e Everton, ganhou de Bournemouth e Swansea, e chegou à última rodada torcendo apenas para os galeses não ganharem do Stoke por 10 a 0. Eles perderam por 2 a 1, e o Southampton se salvou. Hughes foi premiado com um contrato de três anos.

O sucesso do Southampton baseava-se na mistura entre talentos formados em casa e achados de mercado. Ambas as fontes secaram nas últimas temporadas, depois de tantas vendas, e as escolhas de treinadores não foram as melhores. Claude Puel e Mauricio Pellegrino podem ter suas qualidades, mas são inferiores a Mauricio Pochettino e Ronald Koeman. Hughes é experiente, mas nunca quebrou a banca. Atestado de que o olho para transferências dos Saints já foi mais apurado é que a contratação mais cara da história do clube, Guido Carrillo, chegou do Monaco em janeiro e já foi despachado por empréstimo para o Leganés.

A saída do argentino é parte da reformulação do elenco. Outros jogadores que atuaram abaixo do esperado também foram embora, como Jordy Clasie e Sofiane Boufal. A perda que será sentida de verdade é a de Dusan Tadic, que foi para o Ajax. O sérvio foi o vice-artilheiro do time na última Premier League com seis gols. A sua frente ficou Charlie Austin, com sete. O atacante sofre para ficar em forma, mas, quando entra em campo, tem uma boa média de bolas na rede. Para não depender dos caprichos físicos, o Southampton buscou Danny Ings, do Liverpool, até o último segundo da janela e conseguiu acertar o empréstimo com obrigação de compra antes das cortinas se fecharem.

O clube trouxe quatro reforços na janela, dentro do seu perfil de buscar negócios diferentes. Desta vez, pode dar certo porque os nomes são interessantes. Jannik Vestergaard chega do Borussia Monchengladbach para ser o pilar que a defesa precisa desde a saída de Virgil Van Dijk. Mohamed Elyounoussi impressionou com a camisa do Basel na Champions League e reforça o departamento de criação. Stuart Aarmstrong veio do Celtic, e Angus Gunn, ex-Manchester City, deve virar o reserva imediato de Alex McCarthy.

O essencial é tirar mais dos talentos que já existem no elenco. O esquema com três zagueiros que Hughes implementou favorece as subidas de Ryan Bertrand e Cédric Soares. Ainda há jogadores como James Ward-Prowse, Mario Lemina, Pierre-Emile Höjbjerg e Nathan Redmond que podem produzir mais. Depois do susto da última temporada, evitar o rebaixamento com folgas e sem sustos já seria um bom resultado para o Southampton.

Tottenham

Harry Kane, do Tottenham (Foto: Getty Images)

Cidade: Londres
Estádio: Vicarage Road (62.000 pessoas)
Técnico: Mauricio Pochettino
Posição em 2017/18:
Projeção: Briga pelo título
Principais contratações: ninguém
Principais saídas: ninguém

“Claro que é um grande sucesso para o clube estar na Champions League pelo terceiro ano seguido. Mas talvez isso não seja o bastante. Talvez precisemos mudar algumas coisas. Para mim, não é o bastante”, disse Mauricio Pochettino, um dia antes do fechamento da janela. No entanto, nada mudou no Tottenham, e estamos falando em termos literais. Ninguém saiu, ninguém entrou. Pela primeira vez desde a introdução da janela de transferências na Inglaterra, em 2003, um clube da Premier League percorreu o mercado de verão inteiro sem uma contratação.

O fato de ninguém ter sido vendido não é desprezível, especialmente considerando que o Real Madrid abriu os olhos tanto para Harry Kane, o principal jogador do time, quanto para Pochettino. As notícias de que ambos renovaram seus contratos foram os momentos de maior alegria dos torcedores dos Spurs durante a pré-temporada. No entanto, para dar o salto que o treinador argentino ambiciona e conquistar títulos, o questionamento é de onde o Tottenham tirará as forças necessárias.

