Quando aborda as tensões diplomáticas no Oriente Médio, o noticiário muitas vezes se concentra nos atritos entre Israel e os países árabes ou nos conflitos internos de Síria, Iraque e, às vezes, Iêmen. Mas uma importante disputa na geopolítica se dá entre Arábia Saudita (sunita) e aliados com Irã (xiita) e aliados, pelo posto de grande força de influência local. E, nesse contexto, o Catar acabou se tornando um pária entre seus vizinhos árabes no Golfo Pérsico. Um problema que já começou a aparecer também no futebol.

Em julho do ano passado, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Egito e Bahrein exigiram que o Catar tomasse diversas atitudes diplomáticas, incluindo o rompimento com o Irã. Os catarianos rejeitaram a ideia, e tiveram suas relações com esses quatro países cortadas. A questão ainda está atribulada, e era esperado que haveria alguma sequela quando o Al Gharafa tivesse de ir a Abu Dhabi para enfrentar o Al Jazira pela primeira rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões da Ásia.

O bloqueio ao Catar impediu aeronaves da Qatar Airways a sobrevoar o espaço aéreo emiratense e saudita. Obrigados a dar uma volta por esses países, os voos se tornam mais longos e caros, tirando da companhia aérea catariana o poder de disputa com a Emirates e a Etihad pelo crescente mercado de ligação entre ocidente e oriente. E, no caso do Al Gharafa, tornando sua ida a Abu Dhabi em uma epopeia.

A delegação teve de pegar um avião até Mascate, capital do Omã, onde chegou à 0h40 do sábado (dia 10), e de lá fazer uma conexão para os Emirados, com voo saindo às 2h. Quando a aeronave estava para sair, o comandante recebeu a informação de que o aeroporto de Abu Dhabi estava fechado devido ao mau tempo. Os jogadores tiveram de ficar oito horas em Mascate até o avião ter autorização para decolar, mas, de fato, houve nevoeiro no aeroporto durante aquela madrugada e vários voos atrasaram ou foram desviados.

Os problemas reais aconteceram na chegada a Abu Dhabi. Segundo o meia Fahad Al Shamari, a delegação ficou presa na imigração porque o sistema proibia pessoas com passaporte catariano a entrar em território emiratense. Isso só foi contornado quando dirigentes do Catar contataram a AFC (confederação asiática) e a Fifa, que intervieram. Depois disso, seguranças do aeroporto teriam revistado todas as bagagens, jogando os pertences de jogadores e da comissão técnica no chão durante o processo. Toda a demora na chegada fez que o Al-Gharafa perdesse o treino que havia marcado para o sábado.

O hotel em que o time ficou hospedado estava vigiado e qualquer pessoa que tivesse contato com um catariano era questionada pelas autoridades. O treino de domingo também teve hostilidades, com todos os jogadores tendo de passar por nova revista antes mesmo de entrar no estádio.

Na partida em si, o Al Jazira também evitou qualquer gesto de cordialidade. O goleiro Ali Khaseif e o atacante Ali Ahmed Mabkhout, que se revezam no posto de capitão, deram a braçadeira para o meia marroquino Mbark Boussoufa. Desse modo, o clube emiratense evitou que um cidadão do país cumprimentasse um catariano. No final, o Al Jazira venceu por 3 a 2, com Romarinho fazendo um dos gols.

O caso ocorreu no último dia 12 e foi revelado apenas no final da última semana. Mas talvez não tenha sido isolado. Pela segunda rodada, os catarianos Al Rayyan e Al Duhail visitaram os emiratenses Al Ain e Al Wahda. Nos dois episódios, os times da casa também trocaram de capitães, colocando estrangeiros para cumprimentar os adversários. Ao menos, não houve relatos de outras hostilidades, como também na visita do Al Sadd ao Al Wahda. Já os duelos entre iranianos e sauditas acontecem em Omã, justamente por conta dos atritos diplomáticos. Nesta segunda rodada, o Esteghlal enfrentou o Al-Hilal na cidade de Seeb. E as animosidades ficaram claras quando os jogadores sauditas não respeitaram o minuto de silêncio em tributo a um acidente aéreo ocorrido no Irã, que deixou 66 mortos.