Muita coisa aconteceu ao mesmo tempo na vida de John Terry. Entre perder a braçadeira de capitão da Inglaterra por uma acusação de racismo, não jogar a final da Liga dos Campeões que o Chelsea ganhou por estar suspenso, aposentar-se da seleção e ser preterido por Rafa Benítez, os últimos meses do zagueiro foram complicados. Não à toa, o outrora confiante – e arrogante – jogador de futebol perdeu a auto-estima. A luz no fim do túnel acabou sendo um velho conhecido: José Mourinho.

“Minha carreira está onde está por causa desse homem”, disse Terry, confirmando com a cabeça, embora não fosse necessário, que referia-se ao português, na entrevista às vésperas da partida da Liga dos Campeões contra o Schalke 04, na qual será titular. “Ele chegou e disse: ‘É simples: se você estiver bem, estará no time. Se não estiver, não vai jogar’. Desde que ele foi anunciado, eu fiquei animado. Voltei para a pré-temporada uma semana antes para estar pronto. Queria impressioná-lo”.

Com Rafa Benítez não era assim. Terry sofreu lesões, ficou boa parte da temporada afastado, mas, mesmo quando entrava em campo, jogava bem e fazia gols – marcou seis -, não conseguia manter-se titular. Atuou apenas 14 vezes na Premier League, duas na Liga dos Campeões e seis na Liga Europa sob o comando do treinador espanhol interino. Pouco para quem já foi votado como um dos três melhores jogadores do mundo e defende o Chelsea desde 1998.

“Eu não duvidei de mim mesmo. Quando você tem lesões, é difícil manter a forma e impossível se ficar entrando e saindo do time. Quando joguei, fui bem e fiz gols, mas o treinador preferiu os outros dois (Gary Cahill e David Luiz). Tudo bem. Joguei pelos reservas, em segredo, para manter a forma, mas sempre tive certeza da minha capacidade”, afirmou.

Mourinho não tem tanta certeza. Em entrevista ao The Guardian, disse que Terry está recuperando a sua auto-estima após tantos problemas. “Pareceu, em certo momento, que a carreira dele estava indo na direção errada. Até eu estava questionando, de longe, o que estava acontecendo. Problemas físicos? Psicológicos?”, contou o treinador.

O português não mexeu apenas com a auto-estima do jogador. Sem a explosão física de antigamente, o zagueiro mudou o seu estilo. Nas oito partidas da Premier League nesta temporada, desarmou 0,6 vezes e interceptou 0,9 bolas. Em 2011/12, quando atuou 31 vezes com André Villas-Boas e Roberto Di Matteo, essas médias eram maiores: 1,8 e 1,9, respectivamente. Isso indica que Terry está evitando o combate, dando menos botes e apostando mais no posicionamento, tanto que o número de bolas afastadas cresceu de 5,8 para 7,4 por jogo.

“A idade não faz muita diferença nessa posição”, justificou Mourinho. “O jogador começa a depender mais do posicionamento, na leitura do jogo e de estar na hora certa no lugar certo. A experiência ajuda. Em vários clubes, há zagueiros de 30 a 34 anos. John está provando sua qualidade. Pelo que fez pelo Chelsea na última década, merece voltar ao caminho certo”.

E é realmente a última chance de Terry. O contrato do defensor termina ao fim da temporada, mas fica difícil imaginar que Mourinho, o homem responsável pela sua carreira estar onde ela está, vá dispensá-lo assim, sem mais nem menos.