O terceiro lugar da última Premier League foi uma grande campanha. A anterior, melhor ainda, vice-campeão do Chelsea. No entanto, em nenhuma delas o Tottenham chegou a de fato brigar pelo título inglês e os adversários não foram assolados pela mesma inércia comercial. O Liverpool está mais forte. O Manchester City contratou pouco, mas tem mais opções com Riyad Mahrez. Os problemas do Manchester United e as mudanças pelas quais passam Chelsea e Arsenal sugerem que o Tottenham não terá problemas para mais uma vez terminar entre os quatro primeiros.

Mas como melhorar a ponto de ser campeão, sem nenhum novo jogador? Coletivamente, todas as peças já funcionam em harmonia. Pochettino é um talentoso desenvolvedor de promessas, mas há potencial suficiente na equipe para mudá-la de patamar? Desempenhos individuais são os que mais podem fazer a diferença, principalmente se Dele Alli recuperar sua melhor forma, ou Erik Lamela e Lucas Moura firmarem-se como opções de alto nível para que o treinador possa rodar o seu elenco.

O impulso para o Tottenham pode vir do seu estádio. O novo White Hart Lane será inaugurado na metade de setembro, no segundo jogo em casa do clube. Na última temporada, alugando Wembley, foram apenas duas derrotas como mandante e quatro empates, a quinta melhor campanha em seus domínios. Há algum espaço para melhora, mas não muito. Na era da inflação e das transferências tresloucadas, é louvável que um clube com as ambições do Tottenham, se não encontrou os reforços que queria, evite gastar dinheiro apenas por gastar. Mas, por outro lado, talvez tenha que se contentar com um título de Copa ou uma campanha melhor na Champions League para satisfazer Pochettino – e seus torcedores.

Watford

Deulofeu, do Watford (Foto: Getty Images)

Cidade: Watford
Estádio: Vicarage Road (21.000 pessoas)
Técnico: Javi Gracia
Posição em 2017/18: 14º
Projeção: Briga contra o rebaixamento
Principais contratações: Gerard Deulofeu (Barcelona), Adam Masina (Bologna), Ken Sema (Östersund), Marc Navarro (Espanyol), Ben Wilmot (Stevenage), Ben Foster (West Brom), Domingos Quina (West Ham)
Principais saídas: Richarlison (Everton), Nordin Amrabat (Al-Nassr), Mauro Zárate (Boca Juniors), Costel Pantilimon (Nottingham Forest)

A família Pozzo, dona também da Udinese e do Granada, é italiana, mas, observando sua abordagem com treinadores de futebol, poderia muito bem ser brasileira. Desde que comprou o Watford, em 2012, dez homens já se sentaram no banco de reservas do Vicarage Road para comandar o time da casa. O último deles, Javi Gracia, sabe que precisa de resultados rápidos para evitar a demissão. Até porque esse tem sido mesmo o modus operandi do Watford nas suas três temporadas de Premier League desde o acesso: começar bem e terminar mal.

Em 14 de outubro do ano passado, o Watford venceu o Arsenal e chegou ao fim da oitava rodada com 16 pontos, seu melhor começou de Campeonato Inglês em 35 anos. Todos adoravam o trabalho de Marco Silva. Uma semana depois, o Everton demitiu Ronald Koeman e o caldo entornou. O clube de Liverpool tentou com muita determinação contratar o português, que gostou das perspectiva de mudar de cidade, mas a diretoria do Watford cortou a história imediatamente. Em seguida, vieram apenas três vitórias em 15 rodadas, e Silva foi demitido, em janeiro, com a diretoria citando a “distração” da proposta evertoniana como um dos motivos.

Gracia foi contratado, somou os pontos que eram necessários para evitar o rebaixamento, e ficou para a temporada seguinte. O profissional de 48 anos teve relativo sucesso com campanhas de acesso na Espanha e deixando o Málaga no meio da tabela. Obteve resultado parecido com o Rubin Kazan, da Rússia, antes de se transferir para a Inglaterra. Ainda não provou que tem algo especial como Marco Silva. Com a saída de Richarlison e sem grandes contratações, o cenário não é o ideal para o Watford.

