Como o escândalo da Fifa pode abrir a caixa preta da Libertadores na TV

Uma das maiores caixas pretas do futebol sul-americano está nos direitos de transmissão da Copa Libertadores. Ninguém sabe quanto a Fox paga à Conmebol para transmitir o torneio, uma vez que a emissora é, na prática, co-organizadora da competição. Porém, essa caixa preta pode estar com os dias contatos. Um dos 14 indiciados pelo FBI no escândalo de corrupção é personagem-chave para a negociação de direitos de TV da Libertadores e de várias competições sul-americanas: Alejandro Burzaco, executivo-chefe da argentina Torneos y Competencias e o sujeito de boné conversando com delegado da Conmebol e o goleiro Orión na foto acima.

VEJA TAMBÉM: Quem são os “co-conspiradores” na investigação do FBI sobre corrupção na Fifa

A empresa é contratada pela Fox para produzir o canal Fox Sports Latinoamérica, subsidiária da Fox na América do Sul. Nas palavras da própria empresa em seu site, “TyC produz a Fox Sports para todo o cone sul, dos seus próprios estúdios de TV sediados no prédio da rua Balcarce”. Além disso, a empresa negocia direitos de transmissão (assim como a Traffic, de J. Hawilla), é dona da revista El Gráfico e tem 50% do canal TyC Sports (os outros 50% são do grupo Clarín, um dos principais conglomerados de mídia da Argentina).

A empresa foi a detentora dos direitos de transmissão do Campeonato Argentino com exclusividade entre 1985 e 2009, quando foi criado o Fútbol Para Todos, um projeto de nacionalização do futebol local e que também enfrentou acusações de corrupção.  Mas vai além disso.

A TyC é uma das mais importantes empresas de negociação de direitos esportivos na Argentina, exercendo um papel parecido com a da Traffic de J. Hawilla no Brasil. E apesar de ter perdido os direitos de transmissão do Campeonato Argentino para o governo, é justamente a administração de Cristina Kirchner o principal cliente da Torneos. Afinal, o poder federal estatizou o esporte com o Fútbol para Todos, mas como não é uma emissora de TV, contrata justamente a Torneos para fazer as transmissões de jogos da segunda divisão e de alguns jogos da primeira. Por esse serviço, o governo pagou 44,2 milhões de pesos argentinos (R$ 15,7 milhões) à empresa entre 2010 e 2012, conforme divulgado pela Auditoría General de la Nación (AGN). Para se ter uma ideia do quanto esse valor é baixo, a menor cota de TV do Campeonato Brasileiro da Série A é, até este ano de 2015, R$ 27 milhões (cota de times como Coritiba, Goiás, Sport, Vitória, Bahia e Atlético Paranaense).

VEJA TAMBÉM: De dono do futebol brasileiro a delator: a ascensão e queda de J. Hawilla

Outro ponto que faz a Torneos ganhar dinheiro é a venda de direitos de transmissão. O governo comprou da Torneos a os direitos da Copa do Mundo de 2014 (e contratou a empresa para fazer a transmissão), a Copa América, o Sul-Americano sub-20 e o Mundial sub-20, pelos quais pagou US$ 20 milhões (cerca de R$ 63,5 milhões), para serem exibidos no Canal 7 e DeporTV. Menos do que recebem Palmeiras e Vasco pelos direitos do Campeonato Brasileiro, cerca de R$ 70 milhões cada.

É uma relação constante. Afinal, a Torneos também é cliente do governo argentino: compra dele os direitos do campeonato nacional para vendê-los no exterior. Segundo dados da AGN, a empresa pagou 54 milhões (R$ 19 milhões) de pesos argentinos por estes direitos em 2011 e 2012. Esse valor pagaria cerca de dois meses da folha salarial do Corinthians (mais de R$ 8 milhões).

Os valores artificialmente baixos não são por acaso. Com os acordos feitos e dinheiro pago por fora a intermediários, o valor pago pelo serviço em si acaba sendo menor. Em uma licitação aberta, o valor seria maior. Com pagamento de propinas ou mesmo troca de favores políticos, o valor pago diretamente acaba sendo menor.

As manobras

Em todas essas negociações, Alejandro Burzaco é uma peça-chave. Segundo o documento divulgado pelo Departamento de Justiça americano, Burzaco, assim como outros acusados (entre eles Hugo Jinkis e Mariano Jinkis, também argentinos, donos da empresa de marketing esportivo Full Play), “pagaram subornos e propinas para obter e reter contratos de direitos de mídia, com o acusado José Marguiles operando como intermediário para facilitar e fazer esses pagamentos”.

O documento conta que Burzaco, junto com Hugo e Mariano Jinkis, desembolsaram muito dinheiro em propina para obter acesso a uma série de direitos da Concacaf e da Conmebol logo que Nicolás Leoz deixou o cargo de presidente da Conmebol. Na época, quem assumiu foi Eugenio Figueredo, que ficou também com a posição de Leoz no Comitê Executivo da Fifa.

VEJA TAMBÉM: Entenda por que os Estados Unidos foram responsáveis pela prisão de dirigentes da Fifa

Os acusados ainda criaram um esquema para juntar-se e acabar com a concorrência. Junto com J. Hawilla, Burzaco, Hugo Jinkis e Mariano Jinkis criaram a Datisa, empresa de marketing esportivo que pagou US$ 317,5 milhões (o equivalente a R$ 1 bilhão) para ter os direitos mundiais exclusivos das Copas América de 2015, 2019 e 2023, além da Copa América do Centenário, em 2016. A empresa, então, gastou mais U$ 35 milhões para também ser a organizadora da Copa América do Centenário de 2016. Para conseguir tudo isso, a Datisa concordou em bancar US$ 110 milhões em propina para os acusados Jeffrey Webb (presidente da Concacaf), Eugenio Figueredo (presidente da Conmebol), Rafael Esquivel (presidente da Confederação Venezuelana de Futebol), José Maria Marin (presidente da CBF) e Nicolás Leoz (ex-presidente da Conmebol). Segundo o documento, ao menos US$ 40 milhões (R$ 127 milhões) deste combinado já foram pagos.

Este é apenas um dos episódios descritos envolvendo Burzaco. Um dos mais simbólicos aconteceu no dia 1º de maio de 2014. Naquela data, os acionistas da Datisa se encontraram para uma entrevista à imprensa, na qual anunciaram a Copa América do Centenário e discutiram o esquema de propinas. Em determinado momento, Burzaco teria afirmado, segundo o documento: “Todos nós podemos sofrer com esse assunto… Todos nós podemos ir para a prisão”. O que deixa claro que a investigação tinha acesso a gravações telefônicas.

As autoridades argentinas receberam pedidos de extradição de Alejandro Burzaco, Hugo Jinkis e Mariano Jinkis. O oficial Aníbal Fernandez declarou que os pedidos de extradição foram recebidos dos Estados Unidos na quarta-feira e foi direto para os tribunais argentinos. “Há uma investigação em andamento”, declarou Fernandez aos repórteres.

Com Burzaco sendo acusado, a Torneos pode ser atingida, o que influenciaria diretamente na Libertadores. No cenário ideal, a Conmebol talvez tenha que mudar, transformando também sua principal competição e as vendas dos seus direitos de transmissão.

Se este cenário se concretizar, os valores pagos pela transmissão do torneio podem aumentar, outras emissoras talvez entrem na disputa e, quem sabe,  isso pode deixar a Libertadores bem mais lucrativa aos clubes. Uma revolução no futebol sul-americano pode estar em andamento. A maior caixa preta do continente pode finalmente ser aberta. É esperar para ver.