Flamengo x Grêmio pode ser considerado um clássico da Copa do Brasil. Afinal, durante os primeiros anos da competição, foi bastante comum que os dois clubes se enfrentassem, e em momentos importantes. Logo na primeira edição, já houve um embate valendo vaga na final. Durante os anos 1990, mais quatro encontros, sendo dois por semifinais e ainda a decisão de 1997. Por fim, as partidas pelas quartas de final de 2004, que marcaram um hiato de 14 anos até que a “rivalidade” comece a ser revivida nesta quarta-feira, em Porto Alegre. Ocasião para resgatar este amplo histórico de duelos.

Cabe dizer que há uma certa freguesia do Flamengo contra o Grêmio. Afinal, nas quatro primeiras vezes que os times se enfrentaram pela Copa do Brasil, o tricolor se deu melhor em todas. Nas semifinais de 1989, aconteceu a maior goleada. No jogo de ida, havia grandes expectativas sobre o Flamengo, que via Júnior e Zico juntos no clube pela primeira vez em seis anos, graças ao retorno do Capacete. E o início do Fla foi excepcional. Os rubro-negros abriram dois gols de vantagem em 15 minutos, além do Galinho acertar uma bola no travessão. O problema é que os erros sucessivos da defesa permitiram o empate gremista. O placar de 2 a 2 era bom ao time de Cláudio Duarte.

Ainda assim, ninguém esperava o que aconteceu em Porto Alegre: o Grêmio aplicou impressionantes 6 a 1 no Flamengo treinado por Telê Santana, com cinco dos gols tricolores anotados somente no segundo tempo. Zico era desfalque, mas os rubro-negros entraram em campo com Júnior, além de jovens do calibre de Zinho, Leonardo e Júnior Baiano. Cuca e Paulo Egídio marcaram dois gols cada para os gaúchos, com direito a uma pintura por cobertura do primeiro e outra obra de arte do segundo, fazendo fila na zaga. O protagonista no Olímpico, de qualquer forma, foi Assis. O insinuante ponta esquerda deu três assistências, além de fechar a conta deixando o seu. Na época, era apenas uma jovem promessa, antes da imagem contestável que deixou como empresário do irmão mais novo, Ronaldinho. Classificados, os gremistas fariam jus ao favoritismo, batendo o Sport na decisão.

Outra semifinal aconteceu quatro anos depois, em 1993. De novo, com jogos insanos. O Flamengo permanecia com Júnior, mas muita coisa tinha se passado desde então, especialmente pela eclosão de novos talentos da base. Foram eles que fizeram a diferença no triunfo por 4 a 3. A primeira mostra aconteceu aos 12 minutos, em belíssimo passe por elevação de Djalminha para Nélio marcar. Depois que Gaúcho teve um gol anulado pelo Fla, o Grêmio empatou com Juninho. Tudo isso para que a loucura desatasse de vez no segundo tempo.

Djalminha fez o segundo, mas Gilson voltou a empatar, graças a jogadaça do craque Dener. Renato Gaúcho, que veio do banco, ajudou a provocar a expulsão de Jamir e ainda anotou o terceiro ao Fla, enquanto o endiabrado Djalminha fez o quarto aos 41. No entanto, um pênalti bastante contestável permitiu que Eduardo descontasse logo depois, fechando a conta. Revoltados, dirigentes do Fla chegaram a invadir o campo. O árbitro encerrou o jogo em meio à confusão e precisou sair correndo aos vestiários, escorregando nas escadas. Pois este tento derradeiro faria toda a diferença no confronto. Diante da torcida tricolor, Gilson anotou o gol da vitória por 1 a 0 no Olímpico e colocou os gremistas na final. Desta vez, porém, a taça acabaria nas mãos do Cruzeiro.

Nada que impedisse o Grêmio de se refazer logo depois. Em 1994, recuperaram o troféu da Copa do Brasil. E tentariam a reconquista em 1995, se encontrando com o Flamengo na semifinal. A vitória do Fla por 2 a 1 no Maracanã foi comandada por Sávio. O Diabo Louro da Gávea fez uma partida infernal e abriu o placar com um golaço, fazendo fila nos tricolores. Durante o segundo tempo, ainda provocou a expulsão de Dinho. E ampliaria a diferença aos 39, deixando Danrlei no chão. O problema dos rubro-negros aconteceria depois. Primeiro, quando Jardel descontou de cabeça e fechou o placar em 2 a 1. Depois, pela lesão sofrida por Romário.