O investimento de apenas € 24 milhões em reforços é de longe o menor desde que o clube chegou à Premier League, e isso porque os cofres foram abastecidos com a boa venda do brasileiro para o Everton. O maior gasto foi para contratar Deulofeu em definitivo. Ben Foster chegou do West Brom para talvez ser titular debaixo das metas, embora tenha apenas um ano a menos que o brasileiro Gomes. O resto é um monte de apostas, que podem ou não dar certo, por preços módicos: o lateral esquerdo Adam Masina, do Bologna, o meia Ken Sema, do Östersund e o lateral direito Marc Navarro, do Espanyol.

O Watford tem problema nas duas áreas: levou 64 gols, terceira pior defesa, e marcou apenas 44, poder de fogo mediano para a Premier League. Os principais zagueiros estão na casa dos 30 anos e o ataque não foi reforçado. Juntos, os centroavantes Andre Gray, Troy Deeney e Stefano Okaka fizeram 11 gols na liga nacional. O artilheiro foi o meia Abdoulaye Doucouré, com sete, um dos destaques da campanha. A força do time é justamente o meio-campo, onde ele atua com Nathaniel Chablobah, pelo centro, e Deulofeu e Roberto Pereyra mais abertos.

West Ham

Manuel Pellegrini, do West Ham (Foto: Getty Images)

Cidade: Londres
Estádio: Estádio Olímpico de Londres (60.000 pessoas)
Técnico: Manuel Pellegrini
Posição em 2017/18: 13º
Projeção: Brigar por Liga Europa
Principais contratações: Jack Wilshere (Arsenal), Felipe Anderson (Lazio), Issa Diop (Toulouse), Andriy Yarmolenko (Borussia Dortmund), Lukasz Fabianski (Swansea), Fabián Balbuena (Corinthians), Ryan Fredericks (Fulham), Carlos Sánchez (Fiorentina), Lucas Pérez (Arsenal)
Principais saídas: Cheikhou Kouyaté (Crystal Palace), Reece Burke (Hull City), Patrice Evra (sem clube), João Mário (fim de empréstimo), Domingos Quina (Watford), Sead Haksabanovic (Málaga)

O West Ham é um time consolidado na Premier League. Nas últimas 13 temporadas, teve apenas um escorregão, rebaixado em 2010/11, mas voltou imediatamente. No entanto, apenas cinco campanhas terminaram na parte de cima da tabela. A melhor delas foi dois anos atrás, quando, comandados por Dimitri Payet, os Hammers ficaram em sétimo lugar. Desde então, espera-se que deem um passo à frente e se aproximem dos seis clubes de elite do país. Isso ainda não aconteceu.

Você pode escolher qual o principal motivo. Vou me limitar a oferecer um cardápio. A ida para o Estádio Olímpico de Londres foi um desastre. Sem a atmosfera do Upton Park, o West Ham virou presa fácil como mandante e a mudança irritou seus torcedores; a saída conturbada de Payet, um ano e meio atrás, interrompeu o time que se formava em torno dele; alguém achou que David Moyes seria um bom substituto para Slaven Bilic e, surpreendentemente, estava errado; as contratações, recebidas com bons olhos, não deram certo. Resultado: depois de sétimo lugar, o clube foi 11º e 13º, levando algumas goleadas no meio do caminho.

A sensação para a próxima temporada, no entanto, é um pouco diferente. Principalmente por causa do nome, sobrenome e currículo do homem que está no comando. Faz tempo que o clube não tem um treinador do tamanho de Manuel Pellegrini, campeão inglês pelo Manchester City e ex-técnico do Real Madrid. Mais importante do que esses dados é o que conseguiu fazer com equipes menores, como Villarreal (semifinalista de Champions) e Málaga (quartas de final de Champions). Levar um time além das suas possibilidades é exatamente o tipo de trabalho que o West Ham precisa.