O gol fora, mais uma vez, seria determinante ao Grêmio. A equipe de Felipão sabia de sua força dentro do Olímpico, ainda mais ao enfrentar o Flamengo sem o seu principal craque. Sávio, desta vez, seria insuficiente. Diante do clima quente nas arquibancadas, os gremistas alcançaram o triunfo por 1 a 0 aos 24 do segundo tempo. Jardel vinha parando em grandes defesas do goleiro Roger, mas se tornou o herói. Tabelou com o eterno parceiro Paulo Nunes, antes de emendar às redes. Na decisão, o Corinthians botou a faixa no peito, mas nada que frustrasse os gaúchos, campeões da Libertadores no mesmo ano.

Em 1997, aconteceu o encontro mais importante, na decisão. O Grêmio poderia ter feito mais no Olímpico, mas se complicou de bobeira. Começou pressionando e mandando bola na trave, o que se esvaiu quando Dinho perdeu a cabeça diante de Sávio. O rubro-negro ciscou para cima do volante, que acertou uma enxadada no adversário e recebeu o vermelho direto aos 35 minutos. Antes do intervalo, a resposta do Fla, com milagre de Danrlei e também uma bola na trave. Já no segundo tempo, os gremistas tiveram a melhor oportunidade, enquanto os flamenguistas criaram mais. Todavia, ninguém com a pontaria calibrada para tirar o 0 a 0 no placar.

Diante de 90 mil no Maracanã, o jogo era bastante pegado. E o Grêmio saiu na frente, com João Antônio mandando uma bola por entre as canetas do marcador, antes de fuzilar. O Flamengo ainda perdeu Sávio pouco depois, lesionado, mas virou no primeiro tempo. Lúcio, o substituto, deixou tudo igual. Já o segundo saiu em peixinho de Romário. Contudo, o copeirismo gremista pesaria na etapa final. Emerson acertou a trave e Romário não conseguiu alcançar a bola com a meta vazia. Prólogo ao gol histórico de Carlos Miguel a dez minutos do fim, aproveitando o cochilo da zaga, após o cruzamento de Roger. Pela terceira vez consecutiva, marcar longe dos domínios ajudaria os gremistas a se imporem, com o empate por 2 a 2. Sob as ordens de Evaristo de Macedo, o Tricolor era tricampeão.

A vingança do Flamengo só começou em 1999. Desta vez, ganhando o jogo de ida das oitavas de final em pleno Olímpico. Romário foi fatal. O Baixinho botou os rubro-negros em vantagem no início do segundo tempo, oportunista como sempre, aproveitando cruzamento para escorar de cabeça. Minutos depois, ainda daria o cruzamento para Caio (Ribeiro) se esticar e marcar. Macedo até descontaria ao tricolor na sequência insana de 14 minutos, mas a vitória por 2 a 1 era um alívio aos carioca.

Já no Maracanã, o Flamengo finalmente encerrou o trauma, agora com Evaristo de Macedo em seu comando. Duas vezes o Fla ficou na dianteira, duas vezes o Grêmio empatou, mas o 2 a 2 no placar garantiu a festa rubro-negra. Fabão anotou o primeiro aos anfitriões, até Zé Alcino empatar. O segundo ficaria na conta de Romário, que balançou as redes e mostrou uma de suas clássicas camisas com mensagens – “Seja um vencedor, não use drogas” era a da vez. Scheidt repetiu o placar de 1997, mas Clemer evitou a virada com boas defesas. A sorte dos flamenguistas, todavia, acabaria por ali. Nas quartas de final, aconteceu a famosa virada do Palmeiras, com show de Euler.

Por fim, como agora, um encontro pelas quartas de final. E diferentemente dos jogos abastados de gols do século anterior, placares econômicos. Eram, afinal, um Grêmio prestes a ser rebaixado e um Flamengo que também corria riscos na época. Dentro do Olímpico, o veteraníssimo Zinho garantiu a vitória por 1 a 0. Tabelou com Negreiros, deu um corte seco no marcador e, diante do goleiro Ricardo Tavarelli, mandou a bola no canto, sem chances de defesa. Ótimo resultado para o reencontro no Maracanã.

O empate sem gols no Rio de Janeiro escondeu uma partida bastante movimentada. Zinho e Felipe orquestravam o meio-campo do Flamengo. No primeiro tempo, além das chances desperdiçadas, cada time acertaria a trave uma vez. Já na segunda etapa, brilhou o goleiro Júlio César. Em sua melhor fase pelos rubro-negros, pouco antes de deixar o Brasil, o camisa 1 acumulou milagres e assegurou a classificação de sua equipe. A caminhada do Fla perduraria até a final – aquela que os torcedores preferiam nunca ter existido, com o triunfo do Santo André.