Os reforços também animam um pouco mais. São jogadores mais estabelecidos, como Felipe Anderson, cuja última temporada na Lazio foi ruim, mas já mostrou o que pode fazer, Andriy Yarmolenko, e Lukasz Fabianski, uma melhora considerável em relação a Joe Hart. Carlos Sánchez chegou da Fiorentina, depois de uma Copa do Mundo em que, em três jogos, cometeu dois pênaltis e levou um cartão vermelho. Fabián Balbuena foi contratado por um valor baixo para reforçar a defesa, para a qual a maior chegada foi a de Issa Diop, ex-Toulouse. Os Hammers ainda fizeram apostas com jogadores sem contrato: o lateral direito Ryan Fredericks, do Fulham, e Jack Wilshere, que decidiu respirar novos ares longe do Arsenal.

Depois de tentar e testar diversos centroavantes, o West Ham simplesmente desistiu e decidiu testar Marko Arnautovic na posição, um dos achados de Moyes na sua passagem pelo leste de Londres. O austríaco foi bem na nova função, com 11 gols em 31 partidas da Premier League. Por via das dúvidas, trouxe também Lucas Pérez, que estava emprestado pelo Arsenal ao Deportivo La Coruña. Marcou apenas nove vezes na última La Liga e não conseguiu impedir o rebaixamento do seu clube.

Wolverhampton 

Rúben Neves, do Wolverhampton (Foto: Getty Images)

Cidade: Wolverhampton
Estádio: Molineux Stadium (31.700 pessoas)
Técnico: Nuno Espírito Santo
Posição em 2017/18: Campeão da Championship
Projeção: Meio da tabela
Principais contratações: Adama Traoré (Middlesbrough), João Moutinho (Monaco), Raúl Jiménez (Benfica), Rui Patrício (Sporting), Jonny Castro (Atlético de Madrid), Leander Dendoncker (Anderlecht)
Principais saídas: Benik Afobe (Stoke City), Barry Douglas (Leeds), Ben Marshall (Norwich), Roderick Miranda (Olympiacos)

Nos anos cinquenta, quando conquistou três vezes o título inglês, o Wolverhampton derrotou o Honvéd, considerado quase por unanimidade o melhor esquadrão daquela época. Por uma conta simples, os jornais proclamaram-no campeão do mundo. Foi a semente da criação da Champions League porque o futebol achou que seria mais sábio deixar esse tipo de decisão para os campos do que para as redações. Essa tradição, porém, ficou no passado. Os Lobos participaram de apenas quatro temporadas de Premier League, com dois rebaixamentos e dois quase rebaixamentos. Mas ambicionam mudar essa história nesta temporada.

O Wolverhampton teve uma das campanhas mais dominantes que a Championship já viu, campeão com 99 pontos impressos na tabela. Resultado do dinheiro injetado pelo conglomerado chinês Fosun e dos laços estreitos que nutre com o super-empresário Jorge Mendes. O Molineux Stadium tornou-se um dos grandes focos de imigração portuguesa nos últimos dois anos, com destaque para o atacante Diogo Jota, 17 gols na segunda divisão, e Rúben Neves, ex-capitão do Porto e garoto prodígio de apenas 21 anos.

A colônia lusa apenas aumentou com a lista de compras para a temporada de retorno à elite. E com nomes maiores. O técnico Nuno Espírito Santo, obviamente português, recebeu os reforços do goleiro Rui Patrício, que saiu em litígio do Sporting, e do meia João Moutinho, dois campeões europeus. O poder de fogo ampliou-se com a chegada do mexicano Raul Jiménez, ex-Benfica, e a capacidade defensiva, com Leander Dendoncker, que pode atuar tanto no meio-campo quanto na retaguarda. Outro grande negócio dos Lobos foi Adama Traoré, que comeu a bola na metade final da segunda divisão com a camisa do Middlesbrough.

Esses nomes se juntam ao que já era um time bem montado e que deu sinais na Championship de que pertencia muito mais à primeira divisão do que à segunda. Com mais qualidade e experiência, o Wolverhampton chega à Premier League fazendo barulho e planeja ir além de apenas sobreviver. Talvez terminar na parte de cima da tabela pela primeira vez desde 1980